Notas de um domingo politicamente controverso

15 de Março de 2015 Processocom

Tamires Coêlho

O ano de 2015 mal começou e já temos um dia marcante neste ano: 15 de março. Milhares de pessoas em todo o Brasil manifestaram-se contra a presidenta Dilma Rousseff, contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e em prol de mudanças no cenário nacional. Esses “protestos” são parte de um fenômeno político social (e comunicacional) bastante peculiar: prova disso é que não é comum (pelo menos no Brasil) ver pessoas com melhor poder aquisitivo (leia-se classe média alta e classe alta) na rua para protestar contra alguma coisa. Mas há aí uma série de questões que renderão muitas análises e pesquisas, sobretudo a partir de lentes comunicacionais, algumas delas mencionadas neste texto. Começamos com uma contextualização dessa onda de manifestações no Brasil em 2015, principalmente a partir do que foi possível perceber em sua repercussão midiática.

Pela Família e pelo Direito ao Preconceito

Destacamos inicialmente o dia 8 de março, quando um pronunciamento oficial da presidenta pela televisão foi acompanhado por um “panelaço” em alguns (poucos) lugares do Brasil. Em alguns bairros nobres de grandes metrópoles, pessoas se aglomeraram nas sacadas de suas residências e bateram panelas em “protesto” ao governo atual e, sobretudo, a Rousseff.

Até aí nada de errado, afinal, cada cidadão tem direito à livre expressão de seu pensamento. O problema é que o panelaço foi acompanhado por um enorme desrespeito à gestora brasileira em pleno dia da mulher: a presidenta foi chamada (aos gritos) de “puta”, “vaca”, “vagabunda”, “vadia” e “piranha”, dentre outros adjetivos nada agradáveis. Quando um protesto contra um gestor do gênero masculino foi regado a tanto preconceito e desqualificação? Imaginamos que, no máximo, ocorreria novamente um preconceito de gênero (desqualificando o que não é tipicamente masculino), chamando-o de “viado”, “bicha”, “marica”.

Não há, no panelaço, uma crítica aos problemas do governo e de suas medidas, mas à figura feminina que ela representa. Os xingamentos dispensados a Dilma representam a opressão que as mulheres ainda sofrem no Brasil, pelo simples fato de serem mulheres. Em um país marcado por uma cultura machista e misógina, com estatísticas alarmantes de violência contra a mulher, é perceptível que ainda há muitos indivíduos (inclusive mulheres) que compram o discurso opressor e fazem dele sua bandeira, nas mais diversas situações, por vezes inconscientemente.

Muito pouco foi problematizado nesse sentido, em termos midiáticos, e foi perceptível o retorno dessa desqualificação neste domingo (15), como podemos ver na foto abaixo veiculada pelo site ig, em um cartaz que diz “Dilma Puta”. Outro cartaz emblemático, que materializa a misoginia brasileira e a falta de consciência por parte das próprias mulheres quanto à opressão presente em seu discurso, foi o de uma mulher na manifestação em Recife-PE, em apologia ao feminicídio (recentemente votado para criminalização no Brasil) com os dizeres “Feminicídio sim, Fomenicídio não. #ForaPT!!!”.

Imagem da Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandjes/ Fotos Públicas

Imagem da Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Robson Fernandes/ Fotos Públicas

 

Manifestação na praia de Boa Viagem, em Recife-PE. Foto: Jornal do Comércio

Manifestação na praia de Boa Viagem, em Recife-PE. Foto: Jornal do Comércio

Além da misoginia, a homofobia foi visivelmente acionada durante a cobertura das manifestações, em cartazes e falas que pediam a defesa da família tradicional, uma crítica aberta aos direitos de constituição familiar e de relacionamento afetivo legalmente reconhecido a casais LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Queer). Considerando que há uma diversidade de modos, processos e consequências de violências contra as não-heterossexualidades, nos chama atenção ver milhares de pessoas bradando pelos direitos à família e, concomitantemente, aos não-direitos implicados às pessoas que fogem ao padrão, do que é normal e socialmente aceito.

A xenofobia também esteve presente por meio de depoimentos que falavam sobre a suposta acomodação que seria fruto do programa de transferência de renda Bolsa Família. Uma senhora, em entrevista, chegou a afirmar que as pessoas não querem mais trabalhar no Ceará, mas passam o dia deitadas na rede porque ganham o benefício.

