Kardashian e outras mulheres: da maternidade como projeto midiático de vida

7 de novembro de 2013 Processocom

Thales Pimenta

Uma das frases que ouvi na última semana e entendo que fez valer toda a pena de escrever este texto foi dita pela empresária, socialite e atriz norte-americana Kimberly Kardashian num dos episódios de “Keeping up with the Kardashians”, reality show produzido nos EUA pelo diretor Ryan Seacrest e exibido pelo canal “E! Entertainment Television”. Em uma das chamadas do programa – que acompanha a vida cotidiana da família Kardashian-Jenner – a celebridade se banha de sol e divaga sobre uma cadeira de praia, concluindo que teve uma das gestações mais “estudadas”, em suas próprias palavras, na história da televisão estadunidense.

O cantor Kanye West com a atriz Kim Kardashian

Reflexões sobre classe social e estilos de vida à parte, duas coisas me vêm à cabeça justamente pelo espaço midiático que tomam. Primeiro, inevitável lembrar que seguindo a dieta Atkins – paupérrima em carboidratos, que são os maiores responsáveis pela energia do nosso corpo! – a atriz perdeu 25 kg depois de sua primeira gravidez. Segundo, grande parte das suas etapas de gestação foi documentada em som e imagem de forma minimalista na tentativa de criar novos conceitos sobre maternidade no contexto de uma vida midiatizada feito a de Kim, como é mais conhecida a atriz, de 33 anos, que descende de armênios, escoceses, holandeses e ameríndios, tendo se popularizado após o vazamento de um vídeo erótico pessoal protagonizado por ela com o rapper Ray J.

Essa midiatização da maternidade, apesar dos contornos que toma, ainda é a mesma de muitas outras construções: insiste-se numa gravidez em que a mulher tem de amar profundamente o projeto de criança que estrutura sem, entretanto, tê-la conhecido ainda; coloca-se em foco um projeto de “beleza pós-parto” tratado como realidade possível para qualquer mãe, em todas as classes sociais. E isso também me remete ao rápido emagrecimento da cantora estadunidense Beyoncé, que passou duas semanas deitada em uma cama à base de água, vitaminas e pimenta para perder o que engordou durante a gravidez de sua filha Blue Ivy.

Os casos são múltiplos, estendem-se à publicidade e passam até pela própria cultura com os seus conceitos e projetos políticos de maternidade, que às vezes beiram o biopoder porque estão associados a toda uma agenda de discursos financiados pelas indústrias da moda, da medicina e da estética, mas esses sentidos, especificamente, permanecem intactos. Até me lembrei da conversa que tive com uma amiga: ela falava das mães que, mais normalmente do que se pensa, ficam até sem banho porque têm uma crise – plausível! – por tudo. E esse “tudo”, aliás, vai muito além da respiração do bebê, das suas posições, do tipo/motivo do choro, dos horários de amamentação etc.

É claro que essas particularidades são preocupantes e continuam sendo assim mesmo depois das primeiras semanas pós-parto, mas a barra é mais pesada neles. E por que é? Se pensarmos na maternidade pelo que ela tem de construção social, vai-se descortinando o discurso primal: acredita-se que a mulher é obrigada a se sentir mãe e conhecer o próprio bebê antes mesmo de seu nascimento, isso pelo simples fato de estar grávida. Até se infere que a mulher é “mãe pelo conceito”, porque assume o seu papel institucional assim que descobre estar grávida, e que o homem é um “pai pela mão” por só “concretizar” o sentido dessa paternidade ao tocar e sentir sua filha ou filho.

E também dizem que precisamos incentivar o homem a se sentir pai desde cedo, para que ele tome consciência das responsabilidades que vai ter. Isso faz sentido. Mas e voltando à mulher, mais uma vez? Existe alguma outra ideia? Porque também considero que a maternidade é um verdadeiro acaso. Não conhecemos essas crianças. Nunca as vimos. Nem mesmo sabemos quais serão as nossas dinâmicas interacionais com elas. Não sabemos os tempos e horários biológicos que elas vão ter. Elas ainda não possuem uma identidade. Além disso, o principal: não há razões concretas, a essa altura, para amarmos esses bebês com toda a “mística” do discurso midiático. E acreditem: não há nada de errado aí. Tudo isso realmente vai se fazendo com o tempo, para muitas mães do mundo!

