Quadrinhos ao sul do mundo – Breve notícia da historieta argentina

15 de abril de 2016 Processocom

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Fabio Bortolazzo Pinto (Doutorando em Comunicação na UNISINOS)

Conhecer o universo das histórias em quadrinhos é, em certa medida, transitar pela história dos meios de comunicação. A linguagem dos quadrinhos se desenvolve junto com a dos jornais – seu primeiro veículo de difusão –, do cinema, do rádio e da televisão, com as quais compartilha recursos expressivos e de construção de sentidos. Essa simbiose com outros meios é facilitada por sua forma híbrida, simultaneamente imagética e verbal. Trata-se de um campo midiático complexo, atravessado formalmente por práticas discursivas heterogêneas e contextualmente pelos mundos da arte, da economia, da política, da sociedade de massas.

Os quadrinhos fazem parte de uma indústria cultural em que operam simultaneamente lógicas de produção autoral e de produção em série; um produto multiforme que se reconstrói de acordo com as condições de circulação. O universo da historieta, dos quadrinhos argentinos, é exemplar nesse (e em outros) sentidos, como tentarei demonstrar.

Este breve escrito e os que virão a seguir neste espaço que me proporcionam o PROCESSOCOM e Rede AMLAT, são resultado dos estudos sobre historietas argentinas que venho realizando junto ao curso de Pós-Graduação em Comunicação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) desde 2015. O objeto central de minha pesquisa é a série de ficção científica El Eternauta, criação do escritor e roteirista Héctor Germán Oesterheld (1919 – 1977) e a ideia é, além de falar especificamente sobre esse objeto, situar o leitor no contexto histórico e comunicacional dos quadrinhos argentinos, das historietas, como são chamados os quadrinhos produzidos no país vizinho.

Na Argentina os quadrinhos são muito mais que entretenimento. São considerados um meio privilegiado de construção da realidade e transmissão de conhecimento, por seu enorme potencial em satisfazer a necessidade de consumo de produtos culturais. A criação do ‘Día de la Historieta’ ilustra bem essa afirmação.

Sancionado em 2009, com força de lei, pela Legislatura de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires, no dia 4 de setembro o Poder Executivo se compromete a promover “a realização de atividades públicas e gratuitas vinculadas à arte da história em quadrinhos argentina” e “o desenvolvimento da história em quadrinhos como arte e indústria cultural”. Encaminhado em 2005, o texto do projeto de lei argumenta que sua aprovação seria “um sinal claro do quão fundamental são as histórias em quadrinhos na vida cultural argentina, como indústria que gera trabalho baseado em talento e inovação e como motor de leitura para milhões de pessoas no país”. Diante dessa compreensão dos quadrinhos como uma ‘arte maior’, como indústria cultural e como porta de entrada para o mundo da leitura, de desenhistas, roteiristas e editores se espera o compromisso, em algum nível, com a criação de um repertório cultural e o estímulo de uma visão crítica da realidade.

A escolha do dia 4 de setembro é alusiva ao lançamento, em 1957, da revista Hora Cero Semanal, que trazia, entre outros, o primeiro capítulo de El Eternauta. A série, por sua ousada opção em construir uma história de ficção científica com cenários e personagens tipicamente porteños, logo tornou-se popular entre consumidores que, além de quadrinhos, tinham o rádio e o cinema como referências narrativas e, no caso do cinema, também imagéticas. Duas décadas depois de seu lançamento, El Eternauta tornou-se também um símbolo da luta contra a ditadura argentina dos anos 1970, responsável pelo sequestro e ‘desaparecimento’ de Héctor Oesterheld.

O caso de El Eternauta é particularmente rico para se observar as relações entre arte e política, cultura popular e ‘erudita’: as principais referências de Oesterheld, de acordo com o próprio, vêm do contato com a tradição literária ocidental e não da leitura de histórias em quadrinhos. Sua opção por um gênero popular está diretamente relacionada à intenção de formar leitores qualificados e sofisticar a linguagem da historieta.

A ‘missão’ que Oesterheld atribui a seu trabalho não é um esforço isolado, faz parte de uma história que começa no início do século XX, com o estabelecimento de um mercado editorial promissor, que logo se tornaria responsável por mais de 50% do total de publicações na Argentina. É nesse início de século que encontraremos as primeiras aventuras de alguns personagens com forte sotaque local, como um certo Patoruzú, que será devidamente apresentado na semana que vem. Até lá.

Continuará

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