O plantão e o interesse (do) público

7 de agosto de 2011 Processocom

por Rafael Tourinho Raymundo
 
Uns domingos atrás, eu estava de plantão no portal de notícias em que trabalho. Já havia uma colega responsável pelas informações de trânsito e clima. Restou-me, então, garimpar conteúdo de agências internacionais.

Encontrei uma notícia que me pareceu interessante. Trabalhadores da maior mina de cobre do mundo – Escondida, no Chile – estavam em greve havia 10 dias, reivindicando melhores condições de trabalho. O assunto poderia até render uma boa suíte (resgate de notícias antigas) sobre incidentes em minas, algo infelizmente um tanto comum.

Perguntei ao editor responsável se a nota valia publicação e a resposta foi negativa. Ele poderia ter dado qualquer explicação para a recusa: “não é de interesse do nosso público”; “não há informações suficientes”; “somos um veículo da mídia corporativista burguesa e não nos cabe falar sobre greve de trabalhadores”. Todos esses motivos seriam falsos, aliás. Mas a razão apontada foi outra: “alguém morreu? Não? Então não nos serve”.

Foi uma triste, ainda que quase óbvia constatação. Greve de mineiros não chama tantos leitores quanto desastres em minas, afinal. Não renderia um destaque na capa. E esta não é uma questão do tipo “ovo ou galinha”. Acidentes aparecem na capa do site porque dão audiência, não dão audiência porque aparecem na capa. Afora informações corriqueiras de trânsito e clima, as notícias mais lidas são, sempre, as sobre tragédias.

É legítimo que o editor se importe com a audiência do portal. Quanto mais leitores, maior o interesse dos anunciantes e, consequentemente, maior a renda que banca toda a estrutura jornalística da empresa. Sem notícias sobre acidentes e atentados, eu provavelmente nem teria meu emprego.

No entanto, ainda penso que aquela notícia sobre os mineiros chilenos em greve despertaria o interesse de um ou outro. Poderia não ser a matéria mais lida, ou a mais comentada, mas cumpriria seu papel de informar o que está acontecendo no mundo e pautar um assunto relevante para discussão. Além do mais, a história não disputaria o espaço físico de uma página de periódico, ou os minutos de um telejornal. Haveria lugar tanto para os grevistas quanto para os motoristas bêbados. Os bêbados ganhariam a capa, obviamente.

Naquele domingo, a matéria sobre a greve na mina de cobre não foi ao ar – não no nosso site, pelo menos. Horas depois, a agência de notícia enviou outra manchete: “colisão entre dois trens na Índia”. “Quantos mortos?”, alguém perguntou. Ainda não havia essa informação. “Ok, ficamos no aguardo”. E seguiu-se o plantão.

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