Manifestação nunca vista na Tunísia fez cair o governo

18 de Janeiro de 2011 Processocom

Da IHU OnLine – 15/01/2011

Mulheres vestidas na última moda adornadas com acessórios de Armani e desdentados; advogados com toga e comerciantes; sindicalistas e empresários; engenheiros de informática desempregados, estudantes, donas de casa… Às 9 da manhã de sexta-feira, centenas de tunisianos começaram a desfilar, partindo da sede da União Geral de Trabalhadores da Tunísia, no centro da cidade. À manifestação foram-se somando pouco a pouco pessoas vindas de qualquer lugar, até somar milhares. Romperam cordões policiais e se plantaram diante do Ministério do Interior. “É um lugar simbólico. Em seus porões foram assassinadas e torturadas muitas pessoas”, comentou Walid Keskes, diretor de uma empresa de telecomunicações.
A reportagem é de J. M. Muñoz, publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo Portal UOL, 15-01-2011.
Diante do sinistro edifício cantaram dezenas de vezes o hino nacional e os slogans habituais nesses dias: “Ben Ali assassino”, “Ben Ali covarde”, “Basta de terrorismo de Estado”, “Ben Ali é a morte do povo” e “Fora Ben Ali”. As lembranças da família do presidente, os detestados Trabelsi, por sua corrupção e nepotismo descarados, também não faltaram. Mas o ambiente, paradoxalmente, era quase festivo em um dia esplêndido, quase caloroso. “Nunca tinha visto algo semelhante em Túnis”, afirmou atônito Seif, 28 anos, formado em finanças.
Permaneceram durante cinco horas diante das portas do sinistro edifício. Até que a polícia lançou a primeira lata de gás lacrimogêneo, pouco antes das 3 da tarde. E começaram as corridas, os gritos e os choques entre grupos de jovens e a polícia antidistúrbio em muitas esquinas do centro da cidade, junto à avenida Habib Burghiba. Alguns manifestantes paravam para saudar e abraçar os soldados que protegiam a embaixada francesa, em um país no qual o exército goza de imenso prestígio. Pouco depois os agentes golpeavam a socos e pontapés qualquer jovem suspeito. E apedrejavam as janelas dos moradores que se negavam a baixar as persianas. “O regime está naufragando, mas a mudança virá lentamente”, comentava Keskes. Ele não imaginava o que aconteceria quatro horas depois.
Os tunisianos tinham perdido o medo do regime. E o discurso do presidente na véspera, no qual prometeu “liberdade total de imprensa”, “reduzir o preço do pão, do açúcar e do leite” e que não seriam feitos disparos contra os manifestantes, não surtiu qualquer efeito. Sua legitimidade já era nula. “Um presidente não pode humilhar-se assim”, dizia Yusef Farhat, por mais que deteste o mandatário que depois fugiria. “Não nos comprará com uma barra de pão”, acrescentava Seif.
“Esta é uma revolução branda. Não pegamos em armas”, orgulhava-se Keskes, que acertou em outro prognóstico. “Ben Ali tem de escolher entre o poder e sua mulher.” Ele optou por Laila Trabelsi, a odiada ex-cabeleireira cuja família, exemplo de nepotismo e corrupção, se apoderou de uma fortuna incalculável. Os protestos pacíficos, embora não tenham faltado os saques a algumas lojas, supermercados e mansões – todos propriedade dos Trabelsi -, conseguiram derrubar um regime que na véspera parecia pouco menos que eterno.
Fontes médicas davam conta na sexta-feira de pelo menos uma dúzia de mortos durante a noite de quinta. Mas a repressão só serviu para isso, para provocar mortes. Como indicava outro jovem manifestante: “Esse é o nosso poder”. E mostrava seu telefone celular. Através da Internet, do Facebook e dos vídeos postados na rede os indignados manifestantes de Túnis, Sfax, Kairuan, Gafsa, Sidi Bouziz, Gizerte e dezenas de outras cidades e povoados conseguiram derrubar o autocrata. Em menos de um mês expulsaram do país um líder tão querido em seus primeiros anos de governo como odiado nos últimos.

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