O Cenário da Pesquisa em Comunicação em Moçambique

26 de Maio de 2014 Processocom

Tamires Coêlho

O Prof. Tomas Jane, reitor da Escola Superior de Jornalismo de Moçambique, visitou a Universidade Federal de Minas Gerais visando articulações em torno da realização de um DINTER (Doutorado Interinstitucional) junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG. Durante sua visita, ele proferiu uma palestra para professores e alunos de Comunicação no dia 08 de maio intitulada “Panorama da pesquisa em Comunicação em Moçambique”. Na ocasião, foi possível conhecer melhor o cenário e a realidade da pesquisa em Comunicação produzida em um continente ainda muito pouco visível em nosso campo, a África, e mais especificamente no território moçambicano.

Na “classe D” das instituições de ensino superior de Moçambique, a Escola Superior de Jornalismo começou suas atividades em 2009 em Maputo (cidade capital), que além de centro financeiro e mercantil moçambicano é o principal polo educacional do país. Atualmente, há escassez de espaço para instalação de novos cursos superiores na Escola.

É interessante mencionar que o contato entre a Escola Superior de Jornalismo e a UFMG começou com o mestrado de alguns professores da Escola na universidade brasileira. Pesquisadores que hoje são docentes e colegas de Jane na Escola Superior fizeram sua formação acadêmica no Brasil não por acaso: a maioria dos professores do campo da Comunicação em Moçambique atualmente só têm graduação; há uma carência no que concerne à formação de docentes e pesquisadores em Comunicação no país; em um país com 23 milhões de habitantes, Tomas Jane especula que existam apenas 30 mestres e 7 doutores em todo o país no campo comunicacional – desses, 12 mestres e 4 doutores colaboram com a Escola Superior de Jornalismo (tanto em tempo parcial quanto integral).

Prof. Dr. Tomas Jane e Prof. Dr. André Brasil durante palestra na UFMG

Prof. Dr. Tomas Jane e Prof. Dr. André Brasil durante palestra na UFMG

A área científica relacionada às ciências da Comunicação e da Informação ainda estão em estágio embrionário, segundo Tomas Jane. A primeira instituição a oferecer um curso nessa área era privada: o Instituto Superior Politécnico Universitário, em 1996. Somente em 2000 seria ofertado outro curso desse campo no país, com a chegada da Universidade Católica, também privada. Os primeiros cursos oferecidos no país eram de Marketing e Relações Públicas. A oferta do curso de Jornalismo chega a ser muito mais recente, bem como a oferta de cursos de Comunicação por instituições públicas – somente em 2004 um curso de comunicação foi oferecido gratuitamente na ECA (Escola de Comunicação e Arte). Hoje 12 instituições de ensino em Ciências da Comunicação estão em atividade: 10 privadas e apenas 2 públicas – que por sua vez são as mais concorridas nos vestibulares. O último vestibular da Escola Superior de Jornalismo obteve concorrência de quase 1250 candidatos para 120 vagas, que pode ser considerada elevada em um país com um índice tão alto de analfabetismo.

O próximo passo da Escola Superior é conseguir implantar um curso de mestrado com foco em Comunicação e cooperação para o desenvolvimento, em uma tentativa de qualificar os graduados em Comunicação no país sem que eles tenham que migrar para outros continentes e países. No entanto, ainda é preciso investir em infraestrutura para esses novos cursos: a Escola Superior ocupa espaços de escolas primárias para conseguir funcionar e atender aos 500 estudantes nela matriculados, 90 estudantes no centro do país e aos 410 em Maputo.

Prof. Jane explicou sobre o contexto moçambicano de pesquisa em Comunicação

Prof. Jane explicou sobre o contexto moçambicano de pesquisa em Comunicação

Jane ressaltou a importância de estudar manifestações artísticas populares em seu país, “resgatando aquilo que está sendo esquecido, e continuar a ser uma arte que pode alimentar o país. Não a arte que só é vista a nível da televisão, a nível do cinema, de Hollywood e companhia, mas também aquilo que está sendo deixado para escanteio. Precisa ser desenvolvido isso. Então temos que ter atividades de pesquisa para medir até que ponto isso pode ser aceito na comunidade e como é que pode ser feito, e buscar anciãos que entendem melhor isso, e nos trazer a experiência”.

Os docentes de Moçambique também têm em vista o desenvolvimento local e comunitário nas pesquisas em Comunicação. Embora tenham muito a crescer, em âmbito científico e acadêmico, Moçambique oferta hoje aos investigadores de vários países um vasto campo de pesquisa: é um local pouco pesquisado sob vários aspectos, até porque nem há muitos pesquisadores no país, nem há uma política de pesquisa em Moçambique que ofereça um horizonte aos investigadores.

Contexto da República de Moçambique

Embora Brasil e Moçambique tenham histórias bem parecidas, pouco se sabe em nosso país sobre o país africano também colonizado por portugueses. “Os dois têm quase a mesma história, em termos de origem colonial. Claro que pode haver algumas diferenças em termos culturais, mas não muitas”, explicou o reitor da Escola Superior de Jornalismo.

A história colonial de Moçambique durou quase 500 anos e somente há pouco mais de 30 anos o país conseguiu independência. De tamanho aproximado ao do estado do Mato Grosso, localizado no Sudeste do continente africano, próximo ao Cabo da Boa Esperança, Jane afirma que seu país é uma “ilha”: “porque todos os países que fazem fronteira com Moçambique são países de colonização inglesa”. Embora o português seja a única língua oficial do país (e talvez sua maior herança colonial), existem mais de 20 línguas faladas em seu território, sem contar as variantes, e a mais falada (mais popular até que a língua oficial) é o “macua”, com mais de 6 milhões de falantes.

87% da população moçambicana ainda residem nas zonas rurais e a agricultura é a principal atividade do país. 50% dos moçambicanos são analfabetos: um índice que poderia ser menor não fossem os 16 anos de guerra que o país enfrentou logo após sua independência, afinal durante esse período o processo de alfabetização se manteve estagnado. 65% da população analfabeta reside na zona rural e é composta majoritariamente por mulheres. De maneira similar ao Brasil, os professores ainda compõem uma categoria socialmente desvalorizada, com baixos salários – se comparados aos de outros profissionais como médicos e engenheiros.

As universidades são autônomas, mesmo as públicas. Apesar de o Estado injetar recursos nas instituições educacionais públicas, elas fazem um orçamento anualmente e enviam ao governo sua previsão de gastos para o ano seguinte. O governo não intervém nelas, havendo autonomia – por lei – em âmbitos tanto científico e pedagógico quanto administrativo, disciplinar e financeiro. De acordo com Jane, nem mesmo o ministro da Educação tem autoridade para intervir nas universidades de Moçambique.

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