A mobilidade urbana de Porto Alegre e região metropolitana. Entrevista especial com Luciana Rohde e João Fortini Albano

18 de abril de 2011 Processocom

Da IHU OnLine de 15/4/2011

Todas as manhãs a notícia é a mesma para quem vive em Porto Alegre e região metropolitana: as vias estão trancadas, os ônibus superlotados. E essa é a realidade de todas as grandes cidades brasileiras. Na entrevista a seguir, dois pesquisadores analisam a situação do metrô [1] que liga a capital gaúcha a algumas cidades da região metropolitana, o projeto de um novo metrô [2] dentro de Porto Alegre e, ainda, falam sobre planejamento de mobilidade urbana.

Para Luciana Rohde, que concedeu entrevista à IHU On-Line por e-mail, “algumas vezes, bons projetos acabam perdidos ou encalhados neste caminho, por esbarrar em limitações financeiras. A RS-010 é um bom exemplo. O estado alega não possuir recursos para viabilizar a obra e a saída proposta pelo governo anterior – parceria público-privada – esbarrou em limitações jurídicas. Neste ínterim, a população da região metropolitana fica aguardando uma solução para o tráfego lento na BR-116”.

Segundo o professor João Fortini Albano, que concedeu entrevista por telefone, “nosso padrão de planejamento é muito fraco”. Ele defende que “o transporte público precisa atender às necessidades das pessoas, principalmente no que diz respeito ao tempo de deslocamento. Ele tem que melhorar a qualidade do serviço que oferece, tem que aumentar a frequência de viagens, precisa ter tarifas razoáveis que atendam ao poder aquisitivo da população e precisa ser integrado a outras modalidades de transporte”.

Luciana Rohde é doutora em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é professora na Unisinos, onde trabalha o tema “Infraestrutura de Transportes”.

João Fortini Albano
é mestre em Engenharia de Transportes e doutor em Sistemas de Transportes e Logística pela UFRGS, onde é professor no Departamento de Engenharia de Produção e Transportes.

IHU On-Line – O metrô que liga Porto Alegre à região metropolitana [3] foi inaugurado em 1984. Podemos considerá-lo sucateado?

Luciana Rohde –Se considerarmos a data de início de operação do sistema será fácil concluir que não são equipamentos novos. No entanto, técnicas modernas de manutenção prolongam a vida útil dos aparelhos e dos sistemas de operação e segurança. Se buscarmos exemplos de metrôs no mundo encontraremos o metrô de Madrid (Espanha) que possui equipamentos cuja operação também iniciou em 1984 e permanecem em utilização com baixo índice de falha.

João Fortini Albano –
Hoje o mundo é dinâmico e a tecnologia se renova com muita rapidez. Então, o que se comenta é que esses veículos que fazem o transporte de passageiros na região metropolitana já estariam com o prazo de validade vencido, estariam exigindo uma renovação da frota. Analisando a lotação, principalmente nos horários de pico, comenta-se que o nosso metrô metropolitano já está exportando passageiros para o transporte individual. Acredito que está na hora de botar seis vagões por composição, está na hora de começar a renovação da frota com vista a manter o transporte público ao longo deste eixo de Novo Hamburgo a Porto Alegre dentro de padrões de conforto e segurança tal como é o objetivo do transporte de massa desta natureza.

IHU On-Line – Seguidamente, técnicos de outros países vêm analisar os aparelhos e se surpreendem com a manutenção, uma vez que os metrôs são considerados antigos. Como você avalia isso?

Luciana Rohde –A empresa responsável pela operação do sistema segue padrões de manutenção que visam prolongar a vida útil dos equipamentos e garantir segurança e pontualidade ao serviço prestado. Seguindo os padrões atuais, não acredito na possibilidade de ocorrência de acidentes graves nos trens da região metropolitana de Porto Alegre ligados exclusivamente à idade e manutenção dos equipamentos. Como sabemos, acidentes ocorrem por um conjunto de fatores e, em geral, o fator humano é decisivo.

João Fortini Albano – O fato de serem da década de 1980 e o fato de nós já estarmos em 2011, assim como o de estes veículos estarem circulando e de que não se têm muitas notícias de pane, fazem com que a manutenção que a Trensurb faz parece ser razoável. Isto porque são poucas as notícias de problemas. Temos que festejar esse fato. Mas isso não quer dizer que a tecnologia não esteja superada. Isto seria outra questão. A manutenção sempre tem que ser boa para os horários de viagens possam ser cumpridos.

