Identificando os outros: midiatização, histórias de vida e cultura LGBT

27 de outubro de 2013 Processocom

Thales Pimenta

Não são poucos os filmes, telenovelas e demais produções midiáticas que trabalham o tema da diversidade de gênero e orientação sexual. Esse nicho temático passou a ser explorado em maior perspectiva política no Brasil a partir dos anos 90, com a popularização dos movimentos sociais e das instituições de combate a fenômenos sociais como a homofobia e a transfobia. De lá para cá, temos sido introduzidos à cultura LGBT pelas histórias de personagens – em sua maioria homens gays e brancos cujo gênero corresponde ao seu sexo, ou seja, homens “cissexuais” – marcados por tons de humorismo e uma extensiva pesquisa sobre os hábitos, tradições, performances linguísticas e costumes característicos de diferentes partes dessa sua cultura. Ou pelo menos tratados como “típicos” dela.

Tendo-se em mente que certa artificialidade prepondera em muitos dos personagens e narrativas dessa temática, de todo modo ainda se pode sentir, pelas próprias movimentações da opinião pública, o quanto as produções midiáticas incidem nos processos sociais de naturalização dessa diversidade. No ponto ao qual chegamos, trata-se com um pouco mais de ênfase a homossexualidade, por exemplo, e a adoção homoparental. No entanto, ainda existe uma negligência em relação a gays e lésbicas cuja performance de gênero não corresponde à dicotomia do “feminino” e do “masculino”; às mulheres e aos homens transgêneros; às lutas sociais, culturais e políticas dessa bandeira.

Essa atenção midiática à cultura LGBT, enquanto apresenta várias camadas do público à vida dos “outros” enfatizando as suas personalidades e manifestações culturais, não as explora a partir de um discurso politizador, científico e principalmente histórico que colabore com a desconstrução de boa parte do conhecimento estigmático sobre esses sujeitos. Logo, a midiatização da cultura LGBT também acaba se tornando uma forma de apontar quem são os “outros” presentes na sigla, ampliando um repertório social de enquadramentos estéticos, comportamentais, linguísticos etc. nos quais eles se encaixam e, além disso, fazendo da sua identificação um dispositivo social de controle mais e mais sofisticado.

Em outras palavras, se antes esse controle era feito pela “heteronormatividade”, que exerce uma espécie de biopoder ao determinar as identidades de gênero e os papeis sociais de gênero, principalmente no que se refere aos usos do próprio corpo, hoje as competências de identificação – como um dispositivo de controle – abrangem referências literárias, ídolos da indústria cultural, músicas, expressões idiomáticas e uma série de outras “pistas” sobre o mundo LGBT que habita cada um de nós. Nesse processo, os meios de comunicação operam como instância selecionadora de aspectos pelos quais os sujeitos aprendem a perceber esses “outros”, subsidiando a projetação de mais modelos de tutela sobre a sua identidade como modo de regular as suas sexualidades e gêneros.

Essas tutelas identitárias, como gosto de chamar, são desdobramentos das “tutelas de gênero e sexualidade” que são conduzidas em muitos cenários do cotidiano vivido: a escola, a casa, a igreja, o trabalho, a própria rua etc. As tutelas vão determinando os padrões de performance para cada gênero e sexualidade como forma de educar o corpo e projetar uma identidade, o que envolve processos de vigília e punição, para usar uma referência já conhecida do francês Michel Foucault. Para além disso, enquanto regular os gêneros e sexualidades envolve uma vigilância social da “performance” dos sujeitos, a tutela das identidades abrange tudo aquilo que deve e não deve ser expressado por eles até mesmo em sua formação cultural.

A tutela identitária vai do menino que teve seus livros e filmes da saga Crepúsculo destruídos pelo pai – no âmbito familiar – porque eles poderiam “despertar” demais sua feminilidade, às crianças e aos docentes que vigiavam as “maneiras” da estudante que foi expulsa de uma escola, há dois ou três anos, por “se comportar como uma lésbica” no âmbito escolar. Tendo esses casos em mente, a tutela identitária pode entendida como dispositivo que, embora reconheça a impossibilidade de erradicar aquilo que nos leva a ser lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, projeta-se no sentido de evitar que se fuja do heteronormatismo, que se aceite a cultura LGBT e que se eduque pensando essas múltiplas combinações de sexo, gênero e sexualidade.

Nesse sentido, inclusive, a midiatização icônica e completamente apolítica da cultura LGBT amplia as possibilidades de identificação desses “outros” representados pelas cores da bandeira e por sua sigla, fazendo-os estruturar as suas identidades de maneira que consigam evitar a punição e burlar a vigília. Isso significa para os mais tutelados, em sua maioria jovens, mudar boa parte do seu repertório de expressões idiomáticas a cada nova novela do horário nobre, esconder determinados álbuns, pôsteres, revistas e livros a cada matéria dos jornais do almoço, policiar várias linhas de raciocínio a cada sensacionalização das saídas de armário dos famosos e, até mesmo, escrever a própria história de vida – em cada cenário da mesma vida – com base nessas interações complexas, que forma uma verdadeira “epistemologia do armário”, como diria a pesquisadora Eve Sedgewick. Essa é ou certamente deveria ser uma preocupação a mais para os meios de comunicação que enquadram, humorizam e também estereotipam esses “outros” sem tanto cuidado com as vidas que os seus personagens e narrativas acabam forçando a ser periodicamente reescritas, em fuga.

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