Jornalismo Unisinos – 2017/1

1 de setembro de 2017 Ismael Ferreira

Franciele Gabriela Wenzel
Oradora do curso de jornalismo 2017/1 – Unisinos

 

Gostaria de agradecer, primeiramente, a presença dos nossos convidados e convidadas, familiares e amigos, obrigada por dividirem conosco este momento. Também saúdo a presença do Prof. Dr. Carlo Franzato, e demais componentes da mesa, boa noite!

Estamos aqui para celebrar a nossa formatura, este momento tão aguardado que é a conclusão de todos esses anos de estudo, de evolução pessoal e profissional. Esta turma de jornalistas que aqui se apresenta, não era exatamente uma turma até seis meses atrás. Nós aprendemos a nos gostar, a decidir as coisas juntos, dar risada, e também a discutir juntos, claro, como parte do processo de se reconhecer. A verdade é que aconteceu de tudo um pouco nesse último semestre, e hoje, com certeza podemos dizer que nós nos conhecemos.

Eu agradeço aos colegas pela oportunidade de representá-los neste discurso, e pretendo contemplar as pautas que nos são comuns e que foram deliciosamente debatidas nos nossos encontros.

Não estou aqui só para falar sobre aquilo que nós somos, mas também sobre aquilo que vamos nos tornar esta noite, oficialmente. Comunicadores sociais, Jornalistas. Tenho certeza que essa descoberta da profissão aconteceu de forma diferente para cada um e cada uma de nós, já que os perfis dessa turma são distintos, vindos de cidades e contextos diferentes.

E pensando no que significa ser um comunicador, em como eu poderia explicar o ser jornalista para cada um de nós, a melhor definição que encontrei sobre o momento em que nos tornamos ou nos descobrimos jornalistas, é quando  encontramos a nossa própria voz.

Seja no ato de escrever, seja no ato de conversar com as pessoas e contar a história delas. Descobrir a própria voz significa entender que o que vemos do mundo passa através da nossa pequena janela, a perspectiva, o nosso lugar de observação. Porque quando assumimos quem somos perante o mundo, também entendemos o mundo, e as diferentes vozes que compõem a sociedade.

E é quando conseguimos enxergar o quão pequeno é nosso recorte, nosso ponto de vista, que entendemos a necessidade de ouvir o outro, de aprender a ampliar as imagens que vemos do nosso cômodo lugar sentados à janela. É nesse momento que descobrimos a nossa missão de contar a vida e a sua diversidade de fontes, pensamentos, informações e opiniões.

Por isso, assumimos o compromisso de valorizar o poder da comunicação, de estabelecer vínculos através do nosso trabalho, e de compreender que a objetividade não é o mesmo que omissão. Em uma sociedade onde o poder da informação, e das palavras que escolhemos para transmití-la, define o rumo da vida das pessoas, o silêncio é opressão e indiferença.

Confundir imparcialidade com omissão é um problema recorrente no jornalismo brasileiro. E se tem uma coisa que nós aprendemos nas aulas do professor Pedro Osório, é que a ética, é muito importante para se construir como jornalista. Omitir, negligenciar e manipular a informação são tendências dos grandes veículos de imprensa que se concentram nas mãos dos mesmos empresários e suas famílias, sempre com grandes interesses políticos. Segundo informações da Agência Nacional de Telecomunicações, Anatel, 32 deputados e oito senadores são proprietários, sócios ou associados de canais de rádio e TV. E isso é ilegal, segundo a Constituição

Mas nem por isso devemos perder a crença de que é possível produzir com credibilidade e de forma independente. Mesmo assim, fica a dúvida de como se posicionar sendo jovem jornalista, crítico e engajado? Há quem critique a nossa ética como militância, principalmente quando não aceitamos as condições irregulares em que a nossa profissão é exposta.

Aliás, vamos falar sobre o mercado de trabalho? Em janeiro deste ano, a maior empresa de comunicação do país, demitiu mais de 15 jornalistas no que eles chamaram de “reestruturação do negócio”. De lá para cá, somam-se as demissões em massa. Jornadas extras, contratos de freelas fixos, fazem com que a perda de direitos atinja diretamente o exercício do jornalismo. Eu sei e vocês já descobriram que em nossa profissão existe um mito sobre o que é ser jornalista e sobre o lugar onde trabalhamos. Quem já não ouviu aquela pergunta de uma pessoa da família ou alguém conhecido: “quando é que eu vou te ver apresentando o jornal nacional?”. A verdade é que essa profissão tem menos de glamour, e mais de um mercado desestruturado e explorador.

Da turma de jornalismo que se forma hoje, menos da metade permanece empregado após a formatura. E essa é a realidade de muitos universitários brasileiros. Dos que conseguem ingressar no ensino superior, cada vez mais elitizado, muitos vem adiando a conclusão do curso para que possam se manter empregados, como estagiários, em cargos que exigem mais funções por menos remuneração. Aquela ideia de funcionário multimídia, onde uma pessoa acumula funções que poderiam ser realizadas por outros dois ou três profissionais. E quem aqui nunca ouviu ou passou pela experiência de ser estagiário trabalhando oito horas? Acontece e muito, mesmo sendo ilegal. É preciso lutar e se organizar contra essas condições para que nenhum de nós precise se sujeitar a este tipo de exploração.

A precarização das condições de trabalho se agravaram ainda mais com a perda de direitos que representou a Reforma trabalhista, projeto votado em uma rapidez nunca antes vista no Congresso Nacional. Quatro meses de conversas restritas, sem consulta ou validação popular, e a reforma se fez representando um verdadeiro retrocesso para os direitos de toda a classe trabalhadora.