IHU On-Line – O trem, a partir de 2012, seguirá até Novo Hamburgo. Com o número de veículos atual será possível transportar toda a nova demanda que será gerada?

Luciana Rohde –Para a operação desta extensão do metrô serão adquiridos oito novos trens compostos por seis carros cada para serem somados aos 25 trens com quatro carros cada que estão em operação atualmente. Acredito que o número de veículos em operação deverá ser reavaliado após o início dos trabalhos a fim de verificar a necessidade de novas aquisições. A análise de demanda foi realizada em função de expectativas (projeções estatísticas) de utilização que somente serão confirmadas após o início das viagens no novo percurso.

João Fortini Albano –
Não. Sem dúvidas não. Inclusive já ouvi a manifestação dos diretores da companhia: a demanda vai aumentar, segundo os estudos, em torno de 30%. Então, é muita gente a mais. Novo Hamburgo é um centro importante. É evidente que teremos que ter mais veículos.

IHU On-Line – Diante da Copa do Mundo de 2014 projeta-se a construção de um metrô em Porto Alegre. A cidade está preparada para receber tamanha obra até o ano do evento?

Luciana Rohde –O projeto proposto pela prefeitura de Porto Alegre, anunciado nestes últimos dias, foi formulado visando à menor interferência possível no dia a dia da cidade. No entanto, grandes obras sempre geram algum transtorno. Considero que os moradores de Porto Alegre deverão ter um pouco de paciência e entender que o benefício gerado será muito superior aos transtornos durante a execução. A obra prevê uma linha de metrô subdividida em duas partes: uma subterrânea e uma de superfície. A parte subterrânea localiza-se justamente na área com maior densidade construtiva atingida pelo projeto – área central de Porto Alegre. Este tipo de obra, em geral resulta em redução de interferência no entorno, uma vez que se desenvolve principalmente no subsolo.

João Fortini Albano –
Não. Esse projeto, a licitação e a obra do metrô de Porto Alegre, a chamada linha II, não estão no kit de obras que constituem o conjunto de medidas para a Copa. Foi discutido no início dos planejamentos a inserção de um metrô se aproximando ao Beira-Rio, mas depois foi descartado pelo governo. Essa linha II de 15 quilômetros que sai do centro da cidade e vai até o bairro Sarandi é independente do conjunto de obras da Copa. Estive observando em várias cidades do mundo e, principalmente, do Brasil e da América do Sul, a hipótese mais otimista de velocidade de avançamento de uma obra de metrô é de três quilômetros por ano. Então, se você fizer a conta, esse metrô linha II de Porto Alegre deve ficar pronto em cinco anos, depois do início das obras. Como o prefeito está dizendo que as obras devem começar no final de 2012, o metrô só ficaria pronto em 2017. É, de qualquer forma, um empreendimento que vai beneficiar Porto Alegre, e que deverá ser integrado com a linha I do metrô. Temos insistido nessa ideia.

IHU On-Line – Porto Alegre e as cidades da região metropolitana têm projetos de mobilidade urbana? Como você analisa esses projetos?

Luciana Rohde – Existem alguns projetos em estudo na região metropolitana. O que observo é que, entre o surgimento da ideia e a concretização da obra, existe um grande caminho burocrático e político a ser trilhado. Algumas vezes, bons projetos acabam perdidos ou encalhados neste caminho, por esbarrar em limitações financeiras. A RS-010 é um bom exemplo. O estado alega não possuir recursos para viabilizar a obra e a saída proposta pelo governo anterior – parceria público-privada – esbarrou em limitações jurídicas. Neste ínterim a população da região metropolitana fica aguardando uma solução para o tráfego lento na BR-116. Para acompanhar o andamento de projetos de mobilidade e infraestrutura de transportes na região metropolitana de Porto Alegre, foi criado em 2008 um comitê composto por autoridades políticas, sociais e econômicas do Vale dos Sinos. Informações a respeito de obras em andamento e em planejamento podem ser obtidas no blog do Comitê de Acompanhamento das Obras de Infraestrutura Viária da Região Metropolitana de Porto Alegre.

