Outra janela que se abre: o cinema produzido pelos Pataxós da Bahia

31 de agosto de 2016 nosoymarcelo

Helânia Thomazine Porto

A produção do curta-metragem A lenda do Monte Pascoal: uma história de amor que atravessa o tempo, gravada nas aldeias que estão inseridas no Parque Nacional de Monte Pascoal, no município de Porto Seguro (BA), e nas aldeias Pé do Monte e Aldeia Nova, no município de Itamaraju (BA), tem como base as narrativas da cultura oral do povo Pataxó, em que o surgimento do monte é explicado de forma mitológica por meio da história de amor do casal de jovens Pataxós, Zabelê e Yamalwhy. No enredo, Yamalwhy, ao defender o seu território da invasão de grileiros, tem sua vida ceifada. A sua esposa Zabelê, inconformada, pede a Tupã que traga seu amado de volta, assim, o seu pedido é atendido pela transmutação do corpo de Yamalwhy em monte sagrado, no Monte Pascoal, e Zabelê para viver sempre junto do amado se lança do monte adquirindo a forma de ave, passa a ser Zabelê, a ave símbolo de resistência do povo Pataxó, pois faz alusão à matriarca do povo Pataxó, Luciana Pataxó, conhecida por Zabelê.

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Fonte: Facebook | A lenda do Monte Pascoal, maio de 2013

Na produção fílmica todos os personagens foram interpretados pelos próprios Pataxós do território do Monte Pascoal. Entretanto, para que esses atores sociais ocupassem esse espaço, foi necessário o conhecimento da arte cinematográfica. Este só foi possível pela articulação com produtores de mídias da região de Caravelas (BA). Apesar da reprodução de técnicas presentes nesse gênero discursivo, percebeu-se a singularidade nessa construção artístico-cultural, em que as experimentações estéticas, dramatúrgicas, comunicacionais e artísticas se deram também pela improvisação de técnicas e pela criatividade dos envolvidos. Visualizamos nessa experiência a incorporação de um “conhecimento não local” para a divulgação de suas tradições. Conforme considera Thompson (2011), “as tradições não são destruídas, mas ficam cada vez mais entrelaçadas com as formas mediadas de interação, o que as libera das amarras que as prendiam aos locais da vida cotidiana”.

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Fonte: Facebook | A lenda do Monte Pascoal, maio de 2013

Nesse contexto midiático, a identidade cultural cerzida nos lugares assumidos pelos enunciadores, em que não há instâncias clássicas legitimadoras dos discursos, os sujeitos comunicantes são os próprios Pataxós.

Se antes a identidade cultural dos Pataxós era construída e articulada nas lutas pela terra e nas estratégias de afirmação étnica, através da (re)memorização de suas matrizes culturais, agora essas estratégias se (re)configuram, abalizadas nas diversidades de vínculos sociais estabelecidos por outros processos sociocomunicacionais, como pela linguagem do cinema. Nesse processo midiático, a visibilidade dos sujeitos sociais se libertou das propriedades espaciais e temporais, já que não necessita do compartilhamento de um lugar comum, pois o campo de visão foi estendido no espaço e no tempo, já que essa produção poderá ser vista em um futuro distante.

Quanto à aplicabilidade do conceito de habitus, pode ser verificada quando observamos essas ações no ciberespaço, em que há vários exemplos de produções independentes de vídeo, estimulando os agentes a experimentarem essas linguagens. De acordo com Bourdieu, o agente social está condicionado à sociedade, aos sujeitos, às suas relações de força e monopólios, lutas e estratégias, interesses e lucros, ou seja, constituindo-se em espaço de jogo concorrencial. Os Pataxós, como os demais sujeitos, buscam nesse contexto reconhecimento de suas capacidades e notabilidade, levando-os à eleição de formas de comunicação e de temas que os referenciam como indígenas, tornando-os simbolicamente mais visíveis, pois compreendem que o reconhecimento dos direitos desse coletivo está condicionado às avaliações e apreciações de olhares externos.

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Fonte: Facebook | A lenda do Monte Pascoal, maio de 2013

Ainda sobre configurações de esquemas mais ou menos inconscientes de percepção, de ação e de valoração que se inscrevem nos sujeitos a partir do lugar social que ocupam e que se configuram em seus processos midiáticos, colocamos tais argumentos em dialética com os de Thompson (2008), que diz que as táticas de resistência já estão imbricadas nas possibilidades das minorias se apropriarem dos recursos tecnológicos para darem novos sentidos às suas práticas culturais, em que nem tudo poderá ser entendido como reprodução nem como ruptura, conforme percebemos no exemplo apresentado.

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