E quanta perda nós temos assistido nesse enredo da política nacional, que se parece mais com uma série do Netflix. Congelamento de gastos públicos, a venda e exploração dos territórios originalmente ocupados pelos povos originários, o genocídio indígena e quilombola. Um misto de tragédia e vergonha.

E nós nos mantemos numa sufocante inércia a espera de alguma solução. Não sabendo o que esperar. Ou já sem esperar mais nada. Enquanto falamos aqui sobre direitos e deveres da nossa profissão, um senhor branco, hétero e ilegítimo ocupa a cadeira da presidência do nosso país. 95% dos brasileiros não aprovam o governo de Michel Temer.

A nós jornalistas, cabe a oposição de qualidade e a cobrança dos fatos. A informação é fundamental para a autonomia de pensamento das pessoas, principalmente nesses momentos em que o mundo está ao contrário e parece que ninguém reparou.

  • Segundo dados da Agência Patrícia Galvão, as mulheres recebem 30% menos que os homens para exercer o mesmo cargo. Para as mulheres negras, essa diferença chega a 60%. E mesmo com onze anos da Lei Maria da Penha em vigor no país, uma mulher é agredida a cada dois segundos. O Brasil é mais violento para as mulheres do que a Síria, país que vive uma guerra.
  • A cada 25 horas uma pessoa LGBT morre vítima de violência. De ódio. Somos o país que mais mata transexuais no mundo.
  • Segundo dados do Relatório Mapa da Violência, 23 mil jovens negros são assassinados por ano. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos. E apesar de representar 54% da população brasileira, quantos são os jovens negros no ensino superior do país?

Em meio a essa criminalização da diversidade, a organização não-governamental e internacional Repórteres Sem Fronteiras, que atua na defesa da liberdade de imprensa, contabiliza que ao menos 74 representantes da mídia foram assassinados em 21 países só em 2016. Desse total, 72% foi morta apenas como represália por cumprir a missão de informar. Somos hoje a segunda nação mais perigosa da América Latina para a prática do jornalismo, atrás apenas do México.

E o que nós vamos fazer com isso?

Primeiro, revolução. Não vamos deixar passar discurso de ódio como opinião,  nem crime como posição ideológica. Somos 12 novas formandas de jornalismo nesta turma e sei que elas não se calarão frente ao machismo e as estruturas de poder patriarcais que certamente encontrarão pela frente. Pela diversidade, todos nós estaremos engajados por uma leitura mais humana da realidade, buscando a pluralidade de fontes e representações sociais dos indivíduos. Jornalismo é compromisso social e nós não nos calaremos!

Segundo, também precisamos nos fortalecer enquanto categoria, criar potência para uma atuação com autonomia, fazer isso de forma colaborativa, usando as tecnologias ao nosso favor e sem esperar por receitas inusitadas de um anunciado empreendedorismo, que na verdade esconde a fragilização das relações de trabalho.

E por último, é preciso trabalhar por um jornalismo popular, investigativo, de profundidade e ao mesmo tempo conectado e potente. É desta forma, criando oportunidade para outras narrativas, para outras histórias, que vamos contribuir para uma sociedade diferente daquela que hoje enfrentamos.

Ufa! Porque foi mesmo que a gente escolheu o jornalismo? Quando entramos no curso, há uns quatro, seis, ou até dez anos, como foi para alguns, não sei se imaginávamos tudo que ia acontecer, em como a nossa profissão iria mudar. Tudo o que iríamos conhecer e nos tornar. A apreensão dos primeiros dias de curso, o dilema de encontrar a sala, conhecer as pessoas, se adaptar, mudar de cidade.

Hoje, os desafios são outros. Inseguranças à vista para todos. Buscar um emprego, uma especialização, um mestrado, viajar, tentar aquela vaga, comprar uma casa, ou pagar mais uns boletos que ainda faltaram. Saímos fortalecidos pelas nossas experiências e mais conscientes sobre nosso papel no mundo. E sobre como podemos fazer a diferença daqui para frente. Dúvidas virão, e cabe a nós também perguntar, fazer questionar. Só assim é possível existir visibilidade democrática real e liberdade de imprensa.

E sejam quais forem os nossos rumos, acredito que estamos todos e todas em busca da nossa própria voz. Talvez tenha sido este um dos motivos de buscar o jornalismo. O olhar atento das pequenas coisas, entender o que falta ser contado. Buscar palavras, imagens e quaisquer outros recursos que nos ajudem a contar a realidade que nem sempre é simples ou bonita como gostaríamos de imaginar.

Para finalizar, agradeço em nome dos colegas, aos nossos pais por terem acreditado nesse sonho junto conosco, e participado dessa fase tão decisiva em nossas vidas. Sem vocês, nada disso seria possível. Clichê mais verdadeiro não há.

Gostaria de deixar registrado que esta turma carrega a marca da inclusão, e graças às bolsas do PROUNI muitos colegas puderam realizar o sonho de se formar. Também agradeço a universidade e a coordenação do Jornalismo pela estada no curso, e pela oportunidade de nos tornamos jornalistas na melhor universidade particular do Rio Grande do Sul. Fica o pedido de que se mantenha a qualidade e a expansão, sem que isso elitize a educação e inviabilize a diversidade no ensino superior.

Citando a Pagu, Patrícia Galvão, concluo minha fala:

Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.

 

 

Muito obrigada!

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