‘Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados’. Entrevista especial com Joel Guindani

6 de abril de 2010 Processocom

IHU – 05/04/2010

“Lanço a hipótese de que a própria elaboração político-documental do MST sobre comunicação será conduzida, cada vez mais, pelo campo da experiência comunicacional”, conclui Joel Guindani, durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Na entrevista, ele fala sobre a dissertação que desenvolveu, intitulada Políticas Comunicacionais e a Prática Radiofônica na Sociedade em Midiatização: Um estudo sobre os documentos de comunicação do Movimento Sem Terra (MST) e Rádio Terra Livre FM.

Guindani analisou as tensões que se apresentam entre o modelo do movimento sem-terra e a Rádio Terra Livre FM, uma rádio comunitária vinculada ao MST, e também refletiu sobre os indícios de midiatização que surgem a partir dessa relação. “Se definirmos qualquer manifestação comunicacional como midiatizada, corremos o risco de simplificar a existência deste movimento social somente a partir da cultura tecnológica. O MST, muitas vezes, age midiaticamente, mas não somente sob esta perspectiva. Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados”, explicou.

Joel Felipe Guindani é doutorando em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que tensões se apresentam entre o modelo de comunicação do MST e o da Rádio Terra Livre FM?

Joel Guindani – Tanto Marx [1] quanto Morin [2] afirmam que os sistemas sociais se desenvolvem sob a lógica da tensão, do conflito e até mesmo da contradição. Nesta direção, percebemos que o campo comunicacional do MST não é homogêneo e, por isso, focos de tensão tornam-se eminentes. Não afirmo que o MST tem um único modelo de comunicação, mas políticas, que buscam dar certo direcionamento à diversidade de ações comunicacionais desenvolvidas por seus militantes. Minha curiosidade foi perceber como os ouvintes locutores desta rádio estavam lidando com as proposições políticas sobre comunicação, tendo em vista os processos de midiatização social.

Para quem esta rádio está sendo feita? Para os objetivos que reclamam as proposições político-documentais do MST ou para as demandas da comunidade, esta cada vez mais orientada pelas lógicas da midiatização? Obviamente, não houve consenso nas respostas. Para alguns, a rádio deve atender, indistintamente, às demandas da comunidade, mesmo que elas requisitem informações sobre o Big Brother Brasil. Já para outros, a Terra Livre deve ser a “voz do MST” e jamais veicular os lixos culturais do monopólio midiático.

IHU On-Line – Durante sua pesquisa, como foi o processo de conversa, análise e crítica ao modelo de comunicação do MST?

Joel Guindani – Eu estudei não apenas a relação cooperativa ou acertada entre políticas comunicacionais e a prática da Rádio Terra Livre FM, mas, principalmente, as disjunções, tensões e desgastes dessa relação. Além das regularidades percebidas, como as inúmeras ações libertadoras, potencializadas pela Rádio Terra Livre, busquei erigir minha contribuição a partir de um conflito. Acredito que o novo só se instaura onde há a dúvida e a crítica. Longe dessa perspectiva, pouco se avança. Tive o total apoio e abertura do Movimento Sem-Terra. Inclusive alguns militantes contribuíram financeiramente com minha pesquisa. Na caminhada, fui criticado apenas por um militante, que afirmou ser desnecessária a pesquisa acadêmica, já que a revolução estaria assegurada pelas próprias contradições do sistema capitalista.

IHU On-Line – Você diz que o processo de tensão entre o MST e um veículo criado a partir do próprio movimento, como a Rádio Terra Livre FM, apresentam indícios de midiatização. Pode nos explicar isso?

Joel Guindani – A Rádio Terra Livre não surgiu apenas pela vontade do MST ou de algumas lideranças, mas, sobretudo, a partir das necessidades locais; do cotidiano dos assentados e da vontade de alguns jovens mais fascinados pela tecnologia. Por isso, creio que os indícios da midiatização são complexos e se manifestam em fenômenos variados. Os documentos de comunicação do MST também são indícios de midiatização, pois explicitam a preocupação do MST com a comunicação, ressaltando-a, inclusive, como uma das estratégias para sua luta.

Pude identificar, no depoimento de vários assentados, que a midiatização não diz respeito apenas ao uso de tecnologias, mas ao que se gera a partir desse uso. Para um dos entrevistados, “sem o rádio, o dia fica sem rumo, é como o galo ficar sem o sol; o dia fica perdido”.

IHU On-Line – Você define o MST, enquanto instituição, como midiatizado ou em processo de midiatização? Por quê?

Joel Guindani – Achar que tudo está midiatizado é reduzir a complexidade e a riqueza dos processos sociais, especialmente a dimensão criativa, bem como a incompletude da vida humana. Por outro lado, seria outro erro desconsiderar as afetações midiáticas sobre nossa realidade. Identifiquei, nesta pesquisa, que a criação, gestão e funcionamento das experiências comunicacionais do MST também são expressões da criatividade de sujeitos que almejam, em alguma proporção, à construção da cidadania, e não, exclusivamente, resquícios da cultura midiática.

