Notícias em 140 caracteres: o uso jornalístico do Twitter

23 de agosto de 2010 Processocom

Por Taís Seibt

O uso jornalístico do Twitter invade as redações. Até mesmo a grande imprensa apela para a ferramenta na cobertura diária dos acontecimentos. Ocorre que essa rede social possibilita realizar o fetiche imediatista do profissional de comunicação. O jornalista é movido pelo desejo de dar a notícia em primeira mão, ou “em tempo real”, como reza a Bíblia da web. Em contrapartida, o compromisso de “twittar” torna o comunicador cada vez mais escravo do relógio. Com a diferença de que, agora, ele não se escraviza para entregar a matéria em tempo do fechamento da edição, mas fica na obrigação de noticiar mesmo depois que a edição impressa já fechou.

O caso da editora e colunista de Política do jornal Zero Hora, Rosane de Oliveira, representa bem essa situação. No debate dos candidatos ao governo gaúcho, transmitido pela TV Bandeirantes, no dia 12 de agosto, por exemplo, ela fazia a cobertura “minuto a minuto”, como já se tornou praxe em seu perfil. Rosane ficou na redação até depois da meia-noite, conforme relatado por ela mesma na rede social. Durante a cobertura, anunciou aos seguidores que não houve tempo de dar repercussão para o debate no jornal do dia seguinte. A internet serviu como um recurso para que não se deixasse de dar a cobertura a um acontecimento que atende bem aos critérios de noticiabilidade, chamados de valores-notícia nos estudos sobre a atividade jornalística, apesar de não bater com o cronograma da redação.

Jorge Pedro Sousa, em seu livro Teorias da notícia e do jornalismo, aponta que os acontecimentos fora das horas normais de trabalho do jornalista apresentam menores hipóteses de serem cobertos. “As horas de fecho forçam o jornalista a parar a recolha de informação e a apresentar a história, classificando, hierarquizando, selecionando e integrando apenas as informações recolhidas até esses limites horários” (SOUSA, 2002, p. 47).

Ao que parece, não há mais horário, nem limite. É preciso estar a todo instante recolhendo informação e transformando quase instantaneamente um acontecimento em notícia. Além da questão cronológica, a adequação do Twitter à linguagem jornalística pode ter contribuído para a viralização de seu uso pelos veículos de comunicação.

Traquina (2008, p. 46) aponta que o jornalista tem uma maneira peculiar de falar com seu público, por meio de frases curtas, palavras simples, sintaxe direta e econômica. O modelo parece ideal para o Twitter, uma vez que se dispõe de no máximo 140 caracteres para transmitir uma informação. E é possível noticiar de 140 em 140 caracteres? As experimentações estão aí para nos inspirar nessa avaliação. Percebe-se que boa parte dos twitteiros opta por informações manchetadas e indicam um link para o texto completo hospedado em outro site ou blog, ou então recomenda vídeos, áudios e fotos. Por outra via, não faltam exemplos de coberturas completas no Twitter, ainda que fragmentadas em diversos tweets, como é o caso do “minuto a minuto” proposto por Rosane de Oliveira no acompanhamento jornalístico das eleições.

Em uma conferência realizada em julho deste ano na Universidade Complutense, na Espanha, Mario Tascón, editor da Diximedia (que publica 233grados.com, Practicopedia e Lainformacion.com), deu um palpite provocador: “Estamos vendo como uma ferramenta como o Twitter está até começando a substituir as agências de notícias. Pode-se dizer que ele está substituindo inclusive um meio convencional como o rádio. Pelo menos, para boa parte das pessoas”. O Twitter é um meio, ao mesmo tempo uma fonte, como pode ser um canal. É mais uma das ferramentas tecnológicas que cai no gosto dos usuários, desafiando profissionais da comunicação, bem como os estudiosos do tema. Se ele vai se consolidar e de que forma ele vai se consolidar como mídia, somente com o tempo será possível dizer. Enquanto isso, toda reflexão – e cautela – parece válida.

Referências:

LARZABAL, Juan. ‘O Twitter está substituindo as agências de notícias’. Disponível em http://www.fndc.org.br/internas.php?p=noticias&cont_key=559912 . Acesso em 19, agosto, 2010.

SOUSA, Pedro Jorge. Teorias da Notícia e do Jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: a tribo jornalística – uma comunidade interpretativa transnacional. Florianópolis: Insular, 2008.

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