True Blood e a ficção seriada na televisão

14 de agosto de 2014 Processocom

Maytê Ramos Pires

A duas semanas do episódio final da série True Blood tornam-se recorrentes, entre os interessados na situação televisiva ficcional seriada, os debates sobre a sua relação com o cinema. A relação entre cinema e TV tem variadas imbricações – similaridades, diferenças e continuidades. Uma em especial refere-se à linguagem utilizada nos meios, pois os formatos adotados nos filmes diferem-se dos de produtos televisivos como as telenovelas. A estrutura narrativa dos filmes precisa ser composta de forma a contar toda uma história em cerca de duas horas, enquanto na televisão as temporalidades são encaradas com uma amplitude maior, podendo dar luz a aspectos que nos filmes precisam ser trabalhados mais rapidamente. Entretanto, apesar de a duração dos produtos televisivos ser maior, o tempo de produção é reduzido, justamente devido a essa continuidade. Por isso, no cinema as imagens têm possibilidade de ganhar novas roupagens, têm uma fotografia mais elaborada e a mise-en-scène[1] pensada mais profundamente.

A cada novo formato é necessária uma alfabetização audiovisual dos espectadores para que eles possam compreender as novas linguagens – isso se dá tanto na TV quanto no cinema e, por vezes, enfrenta certa relutância da audiência até a adequação das maneiras de contar e a conquista do público[2]. Na televisão, as novelas e os seriados são os produtos que mais se aproximam dos filmes, espelham-se nas narrativas do cinema enquanto o cinema tem na TV o seu local de difusão – à medida que os filmes são veiculados na televisão e nela atingem maior percentual de público –, caminhando lado a lado, cada qual com a sua função e alcance.

O produto televisivo, em comparação ao cinematográfico, precisa ser mais dinâmico, para manter a atenção do espectador (RODRIGUES, 2010). A relação produto-espectador se estabelece no cinema, para além do filme, em virtude do ambiente geral: a sala escura, o telão, o som, as poltronas. Na televisão, o atrativo se restringe ao produto em si. Dessa forma, para segurar a audiência até o próximo capítulo/episódio é necessário que a trama seja envolvente. No caso das séries de TV em específico, que apresentam apenas um episódio por semana, o esforço em relação ao público requer que o conflito se estenda por tal período, que a audiência espere pelo próximo episódio e, assim, pela temporada seguinte também.

Figura 1

As séries de TV representam o cinema na televisão. Geralmente com oito a vinte e dois episódios por temporada, com duração em média de quarenta minutos, os seriados, diferentemente das telenovelas, conseguem tratar dos pequenos detalhes, desenvolver intensamente o roteiro com o auxílio de direções cuidadosas, enfim, produzir a mise-en-scène. A ficção seriada prende o espectador garantindo a ele proximidade e distanciamento ao mesmo tempo. Esta característica do próximo-distante, própria da realidade ficcional, se dá devido aos fatos extraordinários que costumam acontecer até mesmo quando a série apresenta situações corriqueiras, pois elas são apresentadas de modo a conquistar pelo diferente, isto é, distancia por adicionar o elemento extraordinário e aproxima por trazer situações relacionais reais.

As noções de real e de imaginário aqui se mesclam, pois no ficcional e em toda a magia que envolve as séries de TV há constantemente um elemento de real, de vivências cotidianas, de conflitos existenciais aos quais estamos sujeitos. Assim, a atividade que se torna o assistir ficção seriada, o compartilhar emoções com outros tantos telespectadores, ultrapassa o puro lazer que ali também permanece, as relações entre público e TV se configuram em um consumo cultural[3] multifacetado (CERQUEIRA, 2013).

