Morda suas palavras

19 de maio de 2014 Processocom

Rafael Tourinho Raymundo

Certa tarde estive na rodoviária de Porto Alegre e vi uma mulher com duas crianças – um bebê de colo e um menino de uns três anos, provavelmente seus filhos. Notei que ela vestia uma blusa com os dizeres “bite me now” (em tradução literal, “morda-me agora”) em letras douradas garrafais.

Achei a cena inusitada e a comentei em meu perfil do Facebook: será que ela desconhecia a tradução? Ou será que apenas estava dando um exemplo esquisito às crianças?

Não demorou para um amigo comentar. “Bite me”, disse ele, também pode significar algo como “me esqueça”, e a mulher poderia simplesmente estar dizendo que não se diminui perante a opinião dos outros. Nas entrelinhas, meu interlocutor deu a entender que meu julgamento foi precipitado e, de certa forma, classicista, dado o local em que o fato ocorreu.

Sou frequentador assíduo de terminais rodoviários. Sei que, por esses ambientes, passam pessoas de todas as origens e classes econômicas. Todos lá têm uma história e viajam por um motivo. Respeito essa diversidade – até porque faço parte desse grupo – e garanto que não se trata de preconceito de classe.

A questão, aqui, é a mensagem que a mulher transmitiu, mesmo sem querer. As pessoas são livres para dizer e vestir o que bem entendem. As interpretações, porém, variam. Os julgamentos, também.

A meu ver, tanto uma mensagem de “me esqueça” quanto uma de “morda-me agora” soam agressivas demais. No mínimo, não são um exemplo positivo para as crianças que a mulher acompanhava. É claro que não caberia a mim recriminá-la ou sugerir a ela como criar seus filhos. No entanto, posso questionar-me sobre o ocorrido e, sim, julgá-lo.

Provavelmente nunca conhecerei as reais intenções por trás da blusa com o “bite me now” escrito. Talvez a moça só gostasse de dourado, como sugeriu outro amigo meu. Ainda assim, fosse qual fosse a mensagem a ser transmitida, ela se perdeu em meio à pluralidade de sentidos. Como já disse o ensaísta francês Michel de Montaigne, “a palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a ouve”.

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#palavra#porto alegre#rodoviária

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