Racismo, Futebol e Preconceito Naturalizado

3 de setembro de 2014 Processocom

Tamires Coêlho

No fim da tarde de hoje, meios de comunicação e perfis de redes sociais voltaram a falar de um assunto que ultrapassou a fronteira gaúcha e foi pautado em todo o Brasil: o preconceito no futebol brasileiro e o caso dos torcedores gremistas que insultaram o goleiro Aranha, do Santos, chamando-o de “macaco”, em clara referência à sua cor. Nesta tarde a discussão foi retomada porque o Grêmio foi punido com uma multa de R$ 50 mil e, principalmente, porque foi eliminado da Copa do Brasil 2014 – um dos principais torneios esportivos do futebol nacional. A decisão foi tomada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) nesta tarde (03/09), proibindo também os torcedores racistas identificados a frequentarem estádios por 720 dias (cerca de 2 anos).

Apesar de ainda caber ao clube gaúcho entrar com recurso na última instância do tribunal, não estamos aqui interessados em discutir a decisão em si. Mais do que analisar se a decisão foi correta ou inadequada, nos instiga tratar do preconceito naturalizado que perpassa a cultura brasileira e que eclode em episódios cotidianos como o que vitimou o goleiro Aranha: em um jogo de futebol que seria um momento de lazer e descontração.

O preconceito racial é exteriorizado em atitudes banais e até inconscientes: é o atendente da loja que olha com desdém para um cliente negro que observa um produto; é um transeunte que muda de calçada quando vê um grupo de adolescentes negros se aproximando; é o policial para quem todo negro é suspeito e precisa ser revistado; é a mulher negra que é (ainda mais) objetificada pelos requícios do vergonhoso histórico colonial brasileiro; é o negro que é chamado de “moreninho” ou “de cor” para não ser tratado por negro; é a pessoa ser chamada de “favelada” ou “preguiçosa” por ser negra; é a palavra “negro” (nêgo) que vira pejorativo; é o suspeito negro merecer pena de morte, porque tem mais é que “matar esses bandidos”, mas haver diferença brutal de tratamento quando o suspeito do crime é um médico branco e rico. São pequenos momentos do dia-a-dia considerados “normais”, nos quais o racismo flui, desliza e se fortalece discursiva e culturalmente.

A adolescente de cabelo crespo cresce ouvindo que tem cabelo ruim, duro, pichaim, que é preciso alisar. Turbante na cabeça é “coisa de macumbeiro” – e neste mesmo exemplo vemos também um efeito pejorativo e uma estigmatização das religiões de descendência africana. E as marcas identitárias na negritude do indivíduo vão se apagando ao sabor das modas e dos padrões socialmente aceitos. É incutida no sujeito a necessidade de adequar-se.

Ser negro no Brasil não é fácil, apesar de os negros constituírem mais da metade de nosso país. Não é fácil, entre outros aspectos, porque o negro, de maneira geral, ainda é extrema minoria na elite econômica brasileira. Não é fácil porque o negro ainda remete ao escravo, a quem são dados trabalhos braçais e atividades que não precisem de raciocínio.

Há até muito pouco tempo, cerca de 30 anos atrás, ainda existiam em algumas cidades do Sertão brasileiro, por exemplo, segregações em festas e bailes: havia a festa dos brancos e a festa dos negros. E ai do branco de “boa família” que inventasse de frequentar uma festa dos que hoje já são reconhecidos como quilombolas… Meu pai ouviu uma tia-avó reclamar há alguns anos sobre o absurdo que era um negro comprar e comer carne, porque antigamente só os brancos tinham esse privilégio. Como se o fato de muitos negros terem conquistado – sim, a palavra é conquista – alguns mínimos direitos e melhores condições de vida fosse uma afronta a quem vinha das famílias tradicionais brancas.

Os exemplos trazidos nesse texto nos ajudam a mostrar que as várias realidades nas quais estamos inseridos ainda carregam muitos traços de preconceito. O episódio ocorrido com a torcida do Grêmio não é um fato isolado, apesar de haver essa impressão por conta da importância midiática que o fato ganhou. O racismo está no dia-a-dia, à espreita, e aparece nos cenários mais diversos, inclusive nos estádios. Mas ele pode aparecer no salão de beleza, no meio da rua, na loja, no repúdio aos rolezinhos em shoppings (que não lesam ninguém), no Congresso Nacional, na igreja, no Facebook.

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