A comunicação vai para a escola

19 de Março de 2012 Processocom

por Joel Felipe Guindani*

Este ensaio problematiza a relação comunicação e educação. Relata a experiência de comunicação protagonizada por alunos e professores da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Nova Sociedade, localizada em um assentamento rural, no interior do Rio Grande do Sul.
Grande parte das correntes teóricas que iluminam as práticas de jornalistas, educadores e de pesquisadores – sejam da educação, comunicação ou da sociologia – apresentam a “comunicação e sociedade” de modo pouco convergente. Alguns inovam nos conceitos e nas expressões, mas continuam a realçar as disjunções em detrimento da inter-relação pedagógica via processos participativos, como também de poder, hegemonia, negociação e de disputa.

A dicotomia é ainda mais explícita quando observamos as diversas reflexões sobre os conteúdos midiáticos produzidos pelos “grandes grupos de comunicação”. Para os apocalípticos, é consenso que a mídia – enquanto dispositivo tecnológico ou conteúdo – paira em um plano metasocial; um epifenômeno solto e intacto de qualquer intervenção, investimento, estratégia ou de prática pedagógica. Esta perspectiva, excessivamente separatista, beira dois extremos que se tocam, pois produzem problemas semelhantes:
primeiro, a anulação crítica da constituição histórica dos monopólios midiáticos sob a lógica da dominação e do silenciamento social – já que a mídia é o resultado de uma elite que “faz bem a mídia”, pois oferta o que o telespectador deseja; e, em segundo, o apagamento das possibilidades de engajamento pelos próprios atores sociais sobre esta mesma lógica – já que as tecnologias apenas distanciam; a mídia é o príncipe eletrônico, o quarto poder, um grupo capitalista intocável.

Potencial transformador

Alimenta-se, assim, um movimento autopoiético que desestimula práticas pedagógicas, bem como as possíveis ações pedagógicas e sociais transformadoras com e sobre a própria mídia. Assim, não apenas alguns jornalistas e professores, como o próprio imaginário social se fragilizam mediante a avalanche tecnológica. Em outras palavras, mesmo com tantas tecnologias de uso individual, pouco se avança para a prática comunicacional pedagógica, a qual é a única capaz de alterar para o “agir” todas aquelas práticas, discursos e sentidos do “sofrer” a mídia.

Portanto, repensar a comunicação é desconstruir este viés por demais negativista e propor uma nova abordagem sócio-pedagógica para a própria comunicação. Segundo a professora Lúcia Santaela – em seu livro Por que as comunicações e as artes estão convergindo? –, é preciso tomar consciência de que “os meios de comunicação são inseparáveis do nível de desenvolvimento das forças produtivas de uma dada sociedade, de modo que eles estão sempre inextrincavelmente atados ao modo de produção econômico-político-social”.
Adiante, a autora enfatiza que esta perspectiva estruturante também está integrada na histórica e indissolúvel relação “comunicação e processos de aprendizagem”. Ou seja, os atos individuais, como as ações sociais coletivas estão inseridas em agrupamentos, instituições, campos sociais, os quais funcionam como espaços de produção de saber, de reconhecimento, de visibilidade social, os quais são responsáveis pela transformação das próprias estruturas.

Neste cenário, o campo escolar se apresenta como potencial transformador do próprio campo comunicacional e vice-versa. É preciso, então, encarar as inúmeras e criativas práticas pedagógicas como dinamizadoras do conhecimento, agora, mais do que nunca, integradas às novas tecnologias comunicacionais.

O ato de “dizer a palavra”

É nesta consciência que a comunidade educativa da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Nova Sociedade se apresenta como espaço visível de protagonismo comunicacional, de professores e de educandos. Localizada em assentamentos rurais, no município de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre (RS), a Escola Nova Sociedade realiza, desde 2009, oficinas de comunicação, como: análise da mídia, rádio-escola, audiovisual, jornal impresso e blog (www.radionovasociedade.blogspot.com).

Além da prática, as forças que sustentam a continuidade dessas ações são a sistematização e o registro, bem como os encontros de discussão entre professores e alunos. É perceptível, nos depoimentos dos envolvidos com o projeto, a revalorização das práticas e do consumo comunicacional. Ao final das atividades, os participantes ressaltam que a atuação nesse espaço desconstrói a velha posição defensiva de sujeitos meramente receptores ou consumidores e os lança para uma outra dimensão: a de criadores e propositores, capazes de modificar, desde o ambiente escolar, as próprias políticas comunicacionais e educacionais que os constituem. Para Maiara, aluna do quarto ano do ensino fundamental, “fazer comunicação é mais animado do que só assistir televisão. Se eu ficasse em casa estaria até dormindo na frente da televisão. Aqui eu posso fazer vídeo sobre as coisas da aula e depois assistir na internet”, afirma.

Seja ela popular, alternativa ou comunitária, a comunicação quando vai para a escola renova-se e instiga outras práticas pedagógicas participativas, tecnologicamente prazerosas, engajadas e libertadoras. Com isso, abre-se uma nova porta reflexiva, que nos permite, inclusive, repensar a atualidade de Paulo Freire – nosso primeiro teórico da comunicação e da educação –, sobretudo neste tempo de convergência tecnológica, de multimídia, as quais potencializam novos canais para o indispensável ato de “dizer a palavra”.

 

*Joel Felipe Guindani é radialista e doutorando em Comunicação e Informação na UFRGS

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