Nem céticos nem iludidos: caminhos para pensar as relações entre internet e ciência

1 de novembro de 2014 Processocom

Tamires Coêlho

Monteiro (2013) nos faz um convite ao abandono da ingenuidade em relação às tecnologias. Esse texto foi muito interessante para pensar meu próprio objeto de pesquisa, na construção de minha tese (Subjetivação política e autonomia nos usos do Facebook por mulheres no Sertão do Piauí), dialogando com esforços de pesquisa e com a rejeição de alguns pensamentos que ainda não conseguem entender a complexidade inerente aos processos comunicativos digitais.

Recordo que no dia 13 de outubro de 2014, Marilena Chauí veio a Belo Horizonte para a abertura da Semana do Conhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e veio falar sobre meios eletrônicos, cibercultura etc., que não são propriamente elementos da área de conhecimento dela, recuperando a ideia de ciborgue, e falando que os gestos perante esses dispositivos tecnológicos são previstos e uniformes em todo o planeta. Creio que esse seja um bom exemplo do tipo de pensamento que tenho rejeitado ultimamente.

Mesmo com essa onda otimista, que por vezes elimina as limitações que os dispositivos nos impõem, é também preciso ter cuidado para que não sejamos tomados por um pessimismo que apaga as especificidades dos usos e apropriações desses dispositivos por todo o globo. Afinal, o contexto influencia e muito nesses usos, as mediações culturais ainda são essenciais na compreensão dos processos atrelados às tecnologias.

Apesar de haver potencial inovador em alguns usos tecnológicos, não podemos desconectar as inovações e transformações de processos precedentes às próprias tecnologias. No caso da minha pesquisa, não posso perceber processos de subjetivação política e de autonomia em relação aos usos do Facebook por mulheres no Sertão do Piauí separados de processos anteriores à chegada dessa tecnologia. O Facebook não vem mudar absolutamente tudo, mas pode potencializar práticas que já tinham se iniciado antes da chegada dessa rede social. Também não podemos pensar que há uma total interatividade e uma horizontalização absoluta das relações de comunicação, seja pelas diferenças em relação às competências comunicacionais e digitais de cada sujeito, seja pelas próprias condições de conexão que são muito diferentes. Acessar conteúdos com uma internet de 30Mb é diferente de acessar internet a partir da precária rede de telefonia no Sertão, que também é diferente de acessar uma internet cobrada por gigabyte transferido (como pretende uma proposta de lei na Hungria).

Não há, portanto, como considerar que esses usos seriam iguais ou horizontais, dada a diversidade de condições. Isso sem contar as questões de exclusões sociais que transcendem a popularização desses usos. Não há como consolidar uma inclusão digital, de fato, com comunidades ainda marcadas por problemas como analfabetismo. As práticas relacionadas aos dispositivos tecnológicos são complexas como outras práticas sociais: não permitem generalizações nem reducionismos.

No caso da educação, vejo no Sertão que muitos jovens têm usado redes sociais como canais de aproximação com professores – o que é algo interessante. Isso sem contarmos as possibilidades abertas pela EaD (Educação a Distância), como nos mostra a pesquisa de Lívia Nery. No entanto, será que podemos dizer que as redes sociais e a educação a distância estão de fato revolucionando o ensino naquela região?

Precisamos perceber o que muda, o que se intensifica, o que se limita nos usos das tecnologias. A interpretação dos dados exige que mobilizemos teorias e que também, por vezes, modifiquemos perspectivas teóricas para dar conta desses fenômenos. É um processo complexo, sobretudo se considerarmos as modificações rápidas que atravessam os processos digitais, que nem sempre conseguem ser monitoradas com o olhar do pesquisador por si só, sem auxílio de outros softwares.

Referência

MONTEIRO, Marko. Novas mídias, interatividade e a prática científica. In: Revista Ensino Superior. 2013. Disponível em: <http://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/novas-midias-interatividade-e-a-pratica-cientifica>. Acesso em: out. 2014.

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