Anitta for export

31 de Maio de 2017 Processocom

Júnior Melo da Luz

Foto: Divulgação do clipe de Paradinha. Fonte: Reprodução.

Ame ou odeie, mas é impossível deixar a presença de Anitta passar despercebida. Tendo dominado o mercado nacional com singles que grudam na cabeça[1], agora ela emplaca uma música completamente em espanhol. Sua aproximação à cultura hispânica já começou em 2016, quando realizou um dueto com o cantor colombiano Maluma, ensaiando um portunhol. Há poucas semanas, lançou uma música em parceria com a rapper australiana Iggy Azalea, cantando em inglês. E não para por aí: suas referências são multiculturais, fizeram sucesso no Brasil e hoje viraram produto de exportação.

Desde 2013, ela vem trilhando um caminho que mistura o funk carioca com o pop, o samba, o reggae, o rap e vários outros gêneros, que não a limitam em um ou outro viés musical. Agora, aproveitando que o reggaeton está dominando as rádios e a internet, lançou o clipe da música Paradinha, que de paradinha não tem nada. Basicamente, o vídeo mostra a cantora rebolando e coreografando em vários cenários de Nova York: supermercado, lavanderia, estação de metrô… e as pessoas até dão uma paradinha pra dançar com ela. Os figurinos constroem a imagem de uma mulher latina empoderada, sem medo de mostrar o corpo, com tranças ao estilo afro e dançando pra valer.

Será que ela descobriu uma fórmula de sucesso? Quer vender uma imagem? Com certeza, mas por trás do mercado fonográfico, há também uma porta que se abre para a visibilidade. Por incrível que pareça, ela é somente a segunda artista do Brasil a conseguir espaço para se apresentar em um programa nos Estados Unidos[2]. Antes disso, apenas Carmen Miranda teve essa oportunidade – lembrando que Carmen era portuguesa, radicada brasileira. A problematização a ser feita nesse quesito, porém, exige maiores indagações que determinismos. Se a mulher latina está sendo vista aí, nas terras dos “gringos”, que imagem está construindo? Talvez rebolar a bunda e mostrar o corpo não contribua para “promovê-la”? Só para os machistas, meus caros. Afinal, ela não está “brincando”. Ela está se afirmando.

Se tantas artistas internacionais têm a mesma atitude performática, a brasileira tem o mesmo direito. E mais! Precisa desse espaço para mostrar, apenas, que ela existe. Talvez os poucos minutos de Anitta na TV estadunidense não foram suficientes, ainda mais se comparados ao espaço dos artistas “locais”. No entanto, é preciso reconhecer que está acontecendo um choque cultural, o Outro chegou lá dentro atravessando a fronteira, mesmo que Trump(oso) não queira. Em inglês, espanhol, português, a música é linguagem universal. E Anitta é intercultural. Se ela não se perder mais em seus próprios comentários machistas e egocêntricos, e continuar crescendo pessoal e profissionalmente, teremos uma cantora exportada, orgulhosamente made in Brazil.

Confira a performance de Switch, parceria com Iggy Azalea.

[1] Ouça Bang!, Sim ou Não e Show das Poderosas e tente esquecer a letra e o ritmo.

[2] Ela se apresentou ao lado de Iggy Azalea, performando a música Switch, em maio de 2017, no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon.

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#Anitta#interculturalidade#música popular brasileira#pop

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