Identidade uruguaia e ironia na rede: Mais uma semana em Tiranos Temblad

23 de outubro de 2015 Processocom

Leonardo Moreira*

“Como pode ser que ninguém faça nada com este material?”, perguntava-se Agustín Ferrando, durante o Natal de 2012, enquanto assistia a vídeos uruguaios na internet. Principalmente, chamou sua atenção um vídeo que considerou “por longe, o melhor da semana”. Nele, é registrada a indignação de um vizinho ao filmar uma senhora roubando “muito ufanamente” algumas flores de um canteiro público, enquanto dizia: “Tomara que ela tenha Facebook, porque, agora, vou postar isto para todo o mundo ver a que grau de mesquinharia podem chegar as pessoas”[1].

Foi assim que nasceu Tiranos Temblad[2], o canal de YouTube que reúne situações aparentemente sem transcendência do Uruguai e de uruguaios sobre o Uruguai e os uruguaios, extraídas exclusivamente da rede YouTube, realizando, assim, uma (re)interpretação da idiossincrasia/nação uruguaia.

O primeiro programa foi disponibilizado em finais de 2012 e, até 1º de junho de 2015, haviam sido compartilhados “65 resumos semanais de acontecimentos uruguaios”[3], mais 7 especiais (2 aniversários, 4 de verão e 1 do Mundial), totalizando o número nada desprezível de 5 milhões de visitas, um fenômeno comunicacional que ainda espanta o próprio criador.

Um dos aspectos mais importantes do canal é a exploração que é feita do senso de identidade nacional em chave otimista, remetendo tanto o nome, o logo, a música de abertura do canal e as cores utilizadas a símbolos nacionalistas institucionais, como a bandeira e o hino pátrios[4], embora, na verdade, recuse todo oficialismo e se afaste do tradicional patriotismo ufanista e grandiloquente, focando-se na cotidianidade do espontâneo, tão característico da moderna cultura audiovisual do meme[5], que atualmente domina a internet.

Ferrando descreve o que faz como “uma espécie de reciclagem” de um material que ficaria afundado no que ele chama acertadamente de “o caos da internet”. Mas o autor evita incluir o esquisito, o deboche e a ofensa. Sua pretensão é apenas extrair “o relevante dentro do irrelevante”[6].

Cada programa inclui uma grande quantidade de vídeos amadores realizados em sua maioria em diversos lugares do Uruguai, misturando-os e nivelando os episódios públicos e as “histórias mínimas”, ressignificando, assim, o conceito midiático do acontecimento. Dessa forma, a celebração de uma festa típica, a crônica de algum turista, a reunião de Mujica com o Papa, o cachorro que se sente ameaçado por um maço de balões, ou a votação do casamento igualitário no Parlamento ganham um novo sentido no conjunto mediante as relações discursivas que entre elas estabelece o (também) narrador Ferrando, com uma expressividade quase inexpressiva, produzindo um produto final que constitui um elogio do Uruguai e sua gente.

Tiranos Temblad pode ser visto como uma versão descuidada dos noticiários tradicionais, que, em contraste com o terrorismo midiático sensacionalista que esses últimos habitualmente praticam, apresenta outra/s face/se de uma realidade nacional ignorada. O Uruguai de Tiranos Temblad é um país feliz, sem assassinatos, sem pobreza, sem violência e onde a notícia é a própria cotidianidade que nos representa. Cada pequeno grande fato é relatado num tom íntimo: os protagonistas são referidos pelo seu nome de batismo, como se fossem nossos vizinhos ou conhecidos (“Facundo baixou o lixo”, “Mariela comemorou seu aniversário”, “Matías filmou sombras na parede”), o que contrasta com a retórica distante e formal própria dos noticiários, fortalecendo a comunidade imaginada em questão ao dar o mesmo colorido familiar ao que, na verdade, são meras relações de coabitação dentro das fronteiras do mesmo Estado-nação. Em Tiranos Temblad não há espaço para a economia ou para a política (ao menos, de forma explícita). Essas seções clássicas de qualquer noticiário são substituídas por “O enigma da semana”, onde veremos objetos que, ao se movimentarem, desafiam as leis da física e outros mistérios sem explicação aparente; “O momento desconfortável da semana”; “O momento what the fuck”, quando é escolhido, entre vários vídeos, aquele mostrando o acontecimento mais insólito ou absurdo da semana; e “O momento ahh da semana”; entre outros.

Como em todo discurso nacionalista, a figura diferenciada do “outro” contra a qual é construída a identidade própria, tem um lugar de destaque em cada programa. Os “não uruguaios” têm praticamente seções próprias, tanto os turistas que elogiam o país e seus cidadãos quanto os estudantes ou jornalistas estrangeiros que tentam apresentá-los em trabalhos escolares ou programas de televisão. Eles são submetidos a um divertido processo de avaliação, no qual o narrador se transforma numa espécie de protetor-conservador do espírito nacional que premia ou pune simbolicamente os autores dos vídeos conforme a autenticidade ou falsidade do discurso que divulgam com um selo de “aprovado por um uruguaio” ou de “reprovado por um uruguaio”, segundo o caso.

Dessa forma, é explorado certo sentimento de desconformidade, próprio de uma comunidade que demanda de alguma forma um maior reconhecimento no âmbito internacional. Nesse sentido, é significativo que muitos programas comecem com um personagem estrangeiro, famoso ou mais ou menos popular, saudando (ou, melhor, reconhecendo) o Uruguai. Os atores Tom Cruise e Ricardo Darín, a banda de rock Aerosmith, o DJ David Guetta e o estilista Jean Paul Gautier são algumas das celebridades que, sem saber, já participaram do programa.

Tiranos Temblad também demonstra que é possível produzir conteúdos locais de sucesso na internet, sem necessidade de ser um viral mundial. Da mesma forma, qualquer pessoa que assistir ao programa, seja uruguaia ou não, poderá entendê-lo e desfrutá-lo, apesar de não compartilhar alguns códigos locais. Por exemplo, só assistindo à seção “O craque da semana” entenderão o que significa ser um “craque”. E, talvez, no final, possa compreender por que Tiranos Temblad insiste, incansavelmente, em afirmar que “Uruguai é o melhor país”[7].

 

*Leonardo Moreira escreveu esse texto para publicação no site do Processocom. Ele é comunicador e professor de Publicidade da Universidade de la República  – UdelaR, Uruguai; Mestrando em Comunicação na UFMG e participante do GRIS (Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade).

 

[1] Tiranos Temblad #01.

[2] https://www.youtube.com/user/TiranosTembladTV

[3] Este é o subtítulo do programa, embora, desde 2014, seja quinzenal.

[4] “Tiranos Temblad” (Tiranos, Tremei) é uma exortação retirada da letra do Hino Nacional Uruguaio, e a música de abertura do programa também remete a uma passagem do hino.

[5] Os memes são mensagens multimídia, difundidas em sua maioria pela internet, que expressam ideias e sentimentos por meio de imagens ou fragmentos de vídeo extraídos de outros discursos pré-existentes, que ganham, assim, um novo significado. O vídeo da criança dizendo “What the fuck”, o do senhor gritando “Whaaaat!” ou a irreverente frase que fecha cada programa, “Obrigado, YouTube, por tudo o que nos dá”, são alguns dos já clássicos memes de Tiranos Temblad.

[6] Entrevista publicada no jornal El Observador, em 21 de fevereiro de 2013.

[7] Verso da música “Uruguay es el mejor país”, do violinista russo Aleksey Igudesman e do pianista coreano Hyung-ki Joo, interpretado pelo primeiro junto com a Upper Austrian Youth Orchestra.

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