O poder de sineiro

16 de julho de 2010 Processocom

Por Stéfanie Telles

Para homenagear o escritor português José Saramago, que nos deixou no último dia 18, o professor Efendy Maldonado convidou o Processocom a ler o texto do autor Da justiça à democracia, passando pelos sinos para ser debatido no encontro do grupo do dia 30 de junho.

Saramago

O Prêmio Nobel de literatura conta no texto uma história que se passa na idade média, no tempo em que os sinos das igrejas regulavam a vida das pessoas, as informando sobre assuntos da comunidade e mobilizando-as para a deliberação de assuntos diversos. Porém, certo dia, numa aldeia dos arredores de Florença, quando todos os habitantes encontravam-se em suas casas ou nos cultivos trabalhando, se ouviu soar o sino da Igreja de forma melancólica, avisando-os de que alguém havia falecido.
Surpreendidos com o toque fúnebre, devido ao desconhecimento de casos graves de saúde na região, a população rapidamente reuniu-se na porta da Igreja a espera de informações. Contudo, ao invés do esperado sineiro, quem apareceu foi um camponês que, vítima de um ganancioso senhor do lugar que todo dia lhe roubava um pedaço de terra, havia protestado, reclamado e suplicado até para as autoridades sem nada conseguir. Com isso, resolveu utilizar como último recurso o sino da igreja. “Toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta”, disse o camponês na espera de uma comoção e mobilização que rompesse fronteiras e acordasse o mundo que, na sua compreensão, estava adormecido.
A metáfora utilizada por Saramago no texto para evidenciar a morte da justiça, pode naturalmente evidenciar tantas outras que enfrentamos diariamente: a morte da educação, do nosso sistema público de saúde, da segurança pública, etc. Sem falar das mortes que assolam o próprio ser humano, como a insensibilidade, a frieza e a indiferença pelo sofrimento alheio. Um claro registro do escritor português pelo desejo de mobilização da nossa “aldeia”, antes que seja demasiado tarde.
Mas o fato é que, devido à grande demanda de assuntos a serem discutidos na reunião do Processocom do dia 30 de junho, faltou tempo para discutirmos este texto de forma aprofundada, restando apenas, espaço para rápidos comentários. Mesmo assim, as rápidas ressalvas sobre o texto feitas pelos colegas, provocaram-me reflexões não apenas sobre as mortes evidenciadas neste “mundo adormecido”, mas também em compreender quem detém, nos dias de hoje, o poder de sineiro.
Em seu livro “Simulacro e Poder: uma análise da mídia”, a filósofa Marilena Chauí ressalta que “os profissionais dos meios de comunicação passaram a ocupar o espaço da opinião pública” (2006, p.12), no caso, sendo mediadores dos discursos particulares. Compreendendo desta forma, os meios de comunicação em suas diferentes plataformas, ao informar, alertar, influenciar, maquiar, mobilizar – entre tantos outros verbos possíveis – a sociedade, nos mais diversos assuntos, deteria o poder regulatório que antigamente era dado aos sinos das igrejas.
Penso que, até pouco tempo atrás, a realidade poderia ser facilmente compreendida apenas desta forma, com os meios de comunicação ditando os rumos e rumores da nossa sociedade. Entretanto, no ano de 2009, foi possível perceber os impactos causados pela rede social Twitter na política, nos negócios, na cultura do entretenimento e, também, num contexto político democrático. Em 2010, a força de mobilização nacional através do microblog provou-se ainda maior na Copa do Mundo da África quando os usuários tornaram mundialmente conhecida a frase “CALABOCAGALVAO” e, posteriormente, mobilizaram-se pelo “DiasemGlobo”. Sendo assim, será que o Twitter não estaria ocupando também o lugar de sineiro nos dias de hoje? Será que o microblog não tem permitido que o público ocupe o seu devido espaço? De opinião, ação e mobilização sem a necessidade de mediadores?
Por enquanto, discordo da revista Veja, em sua matéria de capa do dia 23 de junho de 2010, quando ela afirma que “O Twitter é uma espécie de vuvuzela da internet, que apenas amplifica o nada” (p.88). E, ao contrário do que muito se tem dito, penso que o Twitter não trará nenhum tipo de revolução. Porém, é inegável o processo de transformação pelo qual estão passando os meios de comunicação, as relações interpessoais e a própria linguagem. Mudanças ainda em processo, sem compreensões e/ou mensuração de resultados, que deixam em aberto ou em dúvida quem realmente detém, nos dias de hoje, o poder de sineiro na nossa sociedade.

Referências

  • CHAUÍ, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.
  • PAVÃO Jr, Jadyr; SBARAY, Rafael. “CALA BOCA GALVÃO” – O fenômeno planetário que engolfou o locutor da Globo na Copa mostra… A FÚRIA DO TWITTER. Revista VEJA, São Paulo, Edição 2170, Jun. p. 82-88, 2010
  • SARAMAGO, José. Da Justiça à democracia, passando pelos sinos. Texto de encerramento do 2º Fórum Social Mundial, 2002.
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