A cultura e a necessidade de acolher as singularidades

3 de setembro de 2013 Processocom

Tamires Coêlho

Na academia há correntes de pensamento do campo comunicacional que consideram as peculiaridades e especificidades culturais de cada povo ou grupo, contextualizando os processos comunicacionais, que são inevitavelmente influenciados por esse cenário. No entanto, não faz muito tempo que os acadêmicos classificavam rigorosamente as obras e produtos culturais em cultura clássica, cultura popular e cultura de massa. Em síntese, cultura clássica era o que era “bom”, de elite, o que deveria ser apreciado por todo “bom acadêmico” porque era feita com o rigor e a técnica exigidos; enquanto cultura popular era o exótico, o diferente, uma arte pobre, sem técnica; e a cultura de massa era alienação e lixo. Com o tempo, os intelectuais passaram a incorporar e elitizar a arte popular e continuaram repudiando e odiando a cultura de massa.

Felizmente, hoje a academia está mais diversificada, há múltiplas correntes de pensamento e, apesar de ainda haver muitas portas fechadas em alguns campos, algumas janelas têm sido abertas para a produção do conhecimento incorporando objetos populares e massivos. O conhecimento e a arte populares estão, aos poucos, ganhando visibilidade e reconhecimento na academia em diversas áreas e disciplinas.

É essencial à comunicação compreender porque um fenômeno massivo teve determinada repercussão, entender como os sujeitos recebem aquele produto, como interagem e fazem uso dele, por exemplo. Também é importante aos pesquisadores de comunicação entender as raízes populares das culturas que cercam seus objetos. Muito do que é cultural pode soar “natural” e passar despercebido dos olhos do pesquisador, daí a necessidade de se distanciar até certo ponto do objeto, na tentativa de enxergar suas características.

Na música, bem como em outros tipos de arte, as produções populares ainda estão ganhando espaço midiático e acadêmico. Um exemplo disso é o documentário recém publicado no YouTube sobre a cantora e personagem folclórica piauiense Maria da Inglaterra. O vídeo foi feito como trabalho de conclusão de curso de Patrício Lima, pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), em novembro de 2012, mas só agora foi compartilhado nas redes sociais.

O filme “Maria da Inglaterra ‘Mulher Cabra-Macho’“ traz a história de vida da cantora e compositora, contada pela própria artista e por entrevistados que fazem parte da trajetória dessa personagem popular e ainda desconhecida por muitos no Nordeste e no Brasil. Maria da Inglaterra fala do início de sua carreira, rodeada de misticismo, e de como não se sente reconhecida enquanto artista popular no Piauí. Os entrevistados trazem informações e elementos que reafirmam a cantora como figura folclórica e singularidade da cultura teresinense, bem como salientam a dificuldade de ascensão dos artistas populares na região.

Você pode conferir o documentário aqui.

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