Masculinidade sufocada: perda de hegemonia e midiatização do ressentimento coletivo

6 de dezembro de 2013 Processocom

Thales H. Pimenta

Neste mês foi lançada uma campanha publicitária pela revista Playboy, em conjunto com a The Heart Corporation, que foi projetada por meio das reclamações e angústias de leitores homens sobre a redução do protagonismo masculino na sociedade. A produção midiática, que segue a premissa da própria corporação de aproximar os valores de marca aos valores das pessoas, leva o nome de “Constituição do Homem Livre”, sendo defendida pelo diretor de criação Valmir Leite como uma forma que a revista encontrou de declarar seu apoio aos homens, que encontrarão ali um espaço para exercerem sua liberdade, conversarem com amigos e admirarem mulheres sem serem “massacrados”, em suas próprias palavras, pelo “clima politicamente correto”.

Tendo sido produzida para agradar exclusivamente aos homens, o diretor de criação – que também é sócio da empresa – entende que os protestos femininos em relação à campanha mesmo assim serão bem vindos, especialmente se as mulheres os fizerem, ainda em suas palavras, sem roupas. Em entrevista à Revista Fórum, que foi a primeira a noticiar sobre a campanha, a cientista social Lenina Vernucci, que integra o Coletivo Ana Montenegro, faz algumas observações importantes: “perder o espaço, perder ou diminuir as correlações de força sempre gera problemas. Sim, eles sentem que estão sendo sufocados porque agora não é mais aceitável serem tidos como superiores. Agora o ‘poder do macho’ é questionado e posto à prova”.

Dentre as frases da campanha estão: “sim, adoramos ver uma bela bunda passar”; “como o  casamento dá trabalho, deveríamos receber um mês de férias por ano”. Embora elas sejam colocadas de forma humorística para jogar com padrões e expectativas de comportamento criados para o gênero masculino, uma vez que o entretenimento – além das pesquisas de opinião pública – é o que hoje sustenta alguns papeis de gênero através do estereótipo, a brincadeira por si só não furta a campanha de legitimar a objetificação do corpo feminino, específicas condutas antiéticas e, ainda, um menor cuidado do homem com suas relações afetivas, em seja quais forem as suas configurações ou modalidades.

Em verdade, mesmo nos trechos que foram citados não se explora nada além do que já foi dito em milênios de cultura patriarcal. Apenas uma diferença é evidente: hoje o sexismo é pervasivo, ou seja, retifica-se em pequenos fenômenos sociais do cotidiano. Isso quer dizer que o patriarcado, por exemplo, não distribui o tempo nem divide funções e lugares sociais de gênero como antes, apesar de tudo isso ainda se fazer perceptível quando constatamos que, em vários contextos, as mulheres trabalham mais e foram educadas a pensar que isso simplesmente não procede como um fenômeno social.

Penso que o sexismo é pervasivo, difuso ou como mais se queira chamar porque a mesma epistemologia que no passado deu conta de elaborar muitas das formas de conhecimento que se arrastaram até a sociedade contemporânea hoje funciona através da propagação de uma ideologia protopatriarcal. E isso quer dizer, em outras palavras, que no lugar de fazer essa epistemologia se ampliar, estruturando mais hierarquias entre os papeis, identidades, performances, lugares e funções sociais de gênero, a ideologia patriarcal investe hoje não apenas em uma manutenção daquilo que já foi estabelecido, mas também na propagação dos sentimentos de (falsa) opressão – que em seguida são lidos como consequências reais da perda masculina de hegemonia. Nesse cenário, chamar mulheres (trans)feministas de “feminazis” deixa de parecer uma mera coincidência, apesar do termo ter sido elaborado tempos antes pelo professor Thomas Hazlett e popularizado em 1990 pelo conservadorista norte-americano Rush Limbaugh.