Reproduzo aqui as palavras de outra amiga, Aline, que é uma verdadeira faz-tudo e, entre tantas coisas, também cuida sozinha da filha: “Eles [os filhos] ainda são uma ideia abstrata porque não sabemos como serão os rostos, as personalidades, que impactos vão causar… a gente sabe que tem algo na barriga e que aquilo causa uma grande mudança na nossa vida, mas o sentimento, como tudo na vida, é uma construção. Daí a gente dá à luz e conhece esse bebê. E demora a assimilar que é o nosso bebê e que nós fizemos uma pessoa. Enquanto estamos na fase da ‘Modelagem 3D’ temos medo, mas esse medo aumenta quando eles nascem”.

Essa metáfora cibernética, além de muito bem humorada, explica bem o que é a maternidade antes dos partos: é um mundo de referências, noções, imagens e discursos. Tudo isso vem, de uma vez só, para que se projete um tipo de imagem, ainda virtual, da vida ainda em geração que deve ser amada. E o medo acaba sendo uma parte disso, tanto que as pressões sociais, para os casos psíquicos – e até os psiquiátricos – de problemas na criação do bebê, são apontadas como um dos fatores de maior impacto no mundo materno há pelo menos três décadas de pequisa científica, ainda que isso já viesse sendo alertado desde Simone de Beauvoir e outras mil.

Entendo muito aquelas mães que têm Depressão Pós-Parto (DPP) e até mesmo as que fazem coisas aparentemente incompreensíveis com suas filhas e filhos. É que, para a mulher que não frequenta os Hemptons como faz Kimberly Kardashian, pode ser uma angústia enorme estar sozinha para criar esse bebê. É terrível ser negligenciada pelo marido porque ele não aceita que a mulher esteja esteticamente “desleixada” desde que teve a criança. E reparem: o que tem de programas na televisão e matérias de portais ensinando as mães novatas a serem lindas como se isso fosse uma espécie de obrigação estética pós-parto não é brincadeira!

E é uma dificuldade real para essa mulher não ter o seu parceiro querendo se envolver (ou ter o Estado que não o deixa se envolver) diretamente na criação do bebê, ser obrigada a amar – que é um sentimento para toda a vida, mas que a gente ainda assim precisa construir! – uma criança que ela nem mesmo conhecia e se considerar uma grande megera porque não consegue gostar ainda daquela criança, além de nem mesmo convencer os outros, com sua performance, de que sente tudo isso. Esse processo, aliás, é o mesmo pelo qual muitas outras mães se forçam ou são obrigadas a passar para “bater ponto” num tipo de “agenda cultural” bizarra a ser seguida.

Nesses casos, o que sobra de atenção pública e midiática – ou de “estudo”, como foi dito nessa chamada do reality show – para os filhotes de Kim pode faltar à mulher no mundo da vida. Por isso faz sentido, também, que se divida essa criação e que o homem não delegue à mulher todas as responsabilidades de parentagem. Mas vai um pouco mais além disso: que o Estado se volte às condições psicológicas, sociais e culturais da maternidade pelos aspectos que a tornam uma problemática até mesmo política. Porque também é.

Para isso inclusive se pede a aprovação do Projeto de Lei 879/11, redigido pela deputada Erika Kokay, que visa conceder direito à Licença Paternidade com duração de 30 dias úteis, licença tal que devia ser ampliada e igualada à materna porque, como foi dito pela mesma amiga minha de luta feminista, a Licença Maternidade deixaria de ser usada como desculpa das empresas para empurrar desvantagens profissionais e salariais das mulheres, não prejudicando também os pais homoafetivos. E que a gente seja educado para entender isso: que tanto a maternidade quanto a paternidade precisam ser encaradas como descobrimento. E não um projeto midiático de vida.

Preview da oitava temporada do reality show, já em andamento:

Keeping Up With The Kardashians Season 8 Preview

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#gravidez#Kardashian#midiatização da maternidade

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