Repensar a emancipação sociocomunicacional

13 de dezembro de 2010 Processocom

Joel Felipe Guindani – Doutorando em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Emancipação sócio-comunicacional é uma reflexão inspirada na noção de emancipação social desenvolvida pelo sociólogo Boaventura de Souza Santos. Já o aditivo “comunicacional”, deve-se ao fato de que é cada vez mais inconcebível pensarmos ações sociais amancipadoras distantes do espaço comunicacional, sobretudo do midiático-tecnológico.
O campo da sociabilidade, composto também pelo econômico, religioso, cultural, político etc., é cada vez mais atravessado pelos processos de midiatização e concebê-lo fora dessa problemática é praticar uma compreensão limitada sobre a realidade. Nessa direção, as novas tecnologias estão colocando em crise o pensamento estritamente midiático-monopolista, que articula toda a sua crítica e projeção político-militante sobre o viés da manipulação, da sujeição/passividade dos ouvintes, leitores ou telespectadores.


Esta racionalidade midiático-monopolista é o principal fator que nos instiga “repensar” a racionalidade sobre o sócio-comunicacional na contemporaneidade, sobretudo, quando pretendemos desenvolver ações que sejam protagonistas de uma efetiva emancipação humana é popular.
Na perspectiva de Boaventura, o primeiro passo é revermos nosso modo de reflexão sobre as formas de produção de conhecimento [sócio-comunicacional]. Como ele mesmo enfatiza, – no seu livro “Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social” – antes de transformar é preciso compreender, mas, sobretudo, compreender como compreendemos. Eis uma pergunta então necessária: Como compreender a realidade se não problematizamos nossa maneira de compreendê-la?  Toda a compreensão é erigida a partir de um ponto, de um tempo/espaço e que, para sua eficácia ou validade, deve acompanhar as transformações daquilo que busca compreender.
A compreensão do sócio-comunicacional realizada por muitos movimentos, associações, sindicatos, que discursam sobre formas de libertação/emancipação, partem do ponto ou espaço/tempo que é, na grande maioria, o da manipulação/sujeição/passividade – sem contarmos que muitos deles não consideram a comunicação como importante investimento. Para Boaventura, pensamentos ou compreensões limitadas não nos servem mais. Mediante isso, um segundo passo para a emancipação sócio-comunicacional é o reconhecimento ou compreensão de experiências diversas, que emergem das novas tecnologias, apropriadas por sujeitos em distintos espaços do tempo presente.
Não podemos desperdiçar experiências, alerta Boaventura. Para isso, ou complexificamos e ampliamos a nossa racionalidade sócio-comunicacional, ou estaremos alimentando o círculo vicioso do discurso apenas crítico, que alardeia sem propor alternativas concretas.

Experiências de comunicação emancipadoras
Ações exemplares ou racionalidades amplas, que protagonizam a emancipação sócio-comunicacional são identificadas em movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra (MST) e até mesmo em projetos do Ministério da Justiça, através do Programa Nacional de Segurança com Cidadania – PRONASCI. Vejamos.
Durante este segundo semestre de 2010, professores e alunos da Escola Nova Sociedade, localizada no assentamento Itapuí – Grande Porto Alegre (RS) – e militantes do MST, desenvolveram oficinas de comunicação, produzindo podcasts e outros conteúdos para blogs. Um dos jovens assentados, integrante do grupo, enfatiza que “existem muitas tecnologias que podem contribuir não só para o uso pessoal. Um celular pode mandar mensagens, notícias e informações. Isso, até um tempo atrás, era coisa só de uma elite ou dos donos da mídia, mas agora não mais”, pontua.
No município de Canoas (RS), a Agência da Boa Notícia Guajuviras, um dos projetos do PRONASCI, mobiliza mais de 240 jovens em torno da reflexão e do uso das novas tecnologias. Para um dos jovens, “agora podemos dizer coisas do nosso bairro que antes a RBS não dizia. Além de estar aqui aprendendo uma profissão, essa oportunidade melhora a nossa vida aqui no bairro”, destaca.
Para Boaventura, estas ações, que são desenvolvidas a partir da realidade midiática local não podem ser desconsideradas por Movimentos sociais ou teorias que buscam compreender e desenvolver projetos alternativos. Mais do que reconhecer ou desenvolver é indispensável também a sistematização, divulgação e interconexão dessas experiências com outras existentes. Sair do localismo para o global é um movimento necessário, mas que requer sensibilidade e acolhida ao invés de separação e distinção entre siglas partidárias, bandeiras de luta ou posicionamentos teóricos. Precisamos ampliar o reconhecimento das diversas práticas comunicacionais do presente e reduzir a aquela expectativa salvífica posta apenas num futuro, afirma Boaventura.
Por uma educação popular comunicacional
Assim, a emancipação sócio-comunicacional despontará quando um processo educativo popular for implementado pelas forças contra-hegemonicas atuais, como movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias e universidades. Essa proposta de educação popular comunicacional deverá conceber os meios de comunicação não mais pela sua lógica instrumental, mas como um espaço capaz e tão importante de mobilização e de luta quanto o próprio partido político, o movimento social ou a associação.
Como diz o subcomandante Marcos, do Movimento Zapatista, se “pudemos ficar calados por 500 anos”, então é porque desponta um momento positivo e de novas alternativas libertadoras. Para isso é urgente uma racionalidade mais ampla, que contemple experiências de mídia gestadas por sujeitos, mesmo que em suas individualidades ou nas mais remotas comunidades, mas que indiciam a concretude de uma comunicação social emancipadora e popular de verdade.

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