Sobrou até mesmo para o teórico Paulo Freire, cuja contribuição é inegável para o desenvolvimento de uma educação mais inclusiva e mais popular. Um cartaz que diz “Chega de doutrinação marxista, basta de Paulo Freire” chega a ser um tiro no pé de uma manifestação que pede melhorias para a educação brasileira, bem como é incoerente o pedido de reforma política e de fim da corrupção diante de dois bonecos (que representam Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula) enforcados em uma ponte: afinal, matar nossos desafetos é algo bastante democrático, não?!

E a apologia ao ódio não se resumiu aos bonecos enforcados, afinal o que pensar diante da frase “comunista é bom morto”? O que falar de uma manifestação em um país democrático que incita o ódio, a morte e o retorno à ditadura? Faixas e cartazes pedindo intervenção militar (em português e em inglês) foram uma marca forte desse protesto. Pedidos de impeachment e de golpe militar se misturaram em meio à multidão de pessoas com camisas da seleção brasileira. Isso tudo em uma “marcha da família”, pacífica, repleta de idosos e crianças, como por vezes foi descrita a manifestação por grandes meios de comunicação, como a Rede Globo.

Polícia e Mídia Hegemônica em um Protesto Diferenciado

Diferentemente das Jornadas de Junho de 2013, quando milhares de pessoas foram às ruas, em protesto apartidário, pedir o fim da corrupção e a melhoria de serviços básicos no Brasil, não houve confrontos com a polícia nos manifestos deste domingo. Sem balas de borracha, sem gás lacrimogênio, sem bombas de efeito moral. A polícia fez “a segurança” do percurso sem grandes problemas. Mas será que ela agiria diferentemente diante de uma multidão que brada por intervenção militar?

Sabemos que, apesar de extremamente diversificadas, as Jornadas de 2013 foram fortemente constituídas também por pessoas de classe média, mas não reuniu empresários ricos ou pessoas famosas cantando o hino nacional. Há dois anos, não havia um político ou governo contra quem lutar, mas todo um sistema corrompido: hoje, os responsáveis pela corrupção estão concentrados em um partido e são a causa dos problemas do país. Se os protestos de 2013 foram pensados para locais acessíveis, o deste domingo foi programado essencialmente em bairros nobres e de acesso mais restrito por transporte público. Será que a polícia também estabeleceria confrontos e tiroteios de balas de borracha em bairros nobres e caros das principais capitais brasileiras, arriscando-se a atingir alguém de “alto escalão” político ou econômico?

Tudo isso cuidadosamente coberto pela mídia hegemônica, que fez uma cobertura exaustiva e bastante respeitosa da manifestação. Sem críticas (nem mesmo ao congestionamento do trânsito causado pela mobilização), sem tentar apontar para um grupo, partido ou entidade na organização do evento. Mas seria esse o fruto de aprendizado desde a cobertura extremamente superficial durante 2013, ou essa cobertura estaria considerando fortes interesses das principais empresas de comunicação (como ocorreu no golpe de 1964)? Afinal, nesta manifestação, não havia gritos por uma regulação e democratização da mídia.

Falar do povo neste 15 de março é deixar de lado os excluídos da política e falar da parcela que tem direito a ela, na fratura biopolítica que constitui o próprio conceito de povo (AGAMBEN, 2015). Não houve uma preocupação com a inclusão e, até mesmo nas reportagens dos grandes meios, foi possível perceber uma massa branca e de elite tomando as ruas das capitais. Isso em um país com mais da metade da população declarada como negra e parda, tendo ocorrido até mesmo na cidade mais negra da América (Salvador-BA), em um protesto que parecia acontecer no Rio Grande do Sul (estado cuja população tem fortes traços alemães e italianos).

E o que foi isso?

Pontuamos que nem todos os que se reuniram em protesto neste domingo eram, necessariamente, preconceituosos, radicais ou fanáticos, nem todos bradaram pelo retorno à ditadura, até porque não se pode generalizar essa manifestação, como não pudemos generalizar as jornadas de junho de 2013, decisivas neste novo momento político brasileiro. No entanto, nos perguntamos o que levaria essas pessoas a marchar junto a tantas demonstrações de preconceito e de falta de informação. Até que ponto é coerente participar de um ato político que envolve inclusive pessoas que lutam pela restrição de direitos como a própria liberdade de expressão e de manifestação? Talvez seja necessário tempo para entender melhor o que tanta gente realmente quer, para quem quer e como quer, mas desde já é imprescindível identificar os problemas relacionados aos valores disseminados nas ruas. Como reconhecer milhares de pessoas que querem “um país melhor”, quando ninguém fala em justiça social? Até que ponto essas pessoas estão conscientes do que estão pedindo?

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