João Fortini Albano –
Nosso padrão de planejamento é muito fraco. A Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional do Estado do Rio Grande do Sul – Metroplan, que trata dos estudos de planejamento e circulação da via metropolitana, mais a Trensurb e a Empresa Pública de Transporte e Circular – EPTC, se reuniram e desenvolveram um programa de integração e planejamento de eixos de circulação e mobilidade urbana da região metropolitana. Portanto, existe este planejamento. Grandes eixos que se deslocam das cidades ao redor de Porto Alegre estariam se integrando naquilo que seria chamado de Portais das Cidades [4]. Então, estes eixos de demanda, que incluem até as cidades de Viamão e Alvorada, além desse eixo da BR-116, estariam afluindo a terminais que fariam integração com outras modalidades de transporte, com a própria Trensurb. O planejamento existe e precisa ser desenvolvido e implementado. Estamos aguardando.

IHU On-Line – Que desafios o transporte individual aponta no que se refere à trafegabilidade nessa região?

Luciana Rohde – Cada vez mais os transportadores privados têm dificuldade em cumprir horários e garantir viagens seguras aos usuários. Como observamos no dia a dia, uma via com tráfego intenso é bem mais sujeita à ocorrência de acidentes que tornam o trânsito ainda mais complicado. O resultado é que quem precisa se deslocar entre as cidades da região metropolitana tem que colocar na sua agenda um tempo extra para encarar engarrafamentos ou modificar os horários de deslocamento para evitar períodos de pico. Ou seja, início da manhã e final de tarde, especialmente em gargalos como a entrada/saída de Porto Alegre e a região de Canoas, onde o fluxo de veículos intenso resulta em lentidão constante.

João Fortini Albano – O desafio dos transportes privados, principalmente do automóvel, é sombrio porque temos uma utilização cada vez maior do veículo particular. O sistema viário não acompanha o número de veículos que ingressam na frota. Vislumbro mesmo que se faça o melhoramento de vias, alargamentos e viadutos e outras obras de melhoramento. Há uma defasagem do crescimento de outra possibilidade. Para minha surpresa, porque achava que isso só ocorreria em cinco anos, estão começando a ser impostas medidas restritivas ao uso do transporte individual. Um exemplo é a proibição de circulação de caminhões no centro histórico de Porto Alegre em determinados dias e horários; outro é o projeto que tramita na Câmara de Vereadores proibindo o estacionamento de veículos em determinadas vias para melhorar o fluxo. A verdadeira transformação vai acontecer nos próximos anos, que será o aumento dessas restrições do transporte individual, com o gerenciamento do custo dos estacionamentos e, paralelamente, o melhoramento do transporte público de massa por meio de ônibus e metrô.

IHU On-Line – Se vai haver restrições, precisamos de alternativas. Que alternativas seriam essas?

João Fortini Albano – Claro. O transporte de ônibus integrado com o transporte metroviário, que, por sua vez, deve ser integrado ao transporte de ciclovias. É assim que o usuário do transporte individual ficará motivado, pois utilizará um transporte público confortável, com frequência de horários e com bastante segurança. O transporte público precisa atender às necessidades das pessoas, principalmente no que diz respeito ao tempo de deslocamento. Ele tem que melhorar a qualidade do serviço que oferece, tem que aumentar a frequência de viagens, precisa ter tarifas razoáveis que atendam ao poder aquisitivo da população e precisa ser integrado a outras modalidades de transporte.

IHU On-Line – De que forma a Rodovia do Parque [5] pode melhorar a trafegabilidade da região? Ela realmente vai “desafogar” a BR 116?

Luciana Rohde – A Rodovia do Parque pode vir a atender boa parte da demanda da BR-116, segundo o projeto até 60% do tráfego. O projeto em execução contempla vias amplas e com traçado geométrico que permite fluidez ao tráfego. Sua influência no tráfego da BR-116 tende a ser bastante positiva, desde que as projeções feitas na fase de projeto sejam confirmadas a partir da utilização da via. Entretanto, acredito que não precisaremos esperar até a finalização da obra da BR-448 para termos melhorias no tráfego da BR-116, uma vez que está em andamento um projeto de operação da via com adequação das faixas de trânsito e implantação de serviço de guincho e de segurança, entre outros. Atualmente, ao trafegar na BR-116 já podemos observar algumas câmeras de monitoramento em operação; elas colaborarão para intervenções mais rápidas em caso de acidentes e panes mecânicas, contribuindo para a redução da ocorrência de pontos de lentidão resultantes destes tipos de episódios.

