A conjuntura pensada

2 de dezembro de 2011 Processocom

”O consenso absoluto é uma utopia reacionária”

A crise global do capitalismo, a rebelião europeia dos indignados e os novos horizontes abertos na América Latina foram alguns dos temas abordados pelos intelectuais convidados para o ciclo de Debates y Combates, que conclui hoje, em Buenos Aires. Um diálogo com Laclau, Toni Negri, Coscia, Revel, Alemán, Marramao, Šumic e Tarizzo.

A reportagem é de Werner Pertot, publicada no jornal Página/12, 04-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A conversa passa do espanhol ao italiano, do inglês ao francês com a mesma facilidade. Ao redor da mesa, estão o filósofo político Ernesto Laclau; o pensador italiano Toni Negri – autor de Império junto com Michael Hardt –; o secretário de Cultura, Jorge Coscia; a filósofa francesa Judith Revel; o psicanalista e escritor argentino Jorge Alemán; o filósofo político italiano Giacomo Marramao; a psicanalista eslovena Jelica Šumic; e Davide Tarizzo, professor de filosofia política da Universidade de Nápoles.

Em diálogo com o jornal Página/12, os intelectuais debateram a crise internacional, o movimento dos indignados na Espanha, o kirchnerismo e os governos da América Latina.

Uma generosa picada permanece quase intacta na mesa do restaurante que mostra uma vista panorâmica de Buenos Aires. Os europeus olham e comentam, mas não são turistas: são intelectuais pós-marxistas que vieram como parte do ciclo de palestras Debates y Combates, organizado pela Secretaria de Cultura da Nação.

O primeiro debate na mesa babélica foi pelo idioma. “Eu posso repetir o que você diz em inglês”, disse Coscia, em inglês. “Você é um colonizado”,  disse Marramao em francês. “Posso tentar o cocoliche [espanhol falado por imigrantes italianos]”, retrucou Coscia, que disse a Šumic: “Esloveno je ne parle pas”. “Há outros milhões que não falam”, respondeu ela, também em francês. A filósofa eslovena tinha em seu casaco um broche de Evita. Finalmente, Coscia continuou em espanhol.

“Não estamos aqui para uma reflexão meramente acadêmica, mas a convocatória tem fundamentalmente o sentido dessa relação entre ideia e ação ao serviço da transformação, da emancipação, das ideias de liberdade, de igualdade, de justiça social”, propôs o secretário de Cultura. “Todos nós que estamos aqui reivindicamos os conflitos e entendemos que o consenso absoluto não é nem mais nem menos do que uma utopia reacionária. O debate é uma ferramenta para o combate contra essa utopia reacionária”, definiu Coscia.

Laclau comentou a apresentação de sua revista, que leva o mesmo nome do ciclo e que busca “ser para o mundo hispano-americano o que a New Left Review é para o mundo anglossaxão”. “A América Latina está em processo de mudança. Na Argentina, ocorreram cortes muito importantes com o passado. Em termos de direitos humanos, foi o país que rompeu mais claramente com o passado ditatorial. Do ponto de vista dos modelos econômicos, a Argentina rompeu com o FMI e iniciou um modelo econômico de produção para o mercado interno e de diversificação do sistema industrial, tudo isso com uma regulação estatal e com uma participação das bases políticas”, comentou o autor de La razón populista.

“A partir da crise de 2001 na Argentina, viveu-se uma enorme expansão horizontal da crise social (as fábricas recuperadas, os piqueteiros). Com a ascensão kirchnerismo ao poder, o que se deu foi a articulação dessa expansão horizontal, com uma influência vertical desses novos grupos no sistema político. O resultado foi que, hoje, a Argentina é uma sociedade muito mais democrática do que era há dez anos”, estimou Laclau.

Ele lembrou que, em 1949, Jorge Abelardo Ramos – de quem ele foi companheiro de militância – escreveu América Latina, un país. “Nesse momento, parecia uma utopia. E hoje essa utopia está se tornando realidade”. Ele propôs como ponto-chave a cúpula de Mar del Plata em 2005, onde a Alca fracassou. “O avanço é, até certo ponto, irreversível. Nas eleições, o triunfo do progressismo foi esmagador. Vamos ter um Congresso em que as forças conservadoras estão reduzidas ao mínimo, e vai ser possível levar adiante uma tentativa de democratização do sistema”.

