Quadrinhos ao sul do mundo – Breve notícia sobre a historieta argentina

15 de junho de 2016 Processocom

Fabio Bortolazzo Pinto*

Historietas Gauchescas

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Com a sofisticação dos recursos narrativos gráficos e verbais que caracterizam o gênero quadrinístico, é cada vez mais difícil, hoje, defini-lo através de categorias estéticas fechadas, de definições do que seja ou não artístico, popular, erudito etc. Antes, porém, de Umberto Eco ‘legitimar’, por assim dizer, a história em quadrinhos como objeto de estudo[1], parecia haver consenso em defini-las como um produto pop[2] e, como tal, feito para ser consumido e logo descartado, um produto cuja função seria basicamente a de ocupar o tempo livre e dar a um público leitor pouco exigente alguns minutos de distração e fuga da realidade. Assim sendo, compreende-se que a grande preocupação com o conteúdo veiculado através dos meios de comunicação durante, principalmente, as duas primeiras gestões de Perón como presidente da Argentina (1946 a 1952 e 1952 a 1955) não fosse tão rigorosa com relação às publicações especializadas em historietas, ainda que elas tenham alcançado alto nível de difusão durante as décadas de 1940 e 1950. Se assim não fosse, provavelmente a presença de quadrinhos importados, como Pato Donald (publicado pela primeira vez na Argentina em 1944, pela editora Abril), Flash Gordon (1945, pela Dante Quinterno) ou Super-homem (1947, pela editora Muchnick) não passaria despercebida, tendo em vista a ortodoxia do discurso nacionalista característico da política governamental. Discurso nacionalista que, como já foi aqui colocado[3], buscou, como forma de atrair a aprovação e o apoio das classes trabalhadoras – formadas, predominantemente, pela população de origem mestiça – fundir-se semanticamente com uma concepção idealizada, em boa medida, da cultura criolla. Cultura que tem como símbolo máximo, na região do Prata, a figura do gaucho: “La evocación del mundo gauchesco abría las puertas para la visibilización de la presencia de indígenas y afroargentinos, de cruces y mestizajes varios y de colores de piel que no se asimilaban fácilmente al ‘blanco’” (ADAMOVSKY, 2015, p.36). O criollismo seria uma forma de incluir, de modo indireto – sem afrontar os defensores da superioridade étnica branca, presentes e influentes naquela primeira metade do século XX – grande parte da população que se reconhecia mais criolla que qualquer outra coisa. Mesclados o criollo e o nacional, quem faltaria incluir na retórica populista do peronismo?

Enquanto a indústria da historieta recebia do estado um relevante incentivo econômico, reconhecida como importante veículo de entretenimento, de distração para as massas, e investia principalmente na produção de narrativas de aventura – criadas por artistas locais, mas com temáticas nada locais – do tipo ‘folhetinesco’: histórias de piratas, faroestes, ficção científica, suspense etc[4], um outro tipo de historieta, surgida algum tempo antes e contemporânea da ‘era de ouro’, seguia outro caminho, não à margem, mas relativamente autônomo: as historietas gauchescas ou criollas.

O primeiro registro conhecido da representação de um gaucho em quadrinhos é de 1913, na revista PBT. Trata-se de uma narrativa cômica chamada ‘Smith y Churrasco: historias de detetives’, criada por Pedro Rojas e protagonizada por uma dupla de “opostos complementarios, clásica mecánica de los inicios de la historieta: uno con aspecto de inglés y otro vestido de gaucho” (GOCIOL, 2007, p.2)[5]. Décadas depois, em 1939, Enrique Rapela retoma, em um registro totalmente diferente do esquematismo caricato de Rojas, a figura do gaucho, em ‘Cirilo, el audaz’, publicada no diário La Razón. Errante, como o arquetípico Martín Fierro, Cirilo é um fugitivo da justiça – depois de matar, em defesa da honra – que, na primeira metade do século XIX, encontra guarida junto ao exército de Rosas, futuro governador da província de Buenos Aires. Com ‘Cirilo, el audaz’, Rapela estabelece o primeiro grande modelo de historieta gauchesca, cujas características básicas são o desenho realista, rico em detalhes, a linguagem coloquial (a mais próxima possível do registro oral), a violência naturalizada e o respeito às leis. Não necessariamente às leis institucionalizadas, mas a certo código de conduta pautado por conceitos morais como ‘coragem’, ‘honra’ e ‘honestidade’. É trágico o destino dos personagens que desrespeitam tal código, não só na historieta, na literatura gauchesca de modo geral.

