O bairrismo que a mídia cria

12 de julho de 2013 Processocom

Rafael Tourinho Raymundo

Sou gaúcho e adoro minha terra, mas reconheço que o povo do meu estado preserva um bairrismo que beira o irracional. Rio Grande melhor em tudo? Não, segundo as estatísticas de desenvolvimento econômico e social. No entanto, penso que esse apego às tradições tem razões de ser. Tento levantar algumas a seguir.

Primeiro, há a distância geográfica. Estamos no extremo sul do Brasil – bem longe do centro do país, onde se concentram os poderes políticos, as grandes empresas e os conglomerados midiáticos de maior importância. Esse isolamento, somado às explicações históricas de migrações e misturas de povos, faz com que tenhamos uma cultura bastante própria. O mesmo acontece em estados do Nordeste, ou nos confins da Amazônia. São, de fato, muitos Brasis.

Depois, há a ignorância geográfica. Neste ponto, não me refiro aos gaúchos, mas aos habitantes do centro do país. Quem mora em São Paulo ou no Rio de Janeiro está no meio de tudo. Os festivais musicais, as peças de teatro, as grandes corporações e suas oportunidades de emprego: tudo passa pelo eixo Rio-São Paulo, tudo se concentra lá. Até mesmo para um jornalista, como eu, as maiores chances de crescer na carreira estão no Sudeste. Assim, é natural que o resto do país olhe para dentro desta região, ao passo que quem já está lá dentro não precisa olhar para fora.

Sim, é uma generalização, não me levem ao pé da letra. Ainda assim, soa apenas lógico. Se você vive num lugar onde tudo acontece, não tem por que se interessar pelo que ocorre para além das fronteiras. Sem interesse em conhecer as demais regiões do próprio país, é natural criar uma ideia estereotípica do baiano, do paraense, do gaúcho.

A grande mídia contribui sobremaneira para a solidificação deste pensamento ignorante. Nunca vi um personagem gaúcho de novela que não falasse com sotaque caricato, carregado demais, usando “tchê” e “tri legal” como se fossem vírgulas. Nordeste, então, nem se fala. Nem parece que existem nove estados. Todos falam com o mesmo acento, algo que não é nem pernambucano, nem baiano, nem alagoano, nem nada.

Dia desses assisti à chamada do Esquenta, programa anunciado como vitrine das culturas periféricas de todo o país. Dizia Regina Casé: “o Brasil inteiro se encontra no Esquenta”. Na sequência, emendou a lista de atrações: artistas do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Pará (que um amigo meu diria ser o representante da Amazônia genérica). Nenhuma menção a Rondônia, Piauí, Santa Catarina, Espírito Santo. Ora, esse “Brasil inteiro” soa-me mais como bairrismo do eixo Rio-São Paulo, ainda que os olhos tenham ido do asfalto para o morro.

Sendo assim, é natural que os gaúchos sejam bairristas. Não somos representados pela mídia brasileira. Claro, os veículos locais se aproveitam disso; tentam incutir um orgulho gaúcho que chega ao extremo oposto. Sempre lembro duma manchete sobre o “drama dos gaúchos que sobreviveram ao naufrágio do Costa Concordia”, como se eles fossem mais importantes que os outros passageiros a bordo. Não é à toa a existência de páginas satíricas como O Bairrista.

Sou gaúcho e adoro minha terra. Além disso, também sou filho de baiana, tenho muitos amigos em São Paulo e pretendo conhecer todas as capitais do Brasil. Penso que olhar para os outros pontos do país é essencial para dissolvermos estas ilhas culturais que nós mesmos criamos. Não é questão de negar as origens ou de não ter orgulho do próprio estado. É questão de compreender melhor a nação como um todo. Pena que a grande mídia não se esforce para isso.

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