Tempo, história, sociedade e juventude

24 de julho de 2011 Processocom

por Graziela Bianchi

Uma das disciplinas que ministro na faculdade onde atualmente trabalho é Comunicação e Cultura Contemporânea. No espaço das aulas, a discussão sobre temas que possuem relevância na configuração atual das sociedades em que vivemos e também o resgate histórico sobre fatos e períodos vividos que nos fizeram chegar às atuais condições, nesses primeiros anos do século XXI.

Na trajetória de trabalhos desenvolvidos, percebo que, apesar das ricas discussões empreendidas durante os encontros, existe a dificuldade muito grande, por parte dos estudantes, em relacionar os processos sociais que vivemos hoje com épocas anteriores em nossa história, mesmo que, do ponto de vista histórico, sejam momentos bastante recentes.

Tais resistências podem ser explicadas através da observância de uma série de fatores. Temos a questão da própria maneira como a história é ensinada nos estágios fundamentais da educação formal brasileira, vinculada muito mais à fixação de datas e acontecimentos históricos pontuais do que ao entendimento das repercussões e conseqüências dos fatos sociais, políticos, econômicos vividos em sociedade. E temos, fundamentalmente, uma mudança na perspectiva da observância e vivência da noção de tempo na atualidade.

A vida, de uma maneira geral, é hoje caracterizada pela constante aceleração. Trabalhamos mais e mais rápido, temos acesso a uma infinidade de informações em curto espaço de tempo, realizamos múltiplas tarefas estando em um mesmo tempo/espaço: trabalhamos, nos informamos e nos entretemos simultaneamente.

As gerações atuais conhecem bem essa lógica, dominam-na. No entanto, com todas as facilidades que dispõem para a obtenção cada vez maior de conhecimento, muitas vezes não conseguem compreender o valor da memória histórica, por exemplo.

Em uma dessas aulas, surpreendi-me com o relato de uma aluna. Recentemente, esteve palestrando na faculdade o químico Esteban Volkov, 85 anos, neto do revolucionário russo Leon Trotsky, e que tem dedicado seu tempo a resgatar a trajetória e história de seu avô, bem como divulgá-la, tentando fazer com que não seja esquecida. E o relato da aluna estava justamente relacionado à palestra. Ela disse ter experimentado certo mal estar ao se dar conta, naquele momento, que conhecia tão pouco sobre uma história que lhe parecia ser tão rica e importante. E, nesse mesmo relato, a estudante disse que lhe causou ainda mais surpresa o fato de grande parte da plateia, formada por estudantes como ela, não ter a mínima noção do importante momento que estavam compartilhando ali, tendo a possibilidade de escutar histórias que foram fundamentais no curso de fatos históricos do século XX e, consequentemente, XXI.

Por uma parte, senti certo alívio em poder presenciar a existência desse desconforto relatado pela aluna. Em outra perspectiva, compartilho seu receio em talvez perceber que, para as atuais gerações, a história não possui mais valor, não atrai, não remete a nenhum significado.

A rapidez de nossos tempos faz com que muitas pessoas não se atentem para o fato de que tudo o que estamos vivendo possui um desenvolvimento muito anterior ao momento que está sendo vivido. A história nos dá a possibilidade de um entendimento mais completo e profundo do mundo, das sociedades, das pessoas. Mesmo todo o aparato tecnológico do qual podemos fazer uso hoje só existe em função de um percurso histórico trilhado.

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