Afeganistão e Iraque: guerras de um trilhão de dólares

1 de agosto de 2010 Processocom

IHU OnLine – 27/7/2010

Cada caixão de zinco levado de volta para casa, envolto na bandeira, cada cadáver deposto na terra de um cemitério, entre lágrimas e salvas de fuzil, custaram aos EUA, até agora, 200 milhões de dólares por baixa. Um lúgubre recorde.

A reportagem é de Vittorio Zucconi, publicada no jornal La Repubblica, 26-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando o medidor de taxas das guerras sem fim, sem perspectivas e, no caso da invasão do Iraque, sem honra, desejadas por Bush e continuadas por Obama, superou um trilhão de dólares no início de julho, as operações “Iraqi Freedom” e “Enduring Freedom”, como foram chamadas retoricamente, tornaram as expedições militares mais caras per capita na longa história das guerras norte-americanas.

Não as mais caras em absoluto, porque o recorde de custos ainda pertence aos quatro anos da Segunda Guerra Mundial, quando o tesouro nacional teve que desembolsar mais de 4 trilhões de dólares, em valor atual, para derrotar a Alemanha, a Itália e o Japão e libertar o mundo da infestação nazista e fascista.

Mas o resultado do estudo conduzido pelo serviço de pesquisas do Parlamento norte-americano, uma comissão apolítica e apartidária, não mente. Para mandar ao fronte dois milhões de homens e mulheres que se revezaram entre o Iraque e o Afeganistão nos quase dez anos de combate, e para ver 5.400 voltaram em caixões de zinco, a nação gastou 1,21 trilhões de dólares.

Na Segunda Guerra, os soldados foram quase 16 milhões, com 480 mil baixas. Cada morto custou, além do sangue e das lágrimas, 9 milhões de dólares, no horrível relatório de “custo de baixas” que toda guerra impõe.

Uma das tragédias dentro da tragédia moral e estratégica dessas guerras em dois frontes, e uma das razões pelas quais elas já desapareceram do radar das ansiedades e da atenção nacional, é que o Iraque e o Afeganistão são operações assustadoramente caras individualmente, mas ainda baratas para a economia norte-americana.

Como foi observado ainda nos primeiros meses do conflito, entre a invasão do Afeganistão em novembro de 2001 e os bombardeios “shock and awe” em Bagdá para paralisar e aterrorizar o regime de Saddam em março de 2002, a incidência dessas ações na vida cotidiana dos cidadãos norte-americanos, sobre os seus bolsos ou sobre as contas públicas é marginal, senão imperceptível.

Para permitir que a última “Grande Geração” libertasse o mundo de Hitler, Mussolini e do militarismo japonês, os EUA tiveram que comprometer mais de um terço, 36%, da receita federal. Para mandar 2 milhões de soldados à Ásia depois do 11 de setembro, esse trilhão gasto até agora é apenas 1,6% do orçamento.

Não se veem, portanto, atores e estrelas do esporte, grandes diretores como Frank Capra ou heróis imaginários como Mickey viajando pelos EUA mobilizando os espíritos patrióticos dos cidadãos para que assinem os “War Bonds”, o empréstimo de guerra. Na fornalha da dívida nacional e do déficit de orçamento, aquele trilhão de dólares não é nada, assim como aqueles 5 mil e mais mortos em dez anos não são nenhuma anomalia estatística nas tabelas do censo, com relação aos 616 mil mortos por ano por doenças cardiovasculares ou às 115 vítimas de acidentes de trânsito a cada dia.

Pela primeira vez na história norte-americana, e talvez de todas as grandes nações, nem aumentaram os impostos sobre a renda ou aqueles indiretos sobre os consumos para financiar um conflito, que parece ser combatido com o dinheiro dos outros e com os filhos dos outros. Ninguém que não tivesse familiares no fronte teve que sacrificar um centavo de sua própria renda ou um minuto de seu próprio dia para que essas guerras fossem feitas, porque assim quis Bush quando anunciou que “o Iraque seria pago só com o petróleo”, e Obama não pode se permitir mudar isso.

Um trilhão e quase dez anos mais tarde, morrer em Kandahar ou em Bagdá já não gera manchetes há anos. A oposição da direita, que acusa Obama de ter desfeito a receita nacional com a reforma da saúde ou os subsídios aos desempregados, ousa criticar-lhe pelo preço desses mortos e dessas guerras sem fim. Nem a enormidade do custo social, dos tratamentos médicos – quando existem –, a reabilitação, a dificilíssima reinserção dos feridos, dos mutilados, dos sobreviventes com as suas profundas lesões psicológicas, custo que na lista de preços das guerras para “exportar a democracia” não está calculado, assustam e perturbam um público que está acostumado às notícias e às lutas nos frontes orientais, reservadas aos voluntários uniformizados. Um trilhão e 21 milhões (mas o número aumenta a cada segundo, como registra o angustiante site www.costofwar.com, no qual se vê o preço subir em milhares de dólares por segundo) é menos do que a nação gastou, de 2001 até hoje, em fast food, em hambúrgueres, milk-shakes e batatas fritas, 1,2 trilhões de dólares.

Portanto, a guerra que não existe, que custa menos do que um McLanche Feliz, o lanche das crianças no McDonald’s com um brinquedo de plástico de brinde, não será freada pelo custo financeiro e nem pelo humano. Os EUA podem se permitir outros 20, 30 anos de operação militar no Iraque ou no Afeganistão e ignorar outros milhares de caixões, mais baratos do que batatinhas e milk-shakes.

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