Além disso, já somos beneficiados por uma terceira faixa no sentido interior/capital entre Canoas e Porto Alegre, que melhorou a fluidez nesta região. Também está em fase de finalização a duplicação da ponte sobre o rio Gravataí na entrada de Canoas, que já tem garantido menor lentidão no local. Muito ainda deve ser feito, mas algumas medidas implantadas e em estudo podem amenizar o problema temporariamente. Uma solução definitiva demandará forte investimento e estudo cuidadoso, uma vez que o tráfego sofre variações muitas vezes difíceis de prever, quando se adota indicadores de crescimento tradicionais.

João Fortini Albano – A BR-116 tem uma característica muito própria, da qual, digamos, ela não abre mão, que é ter muitas viagens com origem e destino na própria BR-116. Cerca de 40% dos veículos que usam a BR-116 têm essa característica. Os estudos que foram feitos relativos ao projeto da Rodovia do Parque, a BR-448, indicam que haveria os outros 40% do fluxo poderiam ser desviados, uma vez construída a nova via. Estes estudos, pela minha experiência, são otimistas. Não sei se chegaria a um desvio de 40%, mas se chegar a 30% já atingiu o objetivo. Imagine a BR-116 com 30% a menos de movimentação!

Já estudos sobre a RS-10, que é uma rodovia leste, também são otimistas, pois estão prevendo um desvio de 15% do fluxo da BR-116. Se essas obras forem realizadas dentro de um prazo razoável, em sete ou dez anos a BR-116 deverá estar aliviada, ainda que a frota de veículos particulares cresça, o que é uma tendência. Não deixa de ser uma visão otimista, mas temos que acreditar, visto que são planos que já estão sendo colocados em prática. Infelizmente, a RS-10 está parada. Com a troca de governo houve um congelamento da obra. Acredito, porém, que ela será retomada logo. Já a BR-448 está em pleno andamento. Enfim, vamos aguardar que essas obras comecem a efetivamente funcionar.

Notas:

[1] A Trensurb foi criada, em 1980, para implantar e operar uma linha de trens urbanos no eixo Norte da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) e atender, diretamente, as populações dos municípios de Porto Alegre, Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo. Atualmente, ela possui 17 estações, totalizando 33,8 quilômetros de extensão e transporta cerca de 170 mil usuários por dia. Ela também é conhecida como Linha 1.

[2] A implantação da Linha 2, embora totalmente em Porto Alegre (corredores Nordeste e Sudeste) atenderia toda a Região Metropolitana, cuja população é da ordem de 3,2 milhões de pessoas. A demanda diária prevista, considerando o horizonte de tempo para sua implantação completa, é de 450 mil usuários/dia e, com sua conexão com a Linha 1, poderá ampliar a demanda do Corredor Norte para 220 mil usuários/dia. A previsão é de essa linha fique pronta apenas em 2017.

[3] Atualmente, a linha 1 liga Porto Alegre à São Leopoldo. Em 2012, mais quatro estações serão inauguradas, chegando até a cidade de Novo Hamburgo.

[4] O projeto Portais da Cidade foi concebido para reduzir a poluição atmosférica, os tempos de deslocamento dos usuários do transporte público urbano e melhorar sua segurança. Sua implantação vai retirar os terminais do centro histórico e contribuir para a revitalização da área.

[5] A BR-448, também chamada Rodovia do Parque é uma rodovia federal no Estado do Rio Grande do Sul, entre Novo Hamburgo e Porto Alegre, a oeste da BR-116, para desafogar o trânsito desta nos horários de pico na Região Metropolitana. Tem o nome de Rodovia do Parque por passar atrás do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, onde ocorre anualmente a Expointer. A construção da rodovia tem previsão de inauguração em 2012. A obra é realizada com R$ 932,6 milhões em recursos do PAC. A via será dividida em três trechos, que irão do entroncamento da BR-116 com a RS-118, em Sapucaia do Sul, até o entroncamento da BR-116 com a BR-290, em Porto Alegre.

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