Quadrinhos ao sul do mundo – Breve notícia sobre a historieta argentina

20 de Maio de 2016 Processocom

Fabio Bortolazzo Pinto[1]

As décadas de 1940 e 1950 são consideradas a ‘era de ouro’ do mercado editorial de quadrinhos argentinos. Trata-se efetivamente de um momento em que a historieta “não só se posiciona como um produto massivo na indústria cultural como consegue estabelecer seu público, consolidar seu sistema profissional, impor uma ideologia e definir uma estética gráfica própria” (Vazquez, 2010, p.9). Seis editoras dominam esse mercado: Abril, Códex, Columba, Dante Quinterno, Frontera e Manuel Láinez. São vinte anos em que se desenvolvem, simultaneamente, estilos artísticos relativamente originais, séries e personagens se tornam conhecidos e apreciados, em que cresce significativamente o interesse do público leitor pela arte sequencial[2] narrativa – público que também consome outras formas narrativas, através do cinema e do rádio – e em que há um equilíbrio entre qualidade gráfica e produção em série, organizada uma estrutura local de produção e difusão de uma grande e diversificada quantidade de publicações.

O pano de fundo político das duas décadas de florescimento da historieta argentina corresponde ao período em que, além de uma guerra mundial (em relação a qual, inicialmente, o presidente Ramón Castillo, em 1943, tenta manter o país neutro), ocorrem sucessivos golpes militares: o que derruba Castillo e leva ao poder provisório o general Arturo Rawson, logo substituído pelo coronel Pedro Pablo Ramírez, deposto em 1944 e substituído por seu vice, Edelmiro Farrell, que tem como ministro da guerra e vice-presidente ninguém menos que o coronel Juan Domingo Perón, figura que já à época contava com grande prestígio junto às classes populares. Perón assume a presidência, através de eleições diretas, em 1946, é reeleito, em 1951, e deposto do cargo, através de um novo golpe militar (conhecido como ‘revolução libertadora’), nove anos depois, em 1955. Da saída e exílio de Perón até o início dos anos 1960, quando vai chegando ao fim a ‘era de ouro’ dos quadrinhos argentinos, duas tendências, uma mais conservadora, representada, principalmente, pelo general Pedro Aramburu – presidente de 1955 a 1958 –, e outra, relativamente democrática, durante o governo de Arturo Frondizi, de 1958 a 1962.     Transmundo 052

Em meio às turbulências políticas dessas duas décadas, há algo que nenhum dos governantes argentinos, por menor que seja o tempo de sua gestão, descuida: o incentivo e o incremento dos meios de comunicação de massa. Com maior ou menor talento para explorar a força de mediação dos jornais, do rádio, das revistas populares, do cinema e, posteriormente, da televisão, com as diversas camadas sociais, os estadistas que ocupam o poder não deixam de se aproximar dos empresários ligados à mídia. Estes, também não deixam de aproveitar o interesse do estado. Trata-se, evidentemente, de uma via de mão dupla. Se o investimento do estado no trabalho de produtores de rádio, cinema e televisão, editores de jornais e revistas proporciona o desenvolvimento técnico, a profissionalização e o acesso de um público cada vez maior à produção veiculada através desses meios, tal vínculo também compromete o conteúdo produzido com a ideologia política defendida pelo estado.

Com relação especificamente às editoras citadas no início deste artigo, especializadas na produção e veiculação de histórias em quadrinhos, diretamente beneficiada pelo feliz momento em que “o Estado e o mercado fazem coincidir suas apostas em matéria de meios e bens culturais” (Idem, p.10), vale dizer que, à princípio, nenhuma adere explicitamente a um discurso político diretamente ligado a qualquer um dos governantes que presidiu a Argentina durante as décadas de 1950 e 1960. Nenhuma delas, por outro lado, questiona esses mesmos discursos. Não se trata porém, de conivência, alienação ou simples pragmatismo de mercado. Há uma conjunção de fatores ligados à peculiaridade de cada editora, de cada linha editorial, de cada equipe de artistas – e do tratamento dispensado a essas equipes – que compõem os quadros profissionais de tais empresas e a forma como se vão se adaptando às condições impostas pela demanda dos diferentes públicos leitores. O tema, como se pode ver, é complexo, e é sobre ele que conversaremos a seguir.

Continuará

[1] Doutorando do curso de Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)

[2] Termo cunhado por Will Eisner em seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial (1985) para definir uma modalidade artística em que se utiliza o encadeamento de imagens em sequência para contar uma história ou para transmitir uma informação graficamente, como a historia em quadrinhos.

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