Toni Negri marcou o primeiro contraponto, em função da cúpula de 2005. “Eu fui a Mar del Plata, quando a cúpula ocorreu. Eu não estava do lado de Maradona e de Chávez. Eu estava com o Lula. Com efeito, eu pensava que a Argentina e o Brasil eram fundamentais na construção de um polo continental que pudesse romper a globalização imperial. Isso, creio eu, é algo que foi obtido”, afirmou o autor de Multidão. “O que me interessa pessoalmente, e a alguns companheiros, é a relação governo-movimentos sociais. Nos Estados Unidos, Obama era um produto real de um movimento. Chegou ao governo e se separou da sua relação com o movimento”, advertiu.

Do lado de lá

“Gostaria de perguntar a vocês, professores europeus, se vocês veem dentro do horizonte europeu a possibilidade de uma invenção política nova, que consiga atravessar o marco do neoliberalismo parlamentar que domina a Europa. A Europa é capaz de gerar uma invenção política ou a Europa já é a história que se remete a si mesma?”, perguntou Alemán, que também é adido cultural da embaixada argentina na Espanha.

Negri – Que intelectual ou político europeu não pensou que a Europa estava acabada? Todos nós pensamos nisso. Desde Nietzsche em diante, não fizemos outra coisa do que girar em torno dessa questão. Mas o fato é que a Europa atualmente produz os indignados, produz os movimentos de trabalhadores precários na Itália. É claro que a crise europeia deve cortar com um modo de governo. Os governos europeus são os governos do capital. Não tenho muita esperança na social-democracia, porque ela está totalmente absorvida pelo modelo constitucional liberal. Ou se muda a constituição da Europa, ou a esquerda não existe mais. Ou melhor: existirá simplesmente como movimentos insurrecionais. Os indignados espanhóis são um movimento que deverá ser estudado de maneira profundida. Um movimento que não supõe o problema do governo, mas sim o da participação.

Giacomo Marramao – Toni levanta a questão de uma dinâmica nova entre o governo e os movimentos. Mas não há uma crise da representação como nós conhecíamos no século XX. É outra problemática. Os movimentos dos indignados são movimentos transversais, são espontâneos. Por outro lado, o modelo de sociedade está dividido entre duas opções globais. A opção norte-americana, que mantém o próprio Obama em uma prisão simbólica, é um modelo de competição individualista. Ou senão o modelo anti-individualista, comunitário, hiperprodutivista asiático e hierárquico da China. Esses dois modelos são, penso eu, a polarização de uma impotência do capital global nestes momentos. Por isso, eu acredito que a Europa e a América Latina têm a possibilidade de produzir um modelo diferente, novo, que não é a terceira via. De terceiras vias, os cemitérios do século XX estão repletos.

Jelica Šumic – A dificuldade é a de transferir experiências da América Latina para a Europa. O que requer um esforço intelectual é, sem que seja possível transpor essas experiências na América Latina, no entanto, extrair algumas consequências para entender a nossa situação na Europa: a apatia, a resignação, a falta de imaginação.

Davide Tarizzo – A experiência na Europa mostra que ela não foi concebida a partir de uma arquitetura política. A lição europeia é clara: não é a partir do Mercosul que se constrói a integração, mas sim de outro tipo de projetos, de debates, que podem ajudar a imaginar.

Judith Revel – A gravidade da crise na Europa também parte da incapacidade da esquerda europeia de proporcionar soluções, um discurso que não seja um retorno ao mesmo: pensa-se em retornar ao protecionismo, a uma definição dura da cidadania, prefere-se o retorno a um “bom” capitalismo, “voltemos às fábricas”, porque a fábrica nos salva da Bolsa. Todas essas falsas soluções estão construindo o fim do discurso da esquerda e foram rejeitadas pelo movimento dos indignados. Eles não só não podem ser representados, mas também não lhes interessa a representação no Congresso. Esse movimento rejeita o governo e a representação moderna, mas reflete em si como se deve governar, ele constrói autogoverno, constrói instituições novas.

Alemán – O movimento 15-M se expande transversalmente sem se referir a nenhum tipo de centralidade. Para que essa condição se cumpra é necessária uma certa des-historização. É paradigmático que, quando estávamos na Puerta del Sol e apareceu a bandeira republicana – bandeira excluída na história da Espanha – as pessoas assobiaram. Onde eu acho que há um déficit político é no fato de que a América Latina não lhes interessa. Privilegiou-se o momento da desidentificação, onde os teóricos são Badiou, como a política que se autoriza por si mesma, ou a referência à tradição deleuziana, como uma imanência rizomática.

