Cibercultura brasileira: desafios e perspectivas. Entrevista especial com João Ricardo Bittencourt

19 de Janeiro de 2011 Processocom


IHU OnLine. De 18/1/2011

Já nas primeiras semanas de trabalho, a presidente Dilma deixou claro que vai incentivar a inclusão digital no país. Tanto que um projeto de distribuição de tablets, tipo iPads, podem ser distribuídos nas escolas a fim de que a cultura digital do brasileiro esteja presente desde os primeiros anos escolares. “A cultura digital é criada pela descentralização e no papel duplo de consumidor/produtor de cada internauta. A cultura do brasileiro é muito extrativista, ainda incompatível com esta visão de cibercultura. A principal ação está na educação, formar pessoas pró-ativas e produtoras de conteúdo, que recriem o ciberespaço. Infelizmente, a forma como a informática é trabalhada nas escolas é superficial, visa treinar meros usuários de editores de texto”, explica o professor João Ricardo Bittencourt durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por email, me que tratou deste tema.

João Ricardo Bittencourt
é professor e coordenador do curso de Jogos Digitais da Unisinos. Graduou-se em Análise de Sistemas pela Unisinos e realizou o mestrado em Ciência da Computação na PUCRS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) prevê a cobertura de 68% dos domicílios do país com internet até 2014. Quais as transformações que podemos esperar dessa entrada massiva da população na dita sociedade da informação?

João Ricardo Bittencourt – Do ponto de vista filosófico, representa a liberdade da informação, a sociedade tendo acesso à informação em qualquer lugar, independente de status socioeconômico. Quanto a transformações, podemos esperar uma série de serviços voltados para população, sejam elas ações governamentais, de entretenimento, de educação ou informativas. A consequência será uma série de dispositivos além do PC com acesso à web – o mais óbvio seriam os celulares, mas teríamos acesso pela TV, videogame, blue-ray, o que também fortifica a questão da mobilidade, acessar em qualquer lugar.

IHU On-Line – Pode-se dizer que o Brasil caminha para a construção de uma nova democracia participativa?

João Ricardo Bittencourt – Essa questão é mais pragmática. Somente dar acesso à internet banda larga não dá para dizer que teremos uma democracia participativa. Sem dúvida é um pré-requisito, mas para criarmos esta participação precisamos de sujeitos, de pessoas que desejam participar. Acredito que inicialmente será usada substancialmente para fins de entretenimento, acessar redes sociais, acessar conteúdo exclusivo dos programas de televisão.

IHU On-Line – Instrumentalizar e incluir digitalmente a população são estratégias suficientes para se incorporar uma cultura digital no país?

João Ricardo Bittencourt – Evidentemente que não. É um pré-requisito, não adianta falar de inclusão digital se as pessoas não têm acesso ao computador, à banda larga. Portanto, no momento que apresentam-se novas alternativas de acesso passamos atender um pré-requisito. A cultura digital é criada pela descentralização e no papel duplo de consumidor/produtor de cada internauta. A cultura do brasileiro é muito extrativista ainda incompatível com esta visão de cibercultura. A principal ação está na educação, formar pessoas pró-ativas e produtoras de conteúdo, que recriem o ciberespaço. Infelizmente, a forma que a informática é trabalhada nas escolas é superficial, visa treinar meros usuários de editores de texto. Tem o momento de ir no laboratório de informática. Os computadores devem estar presentes na sala de aula em cada matéria. Não se preocupar em treinar, mas capacitar os jovens a serem construtores digitais.

IHU On-Line – Tendo em vista o ‘comportamento brasileiro’ na internet – reconhecido principalmente nas redes sociais – quais seriam as mudanças esperadas, numa perspectiva mundial, de uma atuação ainda maior da população brasileira no ambiente digital?

João Ricardo Bittencourt – Sem dúvida que tende aumentar a participação da população brasileira. O importante é que na rede social as pessoas também produzem conteúdo. Alguém tem que gastar parte de seu tempo para postar suas fotos, comentar os perfis dos amigos, divulgar um vídeo… A rede só existe com participação. Isso é muito válido para criar esta competência de colaboração. Em um próximo momento teremos que pensar como usar para produzir conteúdos mais complexos, menos superficiais, criar comunidades de aprendizagem, de troca de conhecimentos. Obviamente, sem excluir as redes sociais com fins de entretenimento. Só que para produzir conteúdo complexo requer conhecimento, capacitação, estudo.

IHU On-Line – Quais serão os benefícios da expansão da oferta da banda larga para o governo e o para desenvolvimento industrial e tecnológico do país?

João Ricardo Bittencourt – A principal é uma alavancagem econômica. Temos que lembrar que o maior grupo de comunicações francês, a Vivendi comprou a GVT de olho nestes 200 milhões de consumidores em potencial, em uma das economias emergentes mais sólidas e um sistema democrático sólido. O potencial é imenso do ponto de vista de negócios. O governo também pode modernizar seus processos oferecendo de forma mais rápida um conjunto de serviços para os cidadãos. Sempre se idealizou uma televisão indo além do entretenimento, com atrações de cultura, educação. Até hoje este desafio não foi superado, a TV ainda é massivamente repleta de atrações de entretenimento raso, vide os reality shows. Não podemos ter ilusão que um plano de acesso à internet vai ser muito diferente do que a TV. Os consumidores desejam entretenimento e a consequencia é uma série de conteúdo sendo produzida para essa massa.

IHU On-Line – O pedido da presidente Dilma Rousseff ao Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, de negociar com empresas nacionais tablets a preços mais populares (entre R$400 e R$500) é viável? Quais seriam os caminhos para que esta proposta se torne uma realidade acessível ao bolso do brasileiro?

João Ricardo Bittencourt – Nicolas Negroponte lançou o desafio de um computador por 100 dólares. A presidente Dilma é uma entusiasta do Projeto Um Computador por Aluno. O setor comercial foi desafiado a produzir um netbook com valor próximo dos 100 dólares. A priori, a redução de preço é viável com produção em série. O agravante do Brasil é a pesada carga tributária, muitos componentes são importados e existe muito pagamento de royalties e licenças de uso. Fomento à pesquisa nas universidades nacionais, registro de patentes, incentivo para produção interna são ações que ajudam a reduzir o custo. Na década de 1990, não imaginávamos que os celulares “tijolão” iriam se tornar cerca de cem reais atualmente. A mesma coisa vamos ver no futuro para netbooks e tablets. É importante deixar claro que existirão uma linha de tablets igual aos celulares, nem todos serão iguais aos iPads; muitos serão mais simplificados, e, consequentemente, mais baratos visando um grupo determinado de consumidores.

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