De que território latino estamos falando?

23 de outubro de 2013 Processocom

Tabita Strassburger

No final de agosto, uma estudante de Jornalismo da Unipampa compartilhou comigo o endereço de um novo blog voltado às realidades latino-americanas. Ligado ao ClicRBS, o Território Latino é uma produção do repórter especial de Zero Hora, Léo Gerchmann.

Já nas primeiras postagens observadas, percebi que não iria encontrar a América Latina que procuro nesse tipo de produção jornalística. A acadêmica que me enviou o link também tinha essa noção, justamente por isso resolveu me mostrar e saber sobre meu posicionamento.

Não foi preciso ler muitos textos para perceber o enfoque trazido acerca de nossos países e das relações estabelecidas entre os povos. Algumas vezes, o título era suficiente para indicar os aspectos negativos da região, pontuados pelo jornalista. Para elucidar, são exemplos: “Violência se torna motivo para a censura na Venezuela”, “Sinais para a paz histórica na Colômbia”, “Colômbia x Nicarágua, nova crise latino-americana”, “Cuba registra mais prisões políticas” e, ainda, retomando a tal rivalidade entre os vizinhos, “Espionagem americana une Brasil e Argentina”.

Obviamente fiquei interessada em pesquisar o espaço, ou pelo menos escrever algum artigo analisando-o. Até o momento, não foi possível uma reflexão ampla e profunda. Todavia, busco apresentar, por meio desse texto, algumas observações que fiz em uma primeira pesquisa exploratória. O objetivo foi me aproximar do blog e apreender as características desse território latino que ali é representado.

Inicialmente, pode-se perceber que Argentina, Chile, Bolívia e Venezuela são os países que mais aparecem em número de textos. A abordagem é a da mídia hegemônica, colocando prioritariamente assuntos com teor depreciativo no que tange as nossas realidades (violência, desemprego, dificuldade em estabelecer acordos, conflitos diplomáticos, postura autoritária dos governantes, entre outros). Além disso, parece haver um agendamento dos países; Chile e Bolívia, por exemplo, apareceram devido a situações específicas – respectivamente, os 40 anos do Golpe de Estado a Salvador Allende, e o caso do senador Roger Pinto Molina que veio para o Brasil em busca de asilo.

Sabemos que a América Latina tem problemas, mas e os outros aspectos? Quais os motivos que levam as questões culturais a ficarem relegadas? Por que nossas múltiplas identidades latinas são generalizadas em míseras linhas (quando aparecem)? E a insistência em chamar americanos os estadunidenses, mesmo quando se fala em inúmeros países americanos, como é o caso do referido blog?

Considerando a produção de Território Latino, sei que há muito a ser problematizado. Não é minha intenção generalizar o espaço a partir desse texto, mas sim, pontuar alguns elementos que despertaram essas inquietações. Certamente é fundamental ampliar as reflexões, desenvolver análises que apreendam essa cobertura midiática, contextualizar o objeto em questão, buscando mais que observações e apontamentos aleatórios como esses que fiz. Contudo, entendo o início de qualquer investigação como uma aproximação inicial, acercar-se e lançar questionamentos advindos desses primeiros momentos. Também sei que muitas outras processualidades se mostram necessárias e essa é a proposta para as problematizações futuras.

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