Pesquisar é partilhar

14 de outubro de 2009 Processocom

Joel Felipe Guindani

Para o quê serve o conhecimento social que a ciência acumula com a participação do meu trabalho? Para quem ou a quem, afinal, isso serve? Para que usos e em nome de quem? A minha pesquisa diz alguma coisa para o universo que pesquiso?

Questões como essas têm ocupado boa parte da caminhada acadêmica de alguns pesquisadores. Manter uma postura atenta e crítica a respeito das condições sociais, políticas e culturais da produção científica, principalmente mediante as formas mercadológicas e hegemônicas de saber são, certamente, indispensáveis para quem deseja fazer ciência a partir de um processo dialógico, que gere comprometimento e partilha ao invés de dicotomias entre pesquisador e o mundo pesquisado.

Nessa perspectiva, o professor colombiano Antonio Brandão alerta para a necessidade de uma nova ciência capaz de pensar-se, de pensar o mundo social e de pensar as transformações sociais de uma maneira dialética, realizada a partir da presença, da posição e dos interesses das classes menos favorecidas. Por aí, afinam-se outros atributos como a reciprocidade entre sujeito e objeto e relação dialética entre teoria e prática, acúmulo e partilha do conhecimento.

No dia 29 de Junho de 2000, em aula inaugural no Collège de France, Pierre Bourdieu enfatizou que os pesquisadores/intelectuais realizam um papel importante se cumprirem duas condições: “não se fecharem em uma torre de marfim e inventar a maneira de divulgar suas verdades. A verdade, dizia Spinoza, não tem força por si só. Os intelectuais devem ser parte do movimento junto com os sindicatos ou grupos de pesquisa comprometidos com as associações que se esforçam pela crítica àquilo que oprime”. Ao finalizar, ele acrescentou: “O intelectual isolado, pode-se dizer, é o fim”.

No chão latino americano, a modalidade metodológica da pesquisa-participante tem sido uma porta de acesso à construção e à partilha do saber. A pesquisa-participante parte de um enfoque epistemológico no qual o conhecimento é considerado uma construção social permanente e não um ‘conhecimento’ que o ‘especialista’ extrai da realidade mediante procedimentos estatísticos, mas à margem da verdadeira voz e sentimento da população.

Vale ressaltar que na modalidade de pesquisa participante o papel do pesquisador não desaparece ou diminui, mas entra em articulação com outros sujeitos que também passam a contribuir com o processo de construção do conhecimento. Toda a pesquisa gera aprendizagem e toda aprendizagem, quando partilhada, gera outras mudanças. A pesquisa participante quer a interação múltipla de sujeitos: pesquisar é um ato de sujeitos, um movimento que reflete vida e que gera vida.

Este engajamento entre pesquisador e os sujeitos do universo investigado produz alternativas capazes de colocar o conhecimento, obtido através de procedimentos científicos, a serviço de alguma forma de ação social transformadora.

Paulo Freire, em entrevista reproduzida pelo Canal Futura, em setembro de 2009, lança-nos um questionamento: “Em tempos onde problemas sociais e ambientais se apresentam evidentes; onde movimentos sociais e continentes inteiros são atacados pela violência e pela fome, torna-se concebível uma pesquisa científica descomprometida com tal realidade?”

Afinal, de que lado estamos? Como diz Boaventura de Souza Santos, no seu livro “Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social”, esta é uma questão que possivelmente será respondida na medida em que expandirmos nossa razão e nosso coração. Eis ai o desafio não apenas para pesquisadores, mas acima de tudo para seres humanos ousados e sensíveis aos problemas de seu tempo.

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