Jornalistas inferiores

3 de junho de 2014 Processocom

“Se fosse para fazer uma reportagem investigativa, eu até gostaria de um computador melhor, mas, para falar de bronzeamento artificial e unha de porcelana, esse está muito bom”. Foi mais ou menos isso que a personagem de Taís Araújo, uma jornalista, disse numa cena da novela das sete. A conotação é clara: jornalismo de frivolidades é uma categoria inferior.

Crédito: Divulgação/Rede Globo

Crédito: Divulgação/Rede Globo

Esta visão pejorativa da profissão não é exclusiva do público leigo. Muitos colegas jornalistas também pensam assim. E isso me irrita. Irrita porque, independentemente da editoria, devem prevalecer pelo menos dois itens: o compromisso do profissional com a qualidade da informação e o respeito ao público.

Se existem leitores para uma reportagem sobre unhas postiças, eles devem ser tratados com seriedade, tal qual se trata um leitor de geopolítica. É por causa deles – e dos anunciantes interessados neles – que existem os veículos que dão emprego a tantos jornalistas. O mínimo que o público espera são informações novas, de qualidade, relevantes para seus interesses.

Minha primeira oportunidade profissional após a faculdade foi num site feminino. Falei de maquiagem, de TPM e de moda. Aprendi bastante (até porque nunca usei batom e minha menarca nunca veio). Hoje, converso com especialistas em varejo e escrevo sobre giro de estoque, endomarketing e boas práticas no manuseio de hortifrutigranjeiros. Continuo a aprender.

Na minha carreira, nunca fiz denúncias bombásticas e o máximo de furo de reportagem que dei foi descobrir um tumblr legal. Por outro lado, jamais precisei me retratar por uma informação mal apurada (tá, já errei nome de entrevistado; sou humano). Volta e meia fontes me retornam para elogiar meu texto e a precisão com que registrei suas falas. É aí que percebo que estou no ramo certo.

Almejar espaço no jornalismo investigativo é legítimo. Porém, não é só um Prêmio Esso que faz um bom profissional. Não existe jornalismo inferior: o que existem são jornalistas inferiores, que não respeitam os diversificados caminhos que a profissão possibilita trilhar.

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