Que a Universidade se pinte cada vez mais de povo

5 de junho de 2014 Processocom

Tabita Strassburger

No dia 20 de maio, a Sala II do Salão de Atos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) foi tomada por uma mistura de “ruídos”, questionamentos, respostas e ainda mais interrogações. Foram quase três horas de uma conversa musical que colocou em debate a cultura popular, o panorama artístico brasileiro, a participação política dos sujeitos, a importância de nos articularmos para que as mudanças se efetivem, algumas possibilidades de ação, o papel da arte nessas dinâmicas, entre outras tantas questões.

A “Audição comentada com Apanhador Só” tinha a proposta de estabelecer um diálogo com a banda a partir de seu último álbum, Antes que tu conte outra. Aqui está a explicação para a referência aos “ruídos”. O disco apresenta uma sonoridade composta de distorções, improvisos, diferentes instrumentos musicais, utensílios domésticos, enfim, faz uma mescla de sons para chegar ao resultado presente nas músicas e busca tirar da acomodação quem as estiver ouvindo. O evento foi uma iniciativa do Núcleo de Estudos da Canção e do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS e teve a mediação de dois professores da Universidade.

A dinâmica era a seguinte: escutávamos uma das músicas da banda e começava o debate. Em geral, os professores davam início à rodada e, na sequência, abriam às perguntas do público. Nas falas dos integrantes, ficavam nítidos o envolvimento e a preocupação que carregam no que diz respeito ao cenário do país. A produção do álbum, desde a composição das letras até os arranjos elaborados para musicá-las, tem relação com os protestos que ocorreram no Brasil desde o ano passado. Inclusive, conforme os músicos comentaram, a primeira faixa, Mordido, foi gravada durante a polêmica manifestação envolvendo o mascote da Copa, no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre.

Durante a conversa, algumas pessoas que estavam na plateia mencionaram que os integrantes da banda costumam participar das mobilizações que ocorrem pela capital gaúcha, fato que, segundo os comentários, é admirado não apenas por seus fãs, mas pelos companheiros de luta. Assim também, agrada a postura despreocupada que a Apanhador Só tem com a música como fonte de renda. O objetivo não é lucrar com o que fazem, mas, pode-se dizer, que a ideia é produzir para conscientizar, tirar do comodismo, desestabilizar. Por isso e para isso, disponibilizam suas músicas para download gratuito e fazem apresentações abertas em locais públicos.

Enquanto acompanhava a conversa, eu refletia sobre o quanto era lindo ver aquele espaço, que ainda parece tão erudito, tão restrito aos acadêmicos, repleto de debates e questionamentos vindos de pessoas de diferentes lugares sociais, faixas etárias, escolaridades, gêneros. Naquele momento, sentia a Universidade cumprindo seu papel de ser do povo e para o povo.

Dois dias depois, quando começou a fervilhar pelas redes sociais a decisão da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) de aderir ao ingresso dos estudantes pelo SISU e destinar 50% de suas vagas para o sistema de cotas, imediatamente pensei nas mudanças pelas quais nossas universidades têm passado na última década com a ampliação de incentivos, acessos e investimentos. Também me lembrei da Audição e de algumas vivências que tive antes de entrar na graduação e durante o período em que cursei Jornalismo em Santa Maria, na referida universidade. Passou por minhas memórias a dificuldade que eu e muitos colegas tivemos para passar no vestibular, agora extinto.

Com tantas reflexões fervilhando, só pude pensar no discurso de Che Guevara, quando recebeu o título de doutor honoris causa, em 1959, na Universidade Central de Las Villas, em Cuba. Bem como na necessidade de que suas palavras continuem se concretizando em ações, políticas públicas, direitos conquistados… Que cada vez mais a universidade se pinte de negro, que se pinte de mulato, que se pinte de trabalhador, que se pinte de povo, entre estudantes e professores, porque a universidade é de todos nós.

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