A fronteira que temos e a integração que queremos

19 de agosto de 2013 Processocom

Tabita Strassburger

Em 18 de junho, fez um ano que estou morando em São Borja, fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul. O primeiro dia de outubro marca minha entrada em sala de aula como professora da Universidade Federal do Pampa, a Unipampa. As experiências têm sido de muita intensidade, mas nesse momento quero enfatizar duas especificamente. Uma diz respeito à disciplina Comunicação, Fronteira e Identidade, que ministrei no semestre passado. A outra se refere a um fato que vivenciei em aula, na semana que passou. Ambas dizem respeito ao título desse texto.

“A fronteira que temos” apareceu nas duas situações que vivenciei. Já “a integração que queremos” ficou restrita à primeira situação. Explico.

Durante a referida disciplina, os estudantes se mostraram muito receptivos às problematizações acerca das realidades fronteiriças e da construção das representações que são feitas pela mídia sobre essas regiões – prioritariamente, com sentido depreciativo. No primeiro dia de aula, assinalaram em um papel cinco palavras que vinham à cabeça quando pensavam em “fronteira”. Entre outras, tráfico e contrabando apareceram várias vezes. Assim também, cassino e sorvete, demonstrando as vivências que se efetivam na cidade vizinha, Santo Tomé. Foi bastante gratificante quando, ao término do semestre, os acadêmicos explicitaram as modificações em seus pensamentos sobre tais contextos (em uma perspectiva mais ampla, tornou-se brincadeira o medo que sentiam de falar “americano” em vez de o termo “estadunidense”, ao fazerem referências ao país).

Por outro lado, na última quinta-feira, presenciei duas falas que me entristeceram e preocuparam. Uma reproduzia o discurso de que os argentinos são encrenqueiros, arrogantes e violentos, generalizando acontecimentos, como quebra-quebra em jogos de futebol, e repetindo estereótipos arraigados nas mentes de muitas pessoas. A outra, em tom pejorativo, relatava que Itaqui, apesar de também ser fronteira, é uma cidade melhor, pela distância do país vizinho, e explicava o desgosto de morar em São Borja, pois, ao estar na cidade, parece que já se está na Argentina. As duas falas foram seguidas da tentativa de explicar que generalizações são perigosas e que devemos estar abertos a conhecer as realidades para além desses preconceitos.

Os dias seguintes têm sido de cuidadosa reflexão acerca do nosso papel enquanto sujeitos comunicantes, não apenas no âmbito universitário, mas nas demais instâncias da sociedade. Apesar do encantamento com o cenário fronteiriço e suas inúmeras possibilidades, sabemos que diferentes posicionamentos permeiam as representações que circulam no âmbito social no que se refere a tais questões. Essa é a fronteira que temos, marcada também por contradições, aversão e proximidade.

Contudo, tenho me perguntado: de que modo podemos efetivar nossas pesquisas, ampliando horizontes restritos como esses? Como modificar visões construídas há décadas por empresas midiáticas que insistem em ignorar o projeto de união latino-americana? Sabemos que não existem receitas. Porém, é provável que o percurso mais indicado seja o da problematização e do diálogo constantes, além, é claro, de medidas regulamentares, como a democratização dos meios de comunicação, permitindo a ampliação das vozes e das perspectivas de discussão. Ainda há muito a fazer, mas apenas por meio de esforços conjuntos podemos concretizar a integração que realmente queremos, aquela que nos motiva a pesquisar sempre mais e de novo.

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