Isso seria, de fato, o que chamo de protopatriarcado. Tal como disse uma colega feminista, esse fenômeno social nem é tão novo. Apesar disso, tem agora chegado a seu ápice, o que colocaria uma leitura gramsciana em lugar privilegiado. A noção de uma “masculinidade sufocada”, embora esteja presente na publicidade, também foi – e continua sendo! – um objeto de muitas produções midiáticas. Verbais e não-verbais. Tanto é verdade que, pelos bancos de imagens da internet, a maioria das fotos e demais ilustrações retratam a mulher feminista como um sapato de salto alto em proporção irreal esmagando a um homem. Ou como pessoa que está ascendendo socialmente sem perder, no entanto, o status de objeto sexual, o que é representado pelo estereótipo da subidinha sensual de escadas. E o show não termina por aí…

Mas esses são apenas alguns exemplos. E certamente não se comparam a outros discursos midiáticos atravessados pela ideologia protopatriarcal que, a meu ver, parecem bem mais incisivos. Apesar disso, não entendo que esses objetos empíricos devam ser ignorados por escala de importância, já que dão conta, em diferentes proporções, de legitimar a mesma ideia de que a hegemonia masculina, uma vez perdida, deu lugar a um “sufoco” do mesmo gênero. Nesse sentido, a “banalidade” das frases que constam na “Constituição do Homem Livre”, partindo de uma premissa comum, parece reforçar os sentimentos de falsa opressão dos quais falei antes, incentivando específicos padrões e expectativas de comportamento masculino que têm sido postos em crítica, justamente, pelos movimentos sociais.

Esse fenômeno tem um nome: ressentimento coletivo. Parece muito com o que franceses reacionários sentem hoje em dia, por exemplo, em relação a negros, chineses, árabes etc. que estão “tomando conta” de seu país. Bem como assinalou Muniz Sodré em um texto de 2012, sentem falta do status de potência que antes se construía em suas relações mantidas com outros países, pois manter essas relações não significava aceitar a diversidade cultural que elas possibilitavam, mas sim impor o seu discurso civilizatório – que hoje ainda se faz presente na ideia de “igualdade” que visa homogeneizar os franceses e esses “outros” que habitam o seu território.

Boa parte desses sentimentos é silenciosa, estando bem oculta nos grotões da consciência, mas basta alguma situação-limite ou mesmo uma sensação de risco para que bombardeios se deem nas moradias de imigrantes e/ou cidadãos franceses de origem (ou ascendência) estrangeira, por exemplo, ou para que gangues supremacistas juvenis incentivem assédios morais e outros crimes xenofóbicos nos pátios das escolas. Também basta um vídeo feito para a TV que represente um tipo de dissolução do sangue puro europeu no “caldo sujo” da mestiçagem cultural e étnica para que as opiniões se dividam de uma maneira abrupta no cotidiano. Nesses casos não se trata apenas de racismo, mas de um ressentimento coletivo ocasionado pelo “deslugar” do etnocentrismo no cenário contemporâneo.

Estabelecendo a comparação e lembrando do ressentimento antifeminista já indicado pela pesquisadora francesa Elise Dermineur, que observa nesse fenômeno social uma luta pela recuperação do protagonismo perdido, entendo bem a que acaba se propondo a campanha publicitária da qual vim falando até aqui: apesar de parecer brincalhona, visa resgatar uma série de posições masculinas – hoje mais questionadas e combatidas – usando um discurso nostálgico e saudosista sobre como a divisão dos poderes impulsionada pelos movimentos sociais deu lugar a injustiças sofridas pelos homens, que agora teriam menos voz.

É de se pensar que esse tipo de produção midiática seja projetado por pessoas e empresas que não têm uma ideia muito concreta de como raciocinam esses sujeitos ressentidos, que representam seu “público-alvo”, não entendem o sentimento negativo que esse discurso fomenta e tampouco sabem dizer como essas sensações coletivas de (falsa) opressão são construídas. Mas é possível percebermos sim que a preocupação do sócio brasileiro da The Heart Corporation em livrar os leitores da revista desse “clima politicamente correto”, pelo que foi exposto, segue à risca aquilo que a corporação propõe: aproximar valores de marca aos valores das pessoas. Apenas não se esperava que os valores pudessem vir, justamente, de uma ideologia protopatriarcal.

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