Sobre o Intercom norte 2011 (e o panorama da pesquisa em Comunicação na região)

13 de julho de 2011 Processocom

por Alex Damasceno

Quatro anos depois, voltei a participar do congresso Intercom norte. Meu retorno ao meio acadêmico da região foi marcado por sensações mistas: de um lado, o prazer do reencontro, de rever os antigos professores, de discutir os temas regionais; por outro, o estranhamento proporcionado por um olhar construído fora, e que ao retornar, inevitavelmente percebe sintomas antes encobertos.Atuei ativamente no congresso de duas formas: como participante de Divisão Temática (apresentei um artigo no DT de Comunicação Audiovisual) e como jurado da Expocom. Assim, pude ter uma visão ampla das atividades, tanto as destinadas às discussões de pesquisas, quanto as voltadas à produção técnica dos alunos de graduação.

Um dado que me parece ser importante para refletirmos a produção acadêmica da região sai justamente da relação DT/Expocom em comparação com os outros congressos regionais. Não se trata de comparar, entretanto, a quantidade de trabalhos inscritos em cada congresso, pois o número inferior no norte é um reflexo direto do baixo desenvolvimento da região em diversos aspectos. Para citar um exemplo, podemos apontar que um dos motivos da menor participação é a precária integração por via terrestre dos estados, uma vez que só é possível viajar para Boa Vista (RR), sede do evento em 2011, de avião ou de barco.

O dado específico que quero refletir é o seguinte: o Intercom norte é o único dos cinco congressos regionais em que o número de trabalhos selecionados para o Expocom supera a soma dos artigos selecionados para as Divisões Temáticas e Intercom Júnior (IJ). Tanto que os DTs e os IJs foram apresentados conjuntamente, e não em sessões separadas, como ocorre normalmente.

Podemos inferir algumas razões para essa inversão dos números na região. Em primeiro lugar, há apenas um programa de pós-graduação (nível mestrado) em Comunicação, localizado na Universidade Federal do Pará, mas que é recente (está na primeira turma). Ou seja, a produção de pesquisa do campo no norte ainda é incipiente. E, além disso, é importante apontar que não havia nenhum mestrando da UFPA inscrito nos DTs, o que pode nos levar a uma segunda inferência: talvez haja um desinteresse por parte dos pesquisadores em relação a esse espaço de discussão (por qual motivo? Pouca visibilidade, talvez). A realização do congresso deve-se ao esforço de poucos docentes.

Mas, além da incipiência e de um possível desinteresse, tive, do congresso, a seguinte impressão: de que a predominância da produção técnica não é apenas decorrente da falta de programas de pesquisa, mas é também incentivada, ganhando prioridade. As principais palestras do evento abordavam o tema “teoria versus prática”, apontando a necessidade de se superar uma relação dicotômica. O discurso que se perpetuou no decorrer dos três dias me pareceu dizer que uma das formas de superação dessa dicotomia passa pela “problematização do nosso fazer”: o pesquisador ter como objeto a sua própria produção técnica. Essa seria a solução encontrada para minimizar a ausência de espaços consolidados de pesquisa. E esse discurso, de certa forma, está refletido na alta participação do Expocom, em comparação com os DTs e IJs. Embora deva ressaltar que essa é uma hipótese arriscada, baseada, como disse, em impressões.

O que os dados do congresso nos dizem, então, sobre o panorama das pesquisas em Comunicação na região norte? Primeiro, que se trata da região mais atrasada (mas, para chegar a essa conclusão, nem precisaríamos de novos dados); em segundo lugar, que essa realidade é confrontada pelos esforços de poucos; por terceiro, que existe uma necessidade de criação e consolidação de novos espaços de pesquisa, para que a região não tenha como protagonista a sua produção técnica, e nem precise criar discursos para justificá-la.

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