O quadro científico no Brasil, artigo de Nagib Nassar

22 de julho de 2010 Processocom

JC e-mail 4057, de 21 de julho de 2010.

 

 

“A política seguida pela Capes e pelo CNPq garante uma base sólida da qualidade de doutores formados”

 

Nagib Nassar é professor e pesquisador sênior da Universidade de Brasília (UnB). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

Em entrevista publicada no JC e-mail da semana passada, um professor alega que há um grande superávit de doutores formados anualmente devido à atual política da Capes e do CNPq, sem mencionar números, dados estatísticos, ou mesmo qualquer referência sólida. Adicionou que isto se reflete negativamente sobre a qualidade e quantidade da produção científica no país.

Isso não é verdade, pois os dados publicados recentemente pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) e projetados pela mídia brasileira mostram o contrário.

Conforme esses dados, é verdade que houve um crescimento de 270% no número de doutores no Brasil de 1998 a 2008, com uma taxa anual de 11,9%. Mas a realidade é que o Brasil ainda encontra-se muito inferior quanto ao quadro de doutores, comparado a outros países europeus e com os Estados Unidos. De acordo com os números, o Brasil conta com apenas 1,4 doutor por cada mil habitantes, enquanto países como a Suíça e a Alemanha estão com 23 e 15.4 doutores por mil habitantes.

Se Brasil possui atualmente 132 mil doutores, esse número é ainda muito pequeno e não ultrapassa a 0.7% da população, comparado a 4% em muitos paises europeus. O Brasil ainda necessita multiplicar o seu quadro de doutores por várias vezes, para atingir o nível europeu. Graças ao trabalho da Capes e o CNPq, essa lacuna vem diminuindo ano após ano.

Há ainda a distribuição geográfica dos doutores no país, notando que o crescimento ocorre basicamente no Sudeste, enquanto que na região Norte e Nordeste a taxa de crescimento é muito pequena, ocasionando uma escassez de doutores em seu quadro científico, que necessita ser ampliado para compensar a desigualdade social e científica historicamente sofrida.

Os dados mostram, também, outro grave problema que é a grande carência de doutores nas universidades brasileiras. Em todas as instituições de ensino superior, entre as particulares e públicas, apenas 24% dos professores são doutores.  Das 55 universidades federais hoje existentes no Brasil, nove (16.3%) encontram-se abaixo do nível exigido pela lei, pois não possuem o mínimo de 25% de doutores em seu quadro para serem denominadas como universidade.

Na referida entrevista, há referência a um reflexo negativo do crescimento de doutores com relação ao nível de produção científica do país, sendo ela produzida principalmente por doutores em suas teses e projetos de pesquisa. Trata-se de uma colocação incorreta, pois a maioria das universidades exige dos candidatos a título de doutor, como pré-requisito de defesa de tese, a publicação de pelo menos um artigo em periódico indexado e com um bom fator de impacto.

A Capes aplica em sua avaliação dos cursos de pós-graduação o mesmo principio, e condiciona o seu apoio financeiro e a concessão de bolsas, à qualidade e quantidade de produção cientifica dos programas de pós-graduação.

A política seguida pela Capes e pelo CNPq garante uma base sólida da qualidade de doutores formados. Se o professor atua em um curso de pós-graduação deveria saber disso.

O CNPq aplica o mesmo princípio em seus critérios de julgamento, em todos os comitês, nas diferentes áreas de conhecimento, quando da avaliação das bolsas de produtividade.

Se o Brasil tem algo para se orgulhar cientificamente em tudo o mundo, isso se deve ao trabalho da Capes e do CNPq, e ao seu sistema de pós-graduação.

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