As séries televisivas contemporâneas transcendem os gêneros tradicionais apresentando uma ficção diferenciada, como no caso de True Blood (SANTOS, 2012). Os gêneros estão sendo expandidos a dimensões surreais, nas quais há liberdade para todas as criaturas imagináveis coexistirem pacificamente, ou não. Essa expansão traduz o dilema da beleza da novidade: a busca pelo diferente, por realizações impossíveis na concepção atual da sociedade e que transportam as pessoas a outros patamares. Essa necessidade de viver momentos únicos e até então irreais é a mesma faísca que leva um leitor a seguir uma leitura contínua e incansável de uma obra literária, a mesma faísca que leva o público ao cinema para, por algumas horas, viver as vidas ali representadas como suas e, assim, se incendiar no deleite ficcional.

Figura 2

Lançada em 2008, True Blood[4] (TB) é uma série veiculada no canal HBO que está em sua temporada final, a sétima. TB acompanha a protagonista Sookie Stackhouse, que mora em uma cidadezinha chamada Bon Temps (cidade fictícia que na trama se integra a Louisiana, estado federado dos EUA). Repleta de seres mitológicos, as figuras que encadeiam a narrativa são os vampiros, que revelaram sua existência aos humanos quando conseguiram criar um sangue sintético, o “Tru Blood”. A substância retira a necessidade deles de se alimentar de pessoas e, então, os vampiros começam a brigar por direitos iguais e por respeito na sociedade. A série tem em seu enredo o diferencial do próximo-distante: por trás de um imaginário do predador dos humanos, que já foi explorado pelas indústrias televisiva e cinematográfica diversas vezes, trata-se na verdade das relações pessoais, as particularidades de cada indivíduo (o quão iguais somos, mesmo com tantas diferenças). Sobre o constante uso do vampiro como o ser encadeador do andamento das narrativas, Garcia (2013, p. 3) explica:

Sua origem pode ser traçada até alguns mitos da antiguidade, alcançando, a partir da idade média, uma imagem do terror que habita com mais persistência nosso imaginário. Entre os seres sobrenaturais que se tornaram famosos por flertar com sua condição pós-morte, esse seria o que mais se aproxima de nós em seu aspecto, intenções e materialidade.

O vampiro é tão envolvente porque ele desperta o imaginário do público, por compartilhar a mesma forma física que os seres humanos, por ter sido um humano em algum momento. Isso leva desde a repulsa do ser até a vontade de ser um deles, de se transformar em um vampiro. É um ser ligado aos humanos que retoma características ancestrais, instintos aflorados de “caça e sobrevivência do mais forte. Sua mente e forma de pensar não é totalmente contrária à nossa. Na realidade, podemos aproximar seu pensamento ao nosso ao abordarmos a vontade que o move, a pulsão do vampiro” (GARCIA, 2013, p. 6). E em TB há duas posições possíveis para os vampiros: ser mainstream (simpatizante dos humanos que quer a partir da Tru Blood levar uma vida amigável com os humanos) ou crer que eles são a evolução da espécie, predadores e, por isso, superiores – mas esses, em sua maioria, também prezam por combater a guerra com os humanos, buscando a coexistência[5].

Figura 3

As ofertas de séries em determinados horários e formatos são pensadas em virtude de seu público-alvo (BALOGH, 2002), o que não é diferente com True Blood. TB é exibido aos domingos, às 22h no Brasil (exibição mundial ao mesmo tempo em todos os países), mesma faixa horária da série Game of Thrones (GoT), exibida no mesmo canal, e que antecede a temporada de TB. A partir dessa similaridade no horário é perceptível o cuidado com o público-alvo, visto que o público de GoT é o mesmo de TB. Apesar de GoT ser uma série de um imaginário distinto, que não contém vampiros e sim gigantes e dragões, elas se aproximam pela valorização dos conflitos nas relações de amor nas guerras.

