Memória histórica e experiências de cidadania comunicativa: onde está Amarildo?

26 de julho de 2013 Processocom

Thales Pimenta

Não parecem vingar as primeiras tentativas midiáticas de transformação dos protestos ocorridos nos últimos meses por todo o Brasil em um assunto encerrado, uma vez que a estrutura dos novos movimentos sociais, cada vez mais descentralizados e múltiplos em suas propostas políticas, instaura temporalidades e regimes de visibilidade cuja potência está mais paralela que dependente em relação àquela dos meios de comunicação tradicionais: isso aponta, em outras palavras, um cenário midiatizado no qual a rua como um espaço público emblemático para a América Latina produz ecos que ressoam pelo ambiente digital e retornam, fazendo idas e vindas prolongadas que avolumam esses discursos, em vez de desgastá-los.

Enquanto o tempo narrativo criado pela TV investe numa conformação sequencial dos fatos, resultando em efeitos de visibilidade que inevitavelmente organizam dados e acabam por enquadrar, de fato, os acontecimentos desse protesto multissituado, os relatos e vídeos divulgados em páginas e perfis das mídias digitais – entre elas o Facebook – recuperam o caos da rua, conectam fatos misteriosamente dispersos pelo tempo narrativo hegemônico e levantam, por consequência, outras discussões políticas. Nesse sentido, o aprendizado político que os protestos legaram não ficou para o futuro, como alguns jornalistas apontam, e nem para discussões ou manifestações do mesmo tipo.

Os processos comunicacionais dessa multidão, por terem sido acionados a partir de um modelo específico de pauta pelo qual são discutidas problemáticas contemporâneas e soluções para as suas consequências na vida cotidiana, ainda assim se espalham para outras modalidades de discussão política, levando os sujeitos – pela sua partilha de sentimentos cívicos – a um resgate em rede de discussões até mesmo históricas sobre acontecimentos bastante recentes – entre eles as demandas de uma desmilitarização da polícia brasileira e também os desaparecimentos políticos decorrentes disso.

Mas entendamos o termo: na maior parte dos países, desaparecimentos políticos são tratados por convenção política internacional como delitos contra a humanidade, tendo-se como referência histórica, na perspectiva das experiências políticas latino-americanas, o terrorismo estatal praticado, por exemplo, no Brasil, no Chile e na Argentina. Trazer esse termo para nossa realidade democrática, de todo modo, não incorre em uma falha lógica. Ao contrário, todo desaparecimento será político uma vez que se der num contexto de disputas entre o poder repressivo e alguns setores da população no que tange à sua situação social e política em relação ao resto da sociedade.

Trazendo isso ainda mais para a nossa realidade, podemos entender essa multidão que pergunta por Amarildo – pedreiro morador da favela carioca da Rocinha que, durante operação policial pacificadora do dia 14 de julho, foi supostamente confundido e levado para verificação sem nunca mais ter retornado. Por esse acontecimento, uma série de reconfigurações políticas que vinham sendo colocadas em prática nas ruas – misturando sujeitos, ideias e sentimentos – começam a se mostrar de outro modo: essa mobilização coletiva em torno do paradeiro de Amarildo, que chegou a uma instância internacional, recoloca em cena o cidadão anônimo como sujeito de direitos, trazendo à tona, também, memórias históricas sobre contextos similares e não muito distantes de violação sistemática dos direitos humanos.

Nessa rede, sujeitos apresentam uma cidadania comunicativa por desenvolverem e colocarem em prática uma série de competências comunicacionais e midiáticas voltadas para uma política coletiva de visibilização das suas demandas de justiça, direitos, verdade e memória. Integrando essa multidão em cibridismo, que não está ora on-line, ora off-line, mas vivendo ambos os lugares como um só, Lucas Pedretti lança uma das centenas de chamadas à reflexão coletiva – verdadeiras fagulhas que servem de pistas para entendermos mais sobre essa efervescência política brasileira:

Esse ano faz 45 anos do AI-5.

Hoje faz 20 anos da Chacina da Candelária.

Hoje faz dez dias do sumiço de Amarildo.

Amanhã faz um mês da Chacina da Maré.

Amanhã faz uma semana do fogo nos manequins.

Só para os manequins houve flores.

Só para os manequins houve choro.

Só para os manequins haverá investigação.

A ditadura é dura e ainda há quem diga aos brados que ela é branda.

Os corpos que somem se somam aos corpos cuja soma nem se sabe.

Quem tenta gritar corre o risco da luta terminar em luto.

Há quem diga, quem finja e quem ache que tá tudo bem.

Mas há ninjas gritando e dizendo que não é bem assim.

Será que saberíamos onde está Amarildo se ele fosse um manequim?

A partilha de conteúdos como esses é enorme, sendo acompanhada de discussões e debates sobre o horizonte histórico de instituições como a polícia militar enquanto campos sociais que reproduzem, de outras maneiras, o terrorismo estatal praticado há muitos anos. Em relação a isso, os vídeos e relatos que formam uma constelação de denúncias vão iluminando, também, uma realidade contemporânea na qual esse fascismo político é descentralizado e, para entendê-lo, essa prática política da multidão em rede também precisa acompanhar os seus movimentos, sendo tão acêntrica quanto. De fato, como o cenário já nos permitia dizer, algo de novo aconteceu. E a história de Amarildo continua a circular por todos os espaços.

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