Negri – Além do fato da bandeira republicana – retiraram todas as bandeiras da praça –, tenho a convicção de que o problema da transição na Espanha começa a ser resolvido hoje, com os indignados. Algo que aqui se viveu com o processo contra os militares da ditadura, na Espanha, não foi visto. E eles estão vivendo isso hoje. Essa é a presença do 1936 no movimento dos indignados. É uma presença muito profunda. É um problema geral na Europa. Nunca houve a transição, nem na Itália, nem na Espanha, nem nos países do Leste. O problema da transição é um dos grandes problemas.

Do lado de cá

“Gostaria de levá-los a discutir um processo de identificação, o das multidões que foram ao funeral de Néstor Kirchner e a vitória eleitoral do CFK recentemente. Que papel têm os jovens?”, perguntou o Página/12.

Laclau – Ao contrário do que Alemán diz na Espanha, na Argentina eu encontrei um grau de identificação política que eu não lembrava desde os anos 1970. Parece que estou de volta ao início dos anos 1970. O setentismo sem militarismo está dominando. É um enorme passo à frente.

Negri – Na Europa, se fala de um novo bloco da transição, um bloco geracional. A crise do 1968 na Europa foi bloqueada pela repressão ou se deu a reconstrução de uma fórmula interna: os Verdes na Alemanha, a reforma universitária na França. Um setor substancial dos movimentos rompeu com um certo meio intelectual – que constituía a nova linha da produção – e os banlieue [a periferia parisiense], a imigração, os pobres. A pobreza na Europa provavelmente não tem a dimensão que tem na América Latina, mas é muito dramática. Porque significa imigração e o problema da cidadania. A comunicação é o novo modo de estar junto dos jovens. A revolução tecnológica na Europa é fundamental. Desde os anos 1970, os jovens na Europa são diferentes dos pais, a partir da difusão do trabalho precário, que não só propõe formas de empobrecimento, mas também formas de comunicação e de constituição comum da capacidade produtiva, que representa o momento central das contradições. Hoje, as contradições estão na estrutura econômica e financeira, porque não necessariamente há um patrão. Você tem patrão na fábrica. Mas aqui aparece um poder abstrato, financeiro.

Alemán – É muito importante que esse movimento na Europa estabeleça algum tipo de interlocução com o que está acontecendo na América Latina, porque ele tem condição de repensar a relação entre governo e movimentos sociais. Sem esse momento da rearticulação do que Laclau chamaria de hegemonia, como evitar que isso se transforme em um novo tipo de parque temático, de horizonte testemunhal que, na sociedade do espetáculo, se mostre como os que vão dormindo nas diversas praças da Europa ?

Coscia – Vestidos de palhaços.

Alemán – Na Espanha, vai ganhar a direita histórica pseudofranquista. Temos que lembrar que o maio de 1968 terminou com o triunfo de De Gaulle

Negri – Hegemonia: de acordo. Mas uma hegemonia que não seja como a de Lênin. Que também não seja como a de Gramsci, porque Gramsci era leninista. Tudo o que quiserem, mas era leninista.

Laclau – Aí eu estou um pouco em desacordo com você…

Negri – Sinceramente, gerou-se esse mito em toda a intelectualidade de esquerda. Eu me permito propôr isso pela primeira vez. Há 50 anos que eu não o digo!

Laclau – Os regimes social-democratas europeus também confirmaram o modelo neoliberal. A terceira via é uma piada, é como (Eric) Hobsbawm dizia de Tony Blair: é thatcherismo de calças. Se falamos da transição para a democracia na América Latina, há dois modelos. Há um modelo chileno e uruguaio: no Chile, não se falava de corte com o passado ditatorial, falava-se de reconciliação nacional. E o modelo que foi adotado depois do pinochetismo é uma forma modificada do neoliberalismo. O Chile nunca entrou no Mercosul e tem um acordo comercial com os Estados Unidos. Lagos votou a favor de Bush em Mar del Plata. Do outro lado, estão os modelos equatoriano, venezuelano, boliviano e argentino, que implicaram uma mudança real. Isso significou uma mudança radical no imaginário político desses países. Assim, cria-se uma espécie de matriz. Nisso, provavelmente estamos um pouco em desacordo, Toni. Eu não privilegiaria somente uma democracia de base sobre o Estado. Eu acredito que o Estado é um espaço de luta também. É necessário articular os dois níveis. Se privilegiarmos somente o Estado, entramos em uma posição liberal. Se passamos a um libertarianismo extremo, corremos o perigo de uma certa impotência. O golpe na Venezuela não triunfou pela mobilização popular, mas também porque Chávez estava ali como alternativa. Essas duas dimensões estão se combinando muito bem nas novas democracias latino-americanas.

comments

Previous Post

Next Post