A midiatização está imbricada nisso, mas não é a medida de tudo. Na mesma direção, a natureza das ações comunicacionais do MST, na maioria das vezes, não tem a intenção de ser midiatizada e, em segundo, pela impossibilidade de acesso à técnica, como, por exemplo, as manifestações comunicacionais, como as marchas e ocupações realizadas secretamente na escuridão da noite. Se definirmos qualquer manifestação comunicacional como midiatizada, corremos o risco de simplificar a existência deste movimento social somente a partir da cultura tecnológica. O MST, muitas vezes, age midiaticamente, mas não somente sob esta perspectiva. Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados.

IHU On-Line – E de que forma você vê a midiatização influenciando os processos de luta do MST?

Joel Guindani – Observo as afetações da midiatização no MST a partir de dois movimentos diferentes, mas que se complementam. O primeiro diz respeito às afetações da mídia externa, como os ataques constantes que o MST sofre dos grandes grupos de comunicação, como a Bandeirantes e Rede Globo. Nesta perspectiva, não há muita folga para o MST. Ele precisa agir rapidamente, quase sempre na defensiva e sua ação midiática é mais reativa do que programática.

O segundo modo de compreender as afetações da midiatização no MST é observando o desenvolvimento de seu próprio campo midiático. Então, a midiatização é mais relacional e não tanto transversal, como diz Antonio Fausto Neto. Nesta perspectiva, há uma folga para o MST empreender seu agir midiático, tanto no desenvolvimento de seu próprio arsenal comunicativo como nas ações mais programadas, por exemplo, a divulgação das marchas e outros eventos.

IHU On-Line – A partir dos documentos do MST que você analisou, quais as regras que devem orientar o campo comunicacional do movimento?

Joel Guindani – As orientações, contidas nos documentos por mim analisados, são inúmeras e vão desde ações mais específicas – de como um militante deve se portar em uma entrevista à imprensa – até considerações mais amplas, como os princípios que o funcionamento de um veículo de comunicação deve seguir. Em dois documentos analisados, identifiquei que o problema para o MST é com o conteúdo que deve ser produzido por seus meios de comunicação. Quer dizer, a produção de conteúdo para os veículos de comunicação, bem como a ação dos porta-vozes devem estar subjugados a preocupações estritamente políticas. Não há, pelo menos nos documentos analisados, a preocupação com a mudança na estrutura e no processo de comunicação.

Por vezes, a orientação desses dois documentos demonstra-se autoritária, como o modelo de comunicação desenvolvido pela mídia dita burguesa; onde somente os artistas ou mais preparados têm espaço garantido. Um dos documentos é taxativo ao enfatizar que, se algum veículo não estiver agindo de acordo com as linhas políticas, ele não tem razão para continuar existindo. Ao entrevistar os ouvintes e comunicadores da Rádio Terra Livre, identifiquei um ponto de conflito. De acordo com eles, alguns documentos desconsideram outros fatores mais específicos que compõe a complexidade do fazer mídia. Primeiramente, porque cada veículo é um ator, com sua história e suas lógicas e, em segundo, porque é preciso considerar a multiplicidade das intenções culturais, históricas e simbólicas que permeiam o chão de seus militantes quando pensam ‘o fazer comunicação’.

Não obstante, mesmo que os veículos de comunicação sejam utilizados ou considerados de maneira instrumental pelas proposições político-documentais, percebemos indícios de uma reflexão mais programática e complexa. Outro documento aponta reflexões sobre essa problemática, especialmente sobre as possibilidades de gestão dos veículos para e/ou a partir de especificidades não apenas politizadoras ou para os mais politizados: “criar oportunidades para que o maior número possível de militantes se envolva, planeje e participe de tarefas relacionadas com a comunicação, formando os comunicadores populares e os militantes comunicadores”, diz o documento.

IHU On-Line – Como você analisa as estratégias de construção de uma política de comunicação do MST?

Joel Guindani – Impossível pensar as ações comunicacionais do MST distante de uma perspectiva política mais geral ou até mesmo totalizadora. É da natureza dos próprios movimentos sociais de massa observar os veículos de comunicação como instrumento a serviço de suas bandeiras. Para Lênin [3], o jornal era o partido. Para o grupo da AgitProp Russa [4], o fazer comunicação devia ter uma motivação ideológica, e, para isso, era fundamental um processo permanente de seleção,  formação e educação política dos militantes. Neste ponto, deflagra-se mais um problema para os comunicadores da Terra Livre FM. Como pensar uma política de comunicação que contemple as inúmeras e complexas ações desenvolvidas por diversos sujeitos em praticamente todos os assentamentos do MST?

Para alguns ouvintes, ações normativas, como proposições político-documentais, podem, muitas vezes, reduzir e não potencializar ações comunicacionais, especialmente as protagonizadas pelo rico imaginário popular; pelas pequenas coisas e necessidades do cotidiano. Nesta direção, identifiquei que o MST se depara com a diversidade e a deslocalização de costumes e valores erigidos e operados pelos novos fluxos e fontes de informação. Sem dúvida, essa diversificação informacional e a difusão da cultura e de mediações para além das cercas deste Movimento Social são os grandes desafios que o universo da midiatização impõe à construção de sua política comunicacional.

Lanço a hipótese de que a própria elaboração político-documental do MST sobre comunicação será conduzida, cada vez mais, pelo campo da experiência comunicacional, do retorno a questões do cotidiano de sua base, este cada vez mais estruturado pelas