”Sexo não: somos norte-americanas”

2 de julho de 2010 Processocom

IHU OnLine30/6/2010

O Viagra rosa, a pílula que deveria estimular o desejo feminino, causa discussão entre médicos e psicólogos. Mas a queda da libido, defende Camille Paglia, não tem nada a ver com a química: pelo contrário, é o resultado de uma cultura difundida do “eficientismo” que atormenta a classe média branca.

Camille Paglia, ensaísta  e escritora norte-americana, é doutora em língua inglesa pela Universidade de Yale e professora da University of the Arts in Philadelphia, na Pensilvânia. Seu livro “Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson” é um best-seller mundial. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 28-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As mulheres terão em breve o seu Viagra? Recentemente, uma comissão da Food and Drug Administration rejeitou um pedido de comercialização do Flibanserin, um remédio para as mulheres com baixa libido, mas pedindo um aprofundamento da pesquisa. Mas depois da revolução sexual dos anos 60, a sociedade norte-americana se tornou sempre mais secularizada, com um ambiente midiático banhado em sexo.

O verdadeiro culpado vem do século XIX, e é a propriedade burguesa. Quando a respeitabilidade se transformou no valor central da classe média, censura e repressão se tornaram a norma. O puritanismo vitoriano deu fim à cômica franqueza sexual (tanto dos homens quanto das mulheres) da era agrária, uma licenciosidade relatada pelas comédias de Shakespeare até o romance inglês do século XVIII. Os pedantescos anos 50, que apagaram da memória cultural as “flappers”, as meninas emancipadas da Era do Jazz, foram simplesmente um retorno à normalidade.

Só o difundido movimento New Age, inspirado em práticas asiáticas focalizadas na natureza, preservou a visão radical da moderna revolução sexual. Mas o poder concreto está nas mãos da tecnocracia carreirística dos EUA, que cresce sobre o solo das escolas de elite, com a sua visão ideológica do gênero enquanto construto social.

No reino circunspecto dos colarinhos-brancos, homens e mulheres são permutáveis e desenvolvem o mesmo tipo de trabalhos intelectuais. A fisicidade é suprimida. No espaço higienizado dos escritórios, as vozes são diminuídas, e os gestos, contingenciados. Os homens devem se autocastrar, enquanto as mulheres ambiciosas postergam o momento da procriação. A androginia é fascinante na arte, mas na vida real pode levar ao aborrecimento e à estagnação, que nenhuma pílula pode curar.

Enquanto isso, a vida familiar colocou os homens burgueses em uma situação difícil. Eles são simplesmente engrenagens de uma máquina doméstica dirigida pelas mulheres. As mães contemporâneas são virtuosas superadministradoras de uma complexa organização centrada no cuidado e no transporte das crianças. Mas não é tão fácil passar com um estalar de dedos do controle apolíneo ao êxtase dionisíaco.

Os maridos também não oferecem um grande estímulo: visivelmente, os homens norte-americanos continuam sendo eternos meninos, como demonstram as camisetas largas, as calças frouxas e os tênis que usam da pré-escola até a meia idade. Os sexos, que tempos atrás ocupavam mundos intrigantemente distintos, estão sofrendo com o excesso de familiaridade, uma maldição da cotidianidade. Não há mais mistérios.

O poder elementar da sexualidade também diminuiu na cultura popular norte-americana. Quanto estava em vigor o código de conduta tão denegrido dos estúdios cinematográficos, Hollywood produzia filmes que transbordavam flerte e romantismo. Mas a partir do início dos anos 70 em diante, chegou a nudez, e aquela tensão sexual crescente foi perdida. Uma geração de cineastas perdeu a habilidade de insinuações sofisticados. A situação piorou nos anos 90, quando Hollywood começou a roubar ideias dos videogames, para transformar mulheres em superheroínas cartunisticamente espirituais e androides de ficção-científica, figuras de fantasia, sem a complexidade psicológica ou as necessidades eróticas das mulheres reais.

Além disso, graças a uma cultura burguesa branca que privilegia os corpos eficientes sobre os voluptuosos, as atrizes norte-americanas se dessexualizaram, confundindo atletismo estéril com poder feminino. Sua aparência atual afinada pelo Pilates é esticada e tensa – membros e quadris estreitos de um menino magro, combinados com seios ampliados. Um vivo contraste com o gosto latino e afro-americano, que corre em direção à silhueta saudável e “bem dotada” da Beyoncé.

A energia sexual é uma questão de classe, e isso pode ser indicado pela aparente popularidade marcante da Victoria’s Secret e suas lingeries atrevidas entre as classes baixas e média-baixas multirraciais, mesmo em shoppings suburbanos, que apontam principalmente para a classe média branca. A música country, com a sua história enraizada no sul e no sudoeste rural dos EUA, ainda é cheia de cenários incrivelmente vulgares, onde os sexos continuam sendo dinamicamente polarizados de uma maneira antiquada

Por outro lado, a música rock, uma vez pioneira da libertação sexual, está mal de saúde. O rhythm and blues negro, nascido no Delta do Mississippi, era a força motriz por trás das grandes bandas de hard rock dos anos 60, cujas versões cover de canções de blues eram preenchidas com eletrizantes imagens sexuais. A hipnótica gravação dos Rolling Stones de “Little Red Rooster”, de Willie Dixon, com o seu excitante exibicionismo fálico, é de uma sensualidade impressionante.

Mas com o enorme sucesso comercial do rock, o blues deixou de ser uma influência direta sobre jovens músicos, que simplesmente imitavam os deuses brancos da guitarra, sem explorar as suas raízes. Aos pouvos, o rock perdeu sua crueza visceral e sua sensualidade sedutora. O rock das grandes estrelas, com o seu público endinheirado da classe média, agora é todo superego, sem id.

Nos anos 80, a música comercial impulsionou uma série atraente de musas pop como Deborah Harry, Belinda Carlisle, Pat Benatar e uma Madonna encantadoramente deliciosa. Depois, no entanto, Madonna se tornou burguesa e esquelética. A assistente de dança de Madonna, Lady Gaga, com a sua inclinação compulsiva ao excesso, é uma fabricação de alta qualidade, sem um pingo de erotismo genuíno.

As empresas farmacêuticas nunca vão encontrar o Santo Graal de um Viagra feminino – não nesta cultura orientada e consumida por valores da classe média. As inibições são teimosamente interiores. E a luxúria é demasiadamente impetuosa para ser deixada nas mãos do farmacêutico.

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