EUA tentaram impedir programa brasileiro de foguetes

26 de Janeiro de 2011 Processocom

Da redação do Jornal da Ciência. Edição 4185 – Notícias de C&T – Serviço da SBPC/ 25 de janeiro de 2011

Telegramas revelam pressão americana sobre parceria entre Brasil e Ucrânia para reconstrução da Base de Alcântara
Ainda que o Senado brasileiro venha a ratificar o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas EUA-Brasil (TSA, na sigla em inglês), o governo dos Estados Unidos não quer que o Brasil tenha um programa próprio de produção de foguetes espaciais. Por isso, além de não apoiar o desenvolvimento desses veículos, as autoridades americanas pressionam parceiros do país nessa área – como a Ucrânia – a não transferir tecnologia do setor aos cientistas brasileiros.


A restrição dos EUA está registrada claramente em telegrama que o Departamento de Estado enviou à embaixada americana em Brasília, em janeiro de 2009 – revelado agora pelo WikiLeaks ao Globo. O documento contém uma resposta a um apelo feito pela embaixada da Ucrânia, no Brasil, para que os EUA reconsiderassem a sua negativa de apoiar a parceria Ucrânia-Brasil, para atividades na Base de Alcântara no Maranhão, e permitissem que firmas americanas de satélite pudessem usar aquela plataforma de lançamentos.

Além de ressaltar que o custo seria 30% mais barato, devido à localização geográfica de Alcântara, os ucranianos apresentaram uma justificativa política: “O seu principal argumento era o de que se os EUA não derem tal passo, os russos preencheriam o vácuo e se tornariam os parceiros principais do Brasil em cooperação espacial” – ressalta o telegrama que a embaixada enviara a Washington.

A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que “embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Mais adiante, um alerta: “Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”.

O Senado brasileiro se nega a ratificar o TSA, assinado entre EUA e Brasil em abril de 2000, porque as salvaguardas incluem concessão de áreas, em Alcântara, que ficariam sob controle direto e exclusivo dos EUA. Além disso, permitiriam inspeções americanas à base de lançamentos sem prévio aviso ao Brasil.

Os ucranianos se ofereceram, em 2008, para convencer os senadores brasileiros a aprovarem o acordo, mas os EUA dispensaram tal ajuda. Os EUA não permitem o lançamento de satélites americanos desde Alcântara, ou fabricados por outros países mas que contenham componentes americanos, “devido à nossa política, de longa data, de não encorajar o programa de foguetes espaciais do Brasil”, diz outro documento confidencial.

Sob o título “Pegando Carona no Espaço”, um outro telegrama descreve com menosprezo o voo do primeiro astronauta brasileiro, Marcos Cesar Pontes, à Estação Espacial Internacional levado por uma nave russa ao preço de US$ 10,5 milhões – enquanto um cientista americano, Gregory Olsen, pagara à Rússia US$ 20 milhões por uma viagem idêntica.

A embaixada definiu o voo de Pontes como um gesto da Rússia, no sentido de obter em troca a possibilidade de lançar satélites desde Alcântara. E, também, como uma jogada política visando à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Num ano eleitoral, em que o presidente Lula sob e desce nas pesquisas, não é difícil imaginar a quem esse golpe publicitário deve beneficiar. Essa pode ser a palavra final numa missão que, no final das contas, pode ser, meramente ‘um pequeno passo’ para o Brasil” – diz o comentário da embaixada dos EUA, numa alusão jocosa à célebre frase de Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua, dizendo que seu feito se tratava de um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a Humanidade.
(José Meireles Passos)
(O Globo, 25/1)

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12. Ucrânia recorreu aos EUA por foguete com o Brasil

País queria que EUA ajudassem a fortalecer empresa brasileiro-ucraniana
A Ucrânia recorreu aos EUA para tentar fortalecer a sua parceria com o Brasil para lançar satélites da base de Alcântara (MA), mostram documentos do WikiLeaks.

Segundo um telegrama escrito pelo diplomata americano no Brasil Clifford Sobel, em fevereiro de 2009, o país europeu teria pedido ajuda aos americanos por meio de seu embaixador no Brasil, Volodymyr Lakomov.

Isso porque os EUA são o grande mercado mundial de satélites -40% dos satélites do mundo são americanos.

Se o país definir que jamais vai lançá-los no Brasil, a ACS (Alcântara Cyclone Space, empresa binacional responsável pelo projeto brasileiro-ucraniano) se torna menos viável.

Os ucranianos queriam que os EUA deixassem claro seu interesse em lançar seus satélites de Alcântara.

Segundo eles, se não fizessem isso, os russos, que estariam apenas “esperando nos bastidores”, então “preencheriam o espaço vazio” -uma aproximação entre Brasil e Rússia no campo espacial desagradaria aos EUA.

Os americanos, então, disseram até ter interesse em apoiar os foguetes de Alcântara. Nos telegramas, deixam claro gostar da parceria entre o Brasil e a Ucrânia, “desde que ela não resultasse em transferência de tecnologia de foguetes [que a Ucrânia tem] para o Brasil” -o país entraria apenas com o sítio de lançamentos.

Justamente para evitar que os brasileiros tivessem tecnologia de lançamento de satélites, os diplomatas americanos escreveram que os EUA “têm uma antiga política de não “encorajar'” as tentativas do Brasil de desenvolver um foguete sozinho (o VLS).

Os diplomatas americanos disseram, porém, que só poderiam apoiar o foguete ucraniano caso o Brasil assinasse um acordo de salvaguardas tecnológicas com eles. Um acordo assim foi vetado em 2003 pelo Congresso Nacional, que acreditava que ele violaria a soberania do Brasil. As salvaguardas incluíam concessão de áreas sob controle direto e exclusivo dos EUA e licença para inspeções americanas sem prévio aviso ao Brasil.

Em outro telegrama, o diplomata Patrick Linehan reclamava que os EUA até tentavam “avançar com um acordo sobre lançamentos espaciais” com o Brasil, mas dizia que as “súplicas” americanas “encontram sempre o silêncio” como resposta.

Segundo ele, o Brasil se mostra muito disponível para discutir assuntos “de interesse marginal”, como “ciência, educação e ambiente”, mas que foge quando os assuntos são negócios ou propriedade intelectual. “”[O Brasil tem] hipersensibilidade em questões que considera infringirem a sua soberania”, e isso pode ser visto como “sinal de imaturidade política”, dizia.

“Muitos brasileiros acreditam que os EUA têm interesses na Amazônia”, exemplificava. A ACS deve custar ao país quase R$ 1 bilhão.

Com o tamanho limitado do mercado de lançamentos comerciais de satélites, a empresa pode ficar deficitária por até duas décadas. A promessa é iniciar as operações ainda em 2012.

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