O contexto latino americano, novos saberes e a diversidade epistemológica

3 de novembro de 2010 Processocom

Por Joel Guindani

Em palestra realizada no mês de setembro deste ano, na Colômbia, o sociólogo Boaventura de Souza Santos apresenta suas teses sobre os caminhos e descaminhos da sociedade contemporânea, evidenciando como, nesse contexto de aberturas democráticas, emergem novas saberes, que por sua alta densidade de reconhecimento das experiências locais, problematizam as epistemologias ocidentais que até então prevaleceram sobre a produção e distribuição de conhecimento.

Há, no interior da vida cultural e política latino americana , alguns movimentos constantes de resistência e ação política e cultural. Boaventura refere-se à duas noções: Lutas ofensivas, as que questionam o capitalismo e o colonialismo, tendo em vista outro mundo possível. O capitalismo não é apenas um modo de produção, mas um modo de civilização, que caminha para a destruição e morte da vida, tanto a humana como a ambiental. Lutas defensivas: uma luta para não se perder o que já conquistamos. Boaventura também destaca que essas lutas defensivas são respostas ao ataque da política norte americana, ainda ativo na contemporaneidade. Basta, segundo ele, observarmos as tentativas de secção e isolamento aos países como Venezuela, Cuba, Costa Rica, como também o próprio golpe em Honduras, a tentativa de militarização da fronteira Amazônia tão defendida por políticos brasileiros; o terrorismo contra os movimentos sociais, especialmente no Brasil, como o pretendido contra o Movimento Sem Terra pelo governo tucano de Ieda Crusius.

Para Boaventura, o contexto latino americano é da acumulação capitalista, que se expressa na agenda política, cultural e social ainda colonialista: “a concentração da terra é colonialista, o racismo é colonialista”. Ainda ressalta que é preciso considerar o uso contra-hegemônico de instrumentos hegemônicos que a sociedade organizada vem fazendo: o uso dos espaços eleitorais e democráticos e as vias legais do estado como bem se utiliza o MST. Esse uso contra-hegemônico é algo novo que está surgindo nas brechas do neoliberalismo. Assim, devemos repensar as teorias que não as previam: “Essa imprevisibilidade é a expressão do seu distanciamento da prática”. Quer dizer, são teorias que não vêem o que está se passando na prática : “os movimentos sociais do sul não estão previsto nas teorias eurocêntricas, tanto a neoliberal como boa parte da marxista. As mulheres, negros, indígenas são invisíveis e não se constituíam como uma força importante para a esperada revolução.

Isso se deve, para Boaventura, ao fato de que as epistemolgogias do norte foram criadas a partir de cinco países: Alemanha, Inglaterra, Itália, França e EUA: “o erro da teoria fora da prática gera o desperdício de experiências”. Temos, por um lado, teorias produzidas no norte e, por outro, experiências produzidas no sul. “Essas práticas ficam desprotegidas de sistematizam e na maioria das vezes são apropriadas por teorias colonialistas ou relativistas.”

Segundo Boaventura, devemos inventar novas epistemologias que reconheçam essas experiências, que não são totalizantes ou que seguem uma única lógica apenas histórica como apregoam alguns aportes científicos ocidentais : “não devemos defender um único critério de validez do conhecimento”. E mais, não podemos planejar nossas ações somente a partir de outros conhecimentos. Há uma pluralidade epistemológica e ontológica no mundo: “não há uma única forma de viver e de conhecer”. É preciso escapar do conhecimento monocultural eurocêntrico. Devemos considerar o conhecimento cientifico de alta densidade e de relação com as experiências locais e com os saberes emergentes dos movimentos sociais. Aqui vale destacar a noção de ecologia dos saberes. Para Boaventura, o conhecimento ocidental tem dificuldade de reconhecer ou identificar a riqueza da espiritualidade nas manifestações culturais e políticas do sul. Por isso, “as teorias ocidentais reduzem ou desconsideram o que elas não compreendem ou produzem como inexistente o que elas não entendem”.
Há, para o sociólogo, uma diversidade de epistemologias pelo mundo e a compreensão do mundo é muito maior do que a compreensão ocidental do mundo. Por exemplo, a noção de estado não é mais a de estado único, como a concepção moderna. O estado não é mais uma unidade porque ele se constitui, cada vez mais, na tensão com as forças plurais da sociedade. Há o desponte de novos estados modernos que variam entre “democracias deliberativas, representativas, participativas e comunitárias.”

Eis a diversidade das práticas, saberes e democracias que emergem no contexto latino americano e que fundamentam a necessidade de novas perspectivas epistemológicas sobre estado, política, cultura, sociedade e movimentos sociais.

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