Quadrinhos ao sul do mundo – Breve notícia sobre a historieta argentina

11 de julho de 2016 Processocom

Fabio Bortolazzo Pinto*

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Venho, desde abril, ocupando este espaço para refletir e desenvolver ideias acerca da relação entre a produção de historietas argentinas, especialmente durante as décadas de 1940 e 1950 e a construção de uma retórica discursiva no campo político que alcançou seu auge durante o chamado primeiro Peronismo (1946 – 1955). Tal retórica, semelhante a de vários outros líderes identificados como populistas[1], procura atrair o apoio da maioria da população através da defesa de valores ligados a conceitos polissêmicos, difíceis de definir e fáceis de manipular, como ‘pátria’, ‘origem’, ‘raça’ ‘tradição’ e ‘nação’. De acordo com uma definição relativamente recente[2], uma nação seria uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e ao mesmo tempo soberana.  O termo ‘imaginada’, no caso, refere-se ao fato de que os cidadãos que fazem parte de uma nação nunca irão conhecer todos os seus pares; o que não o impede de imaginar em comunhão com todos eles. Para além das fronteiras territoriais, da língua, das práticas e dos costumes comuns, o que determina a existência de uma nação é a quantidade de pessoas que acreditam fazer parte dela. O líder carismático, o ‘caudilho’ populista toma para si a função de construir, moldar, direcionar o imaginário nacional. E um dos recursos mais eficientes e imediatos para mobilizar esse imaginário é a criação de um ou mais inimigos.

Se na literatura gauchesca, o que também vale para a historieta criolla[3], certo código de conduta rege o comportamento dos personagens ditos ‘heróicos’, sendo esse mesmo código o que os separa da selvageria circundante, não há nisso grande diferença com relação às narrativas norte-americanas do gênero faroeste ou do tipo ‘capa e espada’. De específico, a historieta gauchesca tem, a rigor, a reconstituição cuidadosa de fatos históricos, de cenários e costumes. A universalidade, porém, de certas questões como a defesa do território, da nação, é algo que ultrapassa a configuração histórica dos gêneros narrativos e se apresenta como um topoi recorrente. Para que exista a necessidade de defesa, é preciso que esteja ao menos sugerido o ataque. Na semântica rudimentar e apelativa do discurso político populista, o ataque virá de fora, de outras nações em que são gestadas ideias alheias – e perigosas – aos interesses do país. Na Argentina, como no Brasil e na maior parte da América Latina, com o fim da 2ª Guerra, o ‘grande inimigo’ recebia às vezes o nome de Imperialismo. Em outras, Socialismo ou Comunismo. No campo da cultura de massas, perdia-se a guerra à medida em que as novelas de rádio e, principalmente, as telas de cinema eram invadidas por cowboys, detetives, soldados e, de 1950 em diante, por naves espaciais, cosmonautas, alienígenas e muita, muita radiação. Perdia-se a guerra, mas não as batalhas: os artistas locais aprendiam rápido, logo estavam não só emulando o estilo e a dinâmica das histórias em quadrinhos estrangeiras, trazendo das telas de cinema um poderoso referencial imagético, mas superando, em muitos aspectos, as matrizes internacionais, predominantemente estadunidenses. Superação e emulação que alguns analistas e pesquisadores da historieta identificam como ‘idiossincrasia criolla’, e que consiste, grosso modo, na fabricação massiva, por artistas argentinos, de produtos de entretenimento cujo modelo narrativo vem de fora do país – em um momento político e cultural ideologicamente comprometido com a ‘defesa’ do nacional.
No caso específico da historieta argentina, um dos autores que, de várias maneiras, dá uma passo adiante, fugindo à percepção meramente dualista – com relação aos modelos estrangeiros, aos conceitos abstratos de pátria ou de nação, ao herói civilizado que combate o inimigo selvagem, ao nacionalismo populista e seus inimigos inventados – é Héctor Germán Oesterheld, que, em 1957, começa um capítulo à parte nesta história.

Assunto para o nosso próximo encontro. Até lá.

[1] Além de Perón, podemos citar Getúlio Vargas como exemplo de líder populista: aquele que centraliza o poder em si, diminuindo a representatividade dos partidos políticos através do estabelecimento de uma relação direta, orgânica (e, geralmente, demagógica), com as classes populares.

[2] ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo. Cia das Letras, 2008.

[3] http://www.processocom.org/2016/06/15/quadrinhos-ao-sul-do-mundo-breve-noticia-sobre-historieta-argentina-2/

*Doutorando do curso de Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).

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