A profundidade da narrativa das séries de TV conquista o público, que aguarda ansiosamente pelo lançamento de uma nova temporada e a acompanha até o seu desfecho intrigante. Essa fidelidade do público, que se dispõe a uma vez por semana estar no mesmo horário na frente da TV esperando um episódio, é que mantém vivas as séries, sem arriscar um final precoce. Em True Blood tem-se uma dessas séries que conquistou uma parcela do público, uma produção inovadora e instigante porque buscou um formato diferenciado e desenvolveu a narrativa ao longo das temporadas, mantendo o suspense até nos personagens centrais. Para alcançar o sucesso que TB tem, não basta apenas um roteiro criativo, mas é preciso investimento, que no caso do seriado veio da emissora HBO, caracterizada pelo foco nesse tipo de produto – são séries de TV diferenciadas e também filmes feitos para serem lançados diretamente no canal e especiais, todos com características da produção cinematográfica.

A produção brasileira, por sua vez, ainda não conquistou a abrangência de público dos seriados estadunidenses. Todavia, demonstra potencial para tal, precisando de maior investimento no ramo, mas isso já é tema para outro texto.

 

Imagens:

1- foto produzida pela autora

2- divulgação True Blood / HBO

3- divulgação True Blood / HBO

 

REFERÊNCIAS

BALOGH Anna Maria. Sobre o conceito de ficção na TV. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002, Salvador. Anais… São Paulo: Intercom, 2002. CD-ROM. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2002/congresso2002_anais/2002_NP14BALOGH.pdf>. Acesso em 18 jun. 2014.

BALOGH Anna Maria. Televisão: ficção seriada e intertextualidade. Comunicação e Educação, São Paulo, v. 12, n. 3, p. 43-49, set-dez, 2007. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/37657>. Acesso em 18 jun. 2014.

CERQUEIRA, Renata Cristina Bento. Práticas de assistir televisão: um olhar sobre a série Game of Thrones na HBO. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 36., 2013, Manaus. Anais… São Paulo: Intercom, 2002. CD-ROM. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2013/resumos/R8-1924-1.pdf >. Acesso em 18 jun. 2014.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 8. ed. 1ª reimpr. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.

GARCIA, Yuri. The Blood is the Life: Sensação e materialidade na mitologia vampírica. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 36., 2013, Manaus. Anais… São Paulo: Intercom, 2002. CD-ROM. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2013/resumos/R8-0395-1.pdf>. Acesso em 18 jun. 2014.

RODRIGUES, Eduardo. Arquivo X – Um Estudo das Relações entre o Cinema e a Televisão. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, 2010. Disponível em: <http://bocc.unisinos.br/pag/rodrigues-eduardo-arquivo-x.pdf>. Acesso em 18 jun. 2014.

SANTOS, Rodrigo Lessa Cezar. Narrando histórias de vampiros: uma análisehistórica da temática vampiresca a partir do seriadotelevisivo True Blood. In: VIII ENECULT- Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 2012, Salvador. Anais… Salvador: UFBA, 2012. Disponível em: <http://www.academia.edu/4147509/Narrando_historias_de_vampiros_Uma_analise_historica_da_tematica_vampiresca_a_partir_do_seriado_televisivo_True_Blood>. Acesso em 18 jun. 2014.



[1] Todos os aspectos que compõem a cena: decoração, organização dos elementos, iluminação, encenação etc.

[2] Nesse sentido, me amparo nos ensinamentos de Balogh (2007), que fala da necessidade de criar competências nos espectadores.

[3] Entendo consumo cultural na perspectiva de García Canclini (2010), ultrapassando as barreiras do supérfluo, corroborando com a ideia de que o consumo é também meio de reflexão, do pensar sobre o fazer.

[4] Inspirada na série de livros The Southern Vampire Mysteries, de Charlaine Harris. Contou com doze episódios por temporada até 2012 e, na sexta temporada, apresentou dez episódios, tendência que seguirá na sétima.

[5] Há os que não respeitam as leis de coexistência, mas para esses há julgamentos em tribunais dos vampiros nos quais são aferidas sentenças aos infratores para que a convivência seja possível e os vampiros não precisem se esconder novamente.

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