O debate das questões de gênero com o surgimento dos aplicativos Lulu e Tubby

4 de dezembro de 2013 Processocom

Tamires Coêlho

Em nosso cotidiano vemos surgir aplicativos a cada segundo. Muitos se aproveitam da mobilidade que os celulares nos proporcionam, alguns são acionados nas redes sociais virtuais que utilizamos para conectarmo-nos com sujeitos de nossos círculos sociais mais diversos. Temos aplicativos dos mais diversos: alguns funcionam como GPS, outros funcionam para ajudar na mobilidade urbana (seja de carro, táxi, ônibus, metrô, trem etc.), outros permitem que façamos notinhas rápidas em nossos celulares, ou ainda que troquemos mensagens de celular sem o custo do SMS, há aplicativo sob forma de jogos, outros que nos ajudam a manipular imagens, sem contar uma infinidade de características e finalidades de tantos outros aplicativos disponíveis – gratuitos ou não. Mas o que acontece quando os aplicativos trazem à tona questões de gênero arraigadas em nossa sociedade?

Hoje (04/12) seria o dia de lançamento oficial do app Tubby, com o lema “Sua vez de descobrir se ela é boa de cama”, o qual foi prorrogado para o dia 06/12. O lançamento desse aplicativo é uma “resposta” à criação do aplicativo Lulu (cujo lema é “O primeiro aplicativo para garotas”), tanto debatido e comentado em notícias e redes sociais nos últimos dias. Ambos apps se destinam a avaliar os parceiros (atuais, ex ou até mesmo futuros parceiros) de maneira quantitativa, através da atribuição de notas para cada pessoa avaliada, sem autorização desses sujeitos avaliados e muitas vezes com comentários (por meio de hashtags) depreciativos.

Estruturalmente, esses aplicativos não trazem nenhuma inovação – seja em relação à sua arquitetura ou às possibilidades de usos. No entanto eles levantaram uma série de questionamentos sobre até que ponto podemos invadir a vida do outro, expor a intimidade de uma relação a dois (mesmo que ela já tenha acabado) para que toda a rede tenha acesso a essas informações.

Algumas pessoas argumentam que nenhuma pessoa adulta e madura tenha interesse em divulgar para a rede que o parceiro (ou a parceira) seja “bom de cama”, entre outros aspectos, e que somente um desejo infantil de vingança motivaria uma pessoa a quantificar e avaliar um parceiro (geralmente um ex-parceiro) na internet. Por outro lado, há quem acredite que o app Lulu fosse uma ferramenta de auxílio às mulheres para evitarem se relacionar com homens “cafajestes” e/ou de caráter duvidoso.

Analisando o contexto e as discussões em função desses aplicativos, é interessante perceber que a parcela masculina do Facebook (rede social a partir da qual são gerados os perfis dos apps Lulu e Tubby) ficou revoltada por ser avaliada e ter seu desempenho julgado sem nenhuma condição de defesa. Por outro lado, as mulheres em quase toda a história da “civilização humana” foram subjugadas e rotuladas sem autorização. Ainda hoje, na contemporaneidade, é (infelizmente) bastante comum que as mulheres escutem barbaridades e sejam desrespeitadas profundamente através de comentários, cantadas de rua, “elogios” e de diversas outras formas que levariam muitas páginas para serem descritas. Isso sem autorização, um rótulo ou uma avaliação que invade sua intimidade de maneira pejorativa e que incomoda. Muitos desses homens que ficaram revoltados com o app Lulu são praticantes dessas mesmas atitudes que condenaram no aplicativo feminino.

Este texto não defende o aplicativo Lulu como uma ferramenta feminista. Até porque boa parte das correntes feministas é contra o revanchismo. Esse mesmo revanchismo que humilha e mata mulheres e garotas por meio do porn revenge e do slut shaming (leia mais sobre isso aqui). Não é que essa prática de falar dos relacionamentos, de discutir sobre a vida e intimidade de um casal para outras pessoas seja algo inaugurado com esses aplicativos, até porque esses temas são bastante explorados em mesas de bar e em reuniões de amigos/amigas. Mas, talvez pela primeira vez, essas avaliações viraram fruto de discussão e debate nas redes sociais, devido a visibilidade que ganharam.

Em vingança ao Lulu e à virtualização feminina de uma prática eminentemente masculina, surge o Tubby, de maneira ainda mais agressiva e pejorativa quando se propõe a qualificar o desempenho sexual das mulheres na visão dos homens, muito mais que qualificá-los e avaliá-los enquanto parceiros de relacionamento. A proposta do app masculino, mais que um simples retorno da brincadeira das Luluzinhas, se propõe a resgatar o que de mais duro e pernicioso existe no machismo (não que toda prática machista por si só já não seja prejudicial).

Em uma época de relações interpessoais desgastadas e de pouca união em torno de causas relevantes, há um retorno adolescente de uma “guerra dos sexos” em que ambos os lados se machucam, trazendo à tona o machismo e conservadorismo em mão dupla (tanto por parte dos homens quanto das mulheres). Em vez de procurar conhecer o outro, de respeitar as características da alteridade, existe nesses aplicativos um movimento de aproximação do outro já com preconceitos, com expectativas (mais ruins que boas) já formadas. Esses aplicativos não proporcionam aproximação e conhecimento de outra pessoa, mas apenas uma visão enquadrada em critérios duvidosos.

Voltemos então às décadas passadas nas quais o desquite (divórcio, separação) era motivo de humilhação e vergonha para uma pessoa (sobretudo para a mulher). Porque hoje só se salvará desses aplicativos quem estiver no primeiro relacionamento, quem não tiver experiência de vida, quem não tiver nenhum ex-parceiro(a) para taxá-lo(a) de “ruim de cama”, de “filhinho da mamãe”, de “piriguete” etc. É esse o avanço nas relações de gênero que queremos/desejamos?

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#Lulu#machismo#revanchismo#Tubby

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