Casos similares com pesos, medidas e repercussões midiáticas diferentes

19 de março de 2014 Processocom

Tamires Coêlho

Quando uma criança foi arrastada por criminosos em um carro roubado há alguns anos, houve toda uma comoção nacional. João Hélio Fernandes faria 14 anos na última terça-feira (18/03/14), se sua vida não tivesse sido interrompida em fevereiro de 2007. Os assaltantes que arrastaram João Hélio foram procurados e perseguidos tanto pela polícia como pela mídia, e, por fim, foram condenados. Sete anos depois da morte do garoto de classe média, a mídia repercute de maneira diferente um acontecimento bastante parecido: Cláudia da Silva Ferreira, de 38 anos, foi também arrastada dependurada a um veículo até a morte no dia 16 de março.

A cidade é a mesma – Rio de Janeiro –, mas as situações são bem diferentes: em vez de assaltantes, eram policiais; em vez de um carro roubado, uma viatura policial arrastava o corpo de Cláudia; em vez de uma criança branca de classe média, uma auxiliar de limpeza, pobre e negra, que morava na periferia (Morro da Congonha) era arrastada; em vez de ganhar todas as manchetes de jornais e noticiários nacionais, a vítima se tornou apenas mais uma morte dentre tantas outras noticiadas aleatoriamente pelas editorias de polícia dos veículos.

As mesmas autoridades que estiveram no enterro do menino João Hélio em 2007 sequer entraram em contato com a família de Cláudia para comentar o caso, de acordo com a matéria do Globo.com. Inclusive o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que já era secretário à época do caso João Hélio e que compareceu ao sepultamento da criança à época com um coronel da Polícia Militar, limitou-se a enviar uma nota à imprensa repudiando a conduta dos policiais militares no caso de Cláudia.

Repercussão Midiática

As situações são tão diferentes quanto os discursos produzidos por grandes meios de comunicação. A morte de Cláudia não é retratada com a comoção da morte de João Hélio, não há o sentimento de indignação (seja ele explícito ou nas entrelinhas) nos textos de portais de notícia e nas falas de âncoras dos telejornais como há sete anos. Talvez se não houvesse um vídeo de cinegrafista amador registrando o momento em que o corpo de Cláudia Ferreira foi arrastado pelas ruas cariocas pela viatura policial, sequer seria mencionado o crime e o nome da vítima em matérias jornalísticas, porque seria somente um número a mais nas estatísticas de mortes durante “tiroteios” nos morros do Rio.

Cláudia da Silva teve seu nome apagado midiaticamente e virou “a arrastada” – um tratamento que podemos considerar cruel e desumano com a vítima e com a família que a perdeu recentemente de maneira trágica. A denominação de “arrastada” além de fria, mostra a banalização de uma morte similar a muitas que acontecem todos os dias nos morros cariocas, envolvendo a polícia. Os jornalistas parecem não assimilar mais aquele fato como correlacionado a uma morte, à perda de uma família, mas a apenas mais uma informação rotineira e repetitiva, que nem estaria sendo explorada não fosse a viralização do vídeo que mostra a tragédia nas redes sociais. Foi possível acompanhar no site Globo.com a multiplicação de termos como “filha de arrastada”, “mulher arrastada”, “enterro de arrastada”, evidenciando que a vítima não é reconhecida à mesma medida de outras como João Hélio, por exemplo. Em vez de tratar do “Caso Cláudia Ferreira” ou do “Caso Cláudia” (de maneira similar como ocorreu com o “Caso João Hélio” ou com o “Caso Isabela Nardoni” no passado), a mídia passou a tratar do “Caso da Arrastada”, como se fosse referente a um ser qualquer e não a um ser humano que tinha nome, família, emprego, filhos, família e vida social.

Reconhecemos o jornalismo não como fruto de um trabalho imparcial e neutro, mas sim com “múltiplas dimensões, contradições, silêncios, interditos” (CARVALHO, 2009, p.59). Sabemos que existem muitos fatores não explorados nas matérias relacionados a interesses comerciais das empresas de comunicação, além de muitos jornalistas estarem habituados a descrever superficialmente os fatos, sem questionamentos ou críticas – e daí emergem uma série de fatores outros como as relações hierárquicas de poder das redações que por vezes não permitem alçar voos mais longos, ou mesmo a sobrecarga de trabalho que não permite o aprofundamento das notícias, gerando um ciclo vicioso que empobrece o jornal e que presta um desserviço ao leitor.

Se, em tese, “um jornalista deve fazer três coisas: produzir informação da maneira mais honesta possível; fazer perguntas para que possa compreender a complexidade do mundo; e ainda elaborar a crítica” (WOLTON, 2012, p.207). Na prática, o que percebemos no caso de Cláudia Ferreira e em inúmeros outros é que a crítica ainda está muito distante do que é feito habitualmente nas editorias policiais dos meios brasileiros. A polícia, por exemplo, não é uma instituição criticada ou questionada com frequência pelos meios de comunicação, sobretudo no que concerne a ocupações e operações nas periferias brasileiras. Dependendo do veículo, as editorias de polícia servem quase que como uma assessoria de imprensa para a polícia, limitando-se a transmitir e veicular as informações de maneira exatamente idêntica ao que a polícia informa ao jornalista.

