Notas sobre ficção científica

9 de maio de 2017 Processocom

Fabio Pinto

Pode-se dizer que o desejo de voar é um desejo arquetípico, pois faz parte de nossa vontade de superar a natureza, de suplantá-la com os recursos disponíveis, especialmente os recursos físicos, as possibilidades do corpo. Também são arquetípicos os medos como o da escuridão, do desconhecido, do sofrimento, de que nos ocorra o que absolutamente não desejamos. Por isso não é nada supreendente nossa suscetibilidade para acreditar em histórias em que um desejo como o de voar ou de ler mentes seja satisfeito, ou em que um medo como o de ser abduzido ou dominado por seres da nossa ou de outras espécies se materialize. Quando alguém trata do que desejamos ou do que temos medo pela via da ficção, a tendência é que acreditemos nela. Eis aí as peças do jogo da verossimilhança: a habilidade do ficcionista em criar a partir dos desejos e dos medos e a vontade da audiência de acreditar que esses desejos ou temores podem se tornar reais.

A ficção científica é um gênero cuja força está, em grande medida, nos desejos e medos arquetípicos que mobiliza. Desejos como o de viajar pelo espaço, ter força sobre-humana, ser imune a qualquer ameaça, e medos como o da necessidade de lutar pela sobrevivência, a invasão, a superioridade técnica do invasor, a destruição da cidade, o desequilíbrio das proporções e temporalidades (insetos gigantes, monstros de aparência pré-histórica), a lavagem cerebral. O poder de atração do gênero também tem muito a ver também com a verossimilhança. É a partir deste elemento do pacto entre autor e público que se pode explicar a crença dos leitores que se depararam com a notícia publicada em 13 de abril de 1884, no jornal New York Sun, de que um balão teria atravessado, em três dias, o Oceano Atlântico.

Cheia de detalhes técnicos, citando os nomes de engenheiros e inventores conhecidos do grande público, a notícia causou espanto: tratava-se de uma façanha inédita e quase tão inacreditável quanto uma viagem à lua, algo que, já à época, povoava o imaginário dos leitores. A notícia, que ficou conhecida como “The Ballon Hoax” (“O Embuste do Balão”) foi desmentida, dois dias depois, por seu autor, Edgar Allan Poe. “The Ballon Hoax” é considerada o marco inaugural da ficção científica verossímil: o momento em que a descrição cuidadosa de um determinado instrumental técnico é colocada a serviço da narrativa ficcional e leva o leitor a tomá-la como verdade.  Além do talento de Allan Poe no uso da verossimilhança, é possível perceber, no episódio, indícios do poder crescente de inserção do par ciência e ficção no imaginário popular. Poder que aumentaria muito com a Revolução Industrial e através da inventiva cabeça de um atento leitor de Edgar Allan Poe, Julio Verne.

Cartum de Kate Beaton satirizando a admiração de Julio Verne por Edgar Allan Poe.

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