A Participação na Era Digital sob uma Perspectiva Crítica

9 de Abril de 2013 Processocom

Tamires Coelho

Nesta segunda-feira (08/04), o professor e pesquisador franco canadense Serge Proulx esteve na Unisinos para proferir a aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCC). A aula ocorreu às 17h, no Miniauditório da área de Ciências da Comunicação da universidade e contou com a presença de quase todos os professores do PPGCC, além de pós-graduandos. Entre eles, estavam cinco membros do Processocom: Alberto Efendy Maldonado, Alberto Pereira Valarezo, Jiani Bonin, Rafael Foletto e Tamires Coelho.

Prouxl, que é integrante da École des médias, Université du Québec à Montréal  (Canadá), e que também está relacionado à Escola de Altos Estudos/CAPES, fez uma exposição intitulada Participar da era digital: um poder de ação frágil e paradoxal, com os objetivos de criticar o que se tornou hoje o projeto da sociedade em rede, de identificar o que ele chama de “solucionismo tecnológico” e de mostrar como a força de ação dos sujeitos do capitalismo cognitivo é frágil e paradoxal.

O pesquisador franco canadense não se propôs a realizar uma crítica à ideia de sociedade em rede disseminada por Manuel Castells, mas sim ao que se tornou essa imagem da sociedade em rede nos dias atuais. “Se diz que descentralização é melhor que centralização, que colaboração é melhor que competição, que horizontalidade é melhor que verticalidade. Essa rede constitui hoje um modelo social e político que está na base das organizações”, ressaltou.

Outro ponto interessante da palestra foi a apresentação do conceito de “Internetcentrismo”, a partir do qual existiria uma cultura da internet única e coerente, que estaria no fundamento de um novo paradigma para pensar o sistema político, o sistema escolar ou o mundo urbano. Serge Prouxl defende que os “gigantes da internet” controlam as plataformas virtuais através dos algoritmos e que a descentralização seria uma ilusão, posto que “as práticas descentralizadas existem, mas há, em última instância, uma centralização imposta pelos gigantes da internet (empresas captadoras de dados  e proprietárias das plataformas)”.

O professor argumentou que a intervenção para modificação de conteúdo na Wikipédia, por exemplo, não é automática. Isso se dá porque a crença nas abolições das hierarquias na sociedade em rede seria fruto de uma mitificação e a ideologia da abertura se insere em relações de poder. Enquanto a internet se torna o modelo para se pensar o restante do mundo, inclusive o funcionamento das instituições e organizações, Prouxl explica que o “digitalismo seria uma ideologia ingênua ancorada em um determinismo técnico”.

O “solucionismo tecnológico” ao qual o professor se referiu durante a aula, seria um modelo de sociedade em que a tecnologia parece solucionar tudo e no qual vidas concretas dos seres humanos são completamente racionais e coerentes. Para ele, máquinas (computadores) não tomam necessariamente as melhores decisões, mas eliminam tempo humano de deliberação e reflexão para tomar decisões certas.

Prouxl também falou acerca da obsessão pela autoapresentação, da injunção ao marketing pessoal e da “audienciação” de si – de forma que o Facebook e outras redes sociais fariam os sujeitos buscarem audiências e públicos sob medida: os ditos amigos. Nesse processo, no regime do instante, da comunicação instantânea, os sujeitos estariam perdendo a oportunidade de voltarem-se aos processos mais profundos da comunicação inter-geracional.

No final da aula, o pesquisador focou nas transformações em torno da ideia de contribuição. Na Web 2.0, baseada em criação/geração de conteúdo pelos usuários, os sujeitos aceitam cooperar e difundir seus conhecimentos sem esperar contrapartida, sem esperar retorno econômico monetário. Prouxl citou o exemplo do “software livre”, no qual os desenvolvedores não recebem retribuição, já que a ideia é dar acesso ao código informático. O site Wikipédia também seria outra forma de contribuição. “O que motiva as pessoas a contribuir? Está fora do campo do interesse econômico. Pode ter a motivação de aquisição de competências, pode estar ligado ao prazer de criação de um bem coletivo ou comum, ao prazer da qualidade da participação, de fazer-se reconhecer pelos pares”.

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