É interessante perceber que civis suspeitos de cometerem algum crime podem ser denominados de “criminosos” e condenados previamente pela mídia. Isso não acontece com criminosos e suspeitos que estejam fardados de policiais. Voltemos à comparação entre os casos de João Hélio e Cláudia Ferreira, longe de querer julgar ou justificar algum dos envolvidos em ambos os casos. Quando acompanhamos o caso de João Hélio, há sete anos, não percebemos nenhuma menção dos meios de comunicação quanto à possibilidade de os assaltantes terem arrastado João Hélio sem intenção. Se eles eram assaltantes, eram pessoas más e ponto final, era intencional sim, pois eram criminosos sem coração. No caso de Cláudia, segundo o site Globo.com, a vítima foi “socorrida” pelos policiais após ser “baleada em um tiroteio”; “três policiais que socorreram vítima de tiroteio”.

Não é o caso aqui de acusarmos a polícia de ter atirado e arrastado propositalmente o corpo de Cláudia, mas de questionar por que o tratamento midiático é tão diferente, principalmente considerando que dois dos três policiais envolvidos com a morte de Cláudia Ferreira já tinham respondido anteriormente por homicídio. Por que não questionar a PM sobre o fato de policiais condenados por homicídio estarem circulando livremente e participando de operações? Por que não questionar uma polícia que é mal preparada e que faz disparos aleatórios em uma comunidade, que nunca é culpada durante os “tiroteios”? Por que não questionar uma polícia que faz “prestação de socorro” totalmente inadequada (e sem autorização) e é negligente com as vítimas? Por que condenar por antecipação os civis (sejam eles criminosos ou não) e proteger a polícia? Por que o caso de Cláudia Ferreira pode ter sido um “acidente” e o de João Hélio não? Por que os policiais na viatura que arrastava Cláudia não pararam, mesmo diante do alerta de pedestres e motoristas sobre o fato de uma pessoa estar sendo arrastada no asfalto por eles? Se os policiais estão no Morro para “proteger” a população, por que na matéria veiculada pelo site Uol é mostrado um policial apontando uma arma em direção às pessoas que protestavam revoltadas contra a morte de Cláudia?

Se os jornalistas tiverem medo de questionar ações da polícia, não estamos vivendo em um Estado democrático e de liberdade de expressão. Sem a existência da atitude questionadora, crítica – que deveria ser inerente à função jornalística –, provavelmente não haverá pressão ou cobrança pela punição de policiais que já saíram impunes de outros crimes. A mesma pressão para que fossem presos, julgados e condenados os responsáveis pela morte de João Hélio provavelmente não retornará neste momento, porque o contexto é outro, os responsáveis (diretos ou indiretos) são outros, os pesos midiáticos dos acontecimentos são diferentes.

Em vez de manchetes, matérias e reportagens especiais, de uma cobertura exaustiva – como no caso de João Hélio –, observamos matérias poucas e mal localizadas sobre o caso de Cláudia nos sites e portais de notícias. A vida de uma mulher negra, mãe de oito filhos e trabalhadora humilde é menos importante que a de uma criança branca de classe média? Para a mídia, infelizmente, sim. Aparentemente, a história de Cláudia “vende” menos.

Referências

CARVALHO, Carlos Alberto.Visibilidades mediadas nas narrativas jornalísticas: a cobertura da Aids pela Folha de S. Paulo de 1983 a 1987. São Paulo: Annablume, 2009.

G1. ‘Trataram como bicho’, diz marido de mulher arrastada em carro da PM. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/trataram-como-bicho-diz-marido-de-mulher-arrastada-em-carro-da-pm.html>. Acesso em 18 mar. 2014.

_____. Presos por arrastar mulher, dois PMs já responderam por homicídio. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/rio/presos-por-arrastar-mulher-dois-pms-ja-responderam-por-homicidio-11907793>. Acesso em 18 mar. 2014.

UOL. Mulher é arrastada por carro da polícia após ser baleada em favela do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/album/2014/03/17/mulher-e-arrastada-por-carro-da-policia-apos-ser-baleada-em-favela-do-rio-de-janeiro.htm?abrefoto=2#fotoNav=15>. Acesso em 18 mar. 2014.

WOLTON, Dominique. É preciso diminuir a velocidade da informação. Entrevistadores: Carlos Alberto Zanotti e André Camarão Telles Ribeiro. In: Revista Comunicação, Mídia e Consumo, ano 9, v.9, n.25. São Paulo: ESPM, 2012.

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