O jornalista como o hermeneuta da realidade

7 de dezembro de 2011 Processocom

por Joel Felipe Guindani e Éderson Silva

O filósofo alemão Hans Gadamer sintetiza a experiência da comunicação à fusão de horizontes. A partir do horizonte do outro, ou seja, a partir da realidade do outro, acontece um encontro onde a comunicação gera a fusão de conhecimentos entre sujeitos que antes permaneciam distantes. Por exemplo, uma favela e um bairro de alta classe média por meio do jornalismo se encontram e se fundem, mesmo que pela lógica do medo, da tensão ou da repulsa. A tomada de conhecimento do outro possibilita a compreensão da realidade social, da aproximação ou do estranhamento, bem como das formas de poder e de intervenção sobre os fatos.

Na experiência comunicativa com o outro, multiplicam-se e ampliam-se os conhecimentos, pois toda a aproximação ocorrida entre sujeitos possibilita novos modos de pensar, de agir e de se relacionar.

Assim, a comunicação que aproxima o sujeito do outro, ou de alguma realidade até então distante, poderá elevá-lo a um outro nível de consciência ou para uma visão de mundo mais ampla e mais profunda. O autor Albert Camus ilustra bem esta situação com os personagens Jacques e Pierre:

“Apenas a escola dava a Jacques e a Pierre essa alegria. E, sem dúvida, aquilo que amavam tão apaixonadamente nela era o que não encontravam em suas casas, onde a pobreza e a ignorância tornavam a vida mais dura, mais morna, como que fechada em si mesma; a miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça.”

A capacidade de se situar no horizonte do outro

Segundo Hans Gadamer e Friedrich Schleiermachaer, “mediante a compreensão do horizonte do outro pode-se aumentar e expandir o próprio horizonte e, assim, realizar uma fusão de horizontes”. No campo da comunicação jornalística – como em outras áreas sociais, como a literatura, o cinema, o teatro –, acontece esta possível fusão entre emissor e receptor. Neste cenário, o conceito de Gadamer conduz ao pensamento de que devo colocar-me no mundo do outro para compreendê-lo ou para revelá-lo.

O pesquisador e jornalista Pedro Gilberto Gomes, no livro Filosofia e Ética da Comunicação na Midiatização da Sociedade, afirma: “O profissional da comunicação é, de uma certa maneira, o hermeneuta da realidade. Portanto, o sucesso de seu trabalho depende, fundamentalmente, da capacidade que ele tiver para situar-se no horizonte do outro, tanto para compreendê-lo como para descrever e transmitir-lhe a sua mensagem.” O jornalista é um hermeneuta: ele observa, interpreta, traduz o conhecimento complexo e o transforma em informação acessível ao leitor, telespectador ou ouvinte. Essa relação, quando não realizada de modo rápido ou superficial, enriquece a vida dos sujeitos e aprimoraa comunicação.

Exclusão econômica e intolerância

Mesmo que o jornalismo se configure como um campo de tensões resultantes da competição pela compra e venda da notícia, não podemos desconsiderá-lo como um produto da realidade social, que auxilia as pessoas mediante as necessidades cotidianas, que capta a realidade a partir de um ponto de vista e que facilita a transmissão de informações, bem como a produção de conhecimento. Ou seja, as possibilidades de intervenção social ativadas pelo jornalismo são variadas e múltiplas.

Investigar, revelar os acontecimentos e aproximar o que estava distante é um dos fatores primordiais da ação jornalística. É também por este caminho que o ser humano vê o seu semelhante através do jornalismo. A partir da informação e da comunicação, o que se encontrava isolado agora se encontra com outras pessoas e experimenta a existência de um mundo vivido cada vez mais de modo comum. Ao enxergar o outro fazendo parte de um grande conjunto chamado sociedade, potencializa-se a união dos laços humanos.

No entanto, o mundo contemporâneo, cada vez mais possível de ser reconhecido de modo global ou comum, ainda é cenário da exclusão econômica e da intolerância religiosa e cultural: caberia ao jornalismo intervir nesta situação? Seria ele capaz de fazer a mediação ou ser ponte de acesso aos espaços de poder para os menos favorecidos?

Do outro lado das pautas

O jornalismo é fundamental para a conquista da cidadania devido à sua possibilidade de revelar à sociedade o que é do interesse comum. No campo da comunicação, a cidadania pode ser exercida e construída, pois ser cidadão significa constituir-se como parte tecido social, construir e usufruir dos direitos e deveres, sobretudo os da comunicação.

A competência de dizer a palavra e argumentar publicamente representa um poder no mundo contemporâneo. Esta consciência cidadã pode ser considerada fruto de um progresso social e humano no decorrer de um processo pedagógico-comunicativo. Com Paulo Freire descobrimos que a comunicação e a educação são indissociáveis para a obtenção de direitos ou da tão almejada justiça social. Assim, o processo educativo é possível apenas através comunicação, e vice-versa, como na possibilidade de ler e descrever o mundo, de argumentar e de reclamar por direitos.

O diálogo com o outro proporciona uma ampliação do horizonte comunicativo, que vai além da relação emissor/receptor. Assim, o agir comunicativo, como o debate interpessoal e público conforme debatido por Habermas, passa a ser uma ferramenta essencial para a qualificação dos direitos e da vida em sociedade.

Neste horizonte, o jornalista enquanto hermeneuta da realidade ocupa, de modo crescente, a dianteira da produção e da difusão informacional, que aproxima, constrói, revela a realidade e orienta valores. Para tanto, necessitaria a prática jornalística ampliar os espaços para aquelas vozes que estão do outro lado das pautas tradicionalmente estabelecidas, as quais, na maioria das vezes, são guiadas por políticas editoriais nada democráticas ou pouco comprometidas com a cidadania ou com a justiça social.

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Joel Felipe Guindani e Éderson Silva são, respectivamente, radialista e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e graduando em Comunicação Social – Jornalismo na Unisinos.

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