O saber de experiência

6 de julho de 2017 Processocom

Júnior Melo da Luz

Mestrando do PPGCOM/Unisinos

O pensar metodológico é capaz de propor inter-relações entre a experiência e os conhecimentos teóricos e/ou informativos. Quando nos dispomos a criar, a “viver” uma trajetória investigativa – em um processo não tecnicista ou cartesiano – a fluência e a reflexão geram as instabilidades que causam os impactos emocionais e até mesmo físicos da “experiência”. Desde a escolha das palavras que, como problematiza Larrosa (2002), determinam nosso pensamento, até aquilo que “nos passa, nos toca, nos acontece”, é necessário imergir nas processualidades, na singularidade de nós enquanto sujeitos, de viver para construir um saber, dialogar entre empiria e teoria.

Vejo a experiência como o viver, a formação de uma lógica humana, criativa, singular para a ciência. É ela quem tira o caráter meramente “opinativo” das nossas reflexões. Quando saímos do comodismo teórico e nos desafiamos à criatividade epistemológica, é possível então encontrar sinais nos “erros”, problematizar as escolhas feitas na pesquisa, e ir além do relatório formal. Porém, para refletir, é necessário não apenas um repertório teórico ou exercícios discursivos, mas uma legítima dedicação, de “parar para pensar”, de prestar atenção ao detalhe, aos Outros e, principalmente, a nós mesmos. Penso que a ciência se constrói quando o pesquisador entra no embate consigo mesmo, quando reconhece suas limitações e potencialidades e escolhe se orientar na construção de uma verdade longe de hipocrisia, considerando uma vivência social que reconheça o valor da alteridade.

Não há ninguém que se conheça melhor do que nós mesmos, por isso é fundamental a autoanálise, o olhar para dentro de nós. Cada palavra nossa é dotada de significados que, para nós, dizem respeito a algo; mas para o Outro, tem interpretações diversas. O cuidado no tratamento das palavras e em nossas posições é importante, é nosso “dar a ver” enquanto sujeitos no mundo. São as nossas sensibilidades e o modo como dialogamos que permitirão um “encontro”, uma verdadeira viagem transcendente e intercâmbio de conhecimento. É nesse “encontro” que colocamos em prática a construção do conhecimento, conversando com pessoas, sujeitos e cidadãos do mundo. Nós existimos na relação, na troca e no encontro.

Sinteticamente, o texto de Larrosa (2002) me leva a pensar nesse “saber de experiência” enquanto processo de aprendizado constante, de construção investigativa singular, mas que requer uma perspectiva do Outro para embate, reflexão e criação. Lembro da viagem ao México que realizei no ano passado, em que a observação e vivência com outras culturas me permitiu ampliar, crescer enquanto sujeito, aprender verdadeiramente o sentido que palavras não expressam. A experiência, para mim, está relacionada a esse amor pela pesquisa, pelas descobertas e pela vivência do fazer, do refletir e do criar. Somos plurais, heterogêneos, múltiplos e inters quando “experimentamos”.

Eu, em frente à Pirâmide do Sol, em Teotihuacan, no México. Transformações que se realizam pela experiência.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação, nº 19, jan./fev./mar. 2002, p 20-28.

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