O avanço do retrocesso

26 de janeiro de 2015 Processocom

Vinícius Flôres

Há dez anos o mundo perdia a perseverante missionária Dorothy Stang. Assassinada covardemente por pistoleiros a serviço de grileiros em Anapu, no sudoeste do Pará, ganhou fama internacional pela atuação nos movimentos sociais, participação em iniciativas sustentáveis e defesa dos direitos dos trabalhadores no campo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mobilizou três ministros para resolução do caso. Os envolvidos foram presos e condenados.

A data emblemática coincide com o início do mandato de Kátia Abreu no ministério da Agricultura. A vitória do retrocesso desmascara o nebuloso discurso progressista do atual governo. Mesmo com a rejeição da esquerda brasileira, a senadora ruralista foi chancelada pelo segundo mandato de Dilma Rousseff, o que evidencia uma guinada à direita e expõe incoerências com o que foi dito nas eleições.

Tão logo assumiu o posto, Kátia Abreu mostrou sua qualificação para a pasta. Em entrevista para Folha de S.Paulo, a nova ministra sentenciou: “não existem mais latifúndios no Brasil”. Contudo, esse grito de liberdade não bate com os dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). De 2003 a 2010, houve um crescimento no número de latifúndios no país. No total, 228 milhões de hectares estão sem utilização ou com produção abaixo da capacidade.

O retrospecto de Kátia Abreu é ainda mais desanimador. Em 2013, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagrou trabalhadores em situação de escravidão na fazenda do irmão da senadora, no Mato Grosso. No ano passado, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil, presidida por ela, entrou na justiça contra a relação dos empregadores flagrados com trabalho escravo do MTE e da Secretaria de Direitos Humanos. No final de 2014, o cadastro foi retirado do site com uma liminar.

A lista apontava o Pará, palco da militância de Dorothy Stang, como o líder em escravidão com 27% das 609 pessoas e empresas autuadas. Na sequência apareciam Minas Gerais, com 11%, e Mato Grosso, do irmão de Kátia Abreu, com 9% dos infratores. Entre as principais práticas envolvidas nas denúncias estavam pecuária, produção florestal e agricultura – pautas relacionadas ao ministério da Agricultura.

O espectro conservador assola o Palácio do Planalto. A escolha de Kátia Abreu para o ministério da Agricultura indica uma presidenta Dilma combalida. Enquanto isso, os interesses da elite pecuarista latifundiária que desmata e utiliza trabalho escravo estão bem representados pela nova ministra. Contra essas mesmas forças, Dorothy Stang morreu lutando. Dez anos depois, o Brasil ainda não aprendeu com o passado.

Fontes: Portal MTE, Carta Capital e Repórter Brasil.

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