‘Cirilo, el audaz’ inaugura oficialmente, por assim dizer, a historieta gauchesca, também chamada de criolla, mas é com dois outros personagens que Rapela se torna um dos autores mais populares dessa modalidade de quadrinhos: ‘El Huinca’, publicado pela primeira vez na revista Patoruzito, em 1957, e ‘Fabián Leyes’, no diário La Prensa, em 1964.  Algum tempo depois das primeiras publicações, tanto ‘El Huinca’ quanto ‘Fabián Leyes’ se tornariam títulos de revistas publicadas pelo próprio Rapela.  

Dois outros autores são referência quando o assunto é a historieta gauchesca: Raúl Roux e Carlos Casalla.

Roux começa nos anos 1920, desenhando e roteirizando tiras e séries e narrativas humorísticas – algumas beirando o surrealismo, como ‘Otto y Erich’ (1928), publicadas em Páginas de Columba –, mas é com ‘Fierro a Fierro’ e ‘Lanza Seca!’, ambas publicadas na segunda metade da década de 1940, em Patoruzito, que Raúl Roux encontra a modalidade de quadrinhos através da qual será mais comumente lembrado. Sem personagens fixos, em suas duas séries mais conhecidas, Roux cria, a partir de uma cuidadosa e detalhada pesquisa histórica, narrativas em torno das disputas – por território, principalmente – entre índios, estancieiros, aventureiros e militares no espaço quase selvagem do pampa dos séculos XVIII e XIX.

Carlos ‘Chingolo’ Casalla, único autor vivo (e em atividade) aqui citado, é o criador de, entre outros personagens, Cabo Savino, protagonista de uma das séries em quadrinhos mais duradouras da história[6]. Publicada pela primeira vez em 1954, ‘El Cabo Sabino’ (que, em algum momento, virou Sav           ino), no diário La Razón, passou de um jornal a outro e daí para revistas como Puño Fuerte, El Tony, D’artagnan, Fantasía (Editorial Columba). Savino é um recruta que vai para uma região fronteiriça da Patagônia durante a chamada “Conquista del desierto” (1878 – 1885)[7], defender um posto militar avançado contra o ataque de tribos locais. Lá descobre a crueldade da guerra, os códigos de honra e as contradições da manutenção da ordem civilizatória em um território predominantemente selvagem. Com o passar do tempo, Savino questiona a legitimidade de sua tarefa e seu olhar vai se tornando mais reflexivo e humanista. Como afirma o próprio Casalla, “El espíritu de lo original nos une a los pueblos latinoamericanos y nos levanta el orgullo de serlo. El Cabo lleva en su corazón la muestra genuina que todos somos hermanos”.

 

Continuará

[1] Há certo consenso entre os pesquisadores do tema que o primeiro estudo acadêmico relevante a respeito das histórias em quadrinhos é o que empreende Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados (1968).

[2] Para o aprofundamento e problematização do conceito de cultura pop, ver “Entrar e sair da música pop”. In: SILVEIRA, Fabrício. Rupturas Instáveis. Porto Alegre: Libretos, 2013. p. 7-43.

[3] http://www.processocom.org/2016/06/03/quadrinhos-ao-sul-do-mundo-breve-noticia-sobre-historieta-argentina/

[4] O aparente paradoxo da historieta argentina entre o apelo cultural nacionalista dos anos 40 e 50 e as temáticas calcadas em modelos estrangeiros, chamado por alguns pesquisadores de “idiossincrasia criolla” é o tema do próximo artigo a ser publicado neste espaço.

[5] GOCIOL, Judith. “Los guardianes de la ley: Militares, policías, detectives y otros malos en la historieta argentina”. 2007 In.: www.camouflagecomics.com (acesso em 06 de 2016)

[6] http://www.clarin.com/sociedad/titulo_0_720528051.html

[7] https://es.wikipedia.org/wiki/Conquista_del_Desierto

*Doutorando do curso de Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)

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