La sconosciuta e o neonoir italiano de Giuseppe Tornatore – Parte 1

14 de junho de 2016 Processocom

Alexandre Augusti*

Director Guiseppe Tornatore attends Douglas Kirkland's Photo Homage to Classic Italian Cinema at The Itlalian Cultural Institute on November 11, 2009 in Los Angeles, California. Douglas Kirkland's Photo Homage To Classic Italian Cinema The Itlalian Cultural Institute Los Angeles, CA United States November 11, 2009 Photo by Maury Phillips/WireImage.com To license this image (58895187), contact WireImage.com

O famoso cineasta italiano, Giuseppe Tornatore (à esquerda), que navega entre os créditos de escritor, roteirista, diretor e produtor, é conhecido no cenário internacional por diversos filmes que ganharam visibilidade também fora da Itália. É bastante lembrado, por exemplo, pelos títulos Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso – 1988), Malena (Malèna – 1990) e A lenda do pianista do mar (La leggenda del pianista sull’oceano – 1998).

A atenção do presente texto se dá particularmente a uma das obras de Tornatore, A desconhecida (La sconosciuta – 2006), que apresenta muitos elementos noir, podendo-se compreendê-la como um filme neonoir, já que reorganiza os elementos do gênero primordial de acordo com as atualizações contemporâneas ao período de realização do filme.

A protagonista, Irena, interpretada pela russa Kseniya Rappoport, é uma estrangeira que procura uma vida melhor na Itália, mas se entrega à prostituição, participando também de um esquema em que casais compram os filhos recém-nascidos das prostitutas escolhidas por eles. Ao seguir as pistas de um dos nove filhos que gerou para tal esquema, ela se aproxima dos atuais pais da criança, infiltrando-se em seu apartamento como a nova babá, após ter provocado o acidente que quase causou a morte da babá anterior. Tal cena evidencia o sangue vermelho e bem notório, como os filmes neonoir em geral o apresentam.

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Muffa espia Irena

Já na primeira cena, o filme mostra um grupo de mulheres com roupas íntimas sendo avaliadas por um homem que as espia por uma fresta na parede. Visualizam-se, então, dois elementos indicativos de uma narrativa noir: a nudez feminina e o ato de espiar. A cena se revela um flashback, outro recurso muito explorado pelos filmes noir, rompendo com a linearidade narrativa. Os flashbacks desta primeira cena são entrecortados por tomadas da mulher escolhida (Irena) pelo homem que espia e que a narrativa logo revela ser o seu futuro cafetão, Muffa, interpretado por Michele Placido, importante cineasta italiano, que oscila entre as funções de ator, diretor, escritor e roteirista.

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A protagonista provoca o acidente que quase mata a babá.

Quando a protagonista é suspeita de roubo e revistada pelos seguranças de um supermercado, outro flashback a mostra sendo violentada sexualmente, no que parece ser uma sessão de sadismo, já que ela está amarrada e sofre, além de ser submetida contra sua vontade. É o desconforto da revista que a remete às cenas de sofrimento, o que se repete em outros momentos do filme, seja quando ela é desafiada do ponto de vista da tensão sentida ou mesmo em situações que a reportam ao ato sexual. Isso nos remete ao peso do passado, que conforme Silver e Ursine[1], atinge sobretudo os protagonistas dos filmes noir, que são obcecados por ocorrências anteriores e, em função disso, direcionam sua ação na narrativa.

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Flashback revela a protagonista submetida a sessões de sadismo quando era prostituta.

Ainda que tenha realizado outros filmes que trazem elementos do universo noir, Tornatore parece ter recuperado o gênero com mais fôlego principalmente em O professor do crime (Il camorrista – 1986) e A desconhecida, tendo assinado a história, o roteiro e a direção em ambos.

[1] SILVER, Alain; URSINI, James. Film noir. Lisboa: Taschen, 2004.

Referência cinematográfica:

LA SCONOSCIUTA. Direção: Giuseppe Tornatore. Intérpretes: Ksenia Rappoport; Michele Placido; Claudia Gerini. Itália e França, 2006, 118 min, color. Versão do título em português: A desconhecida.

*Pós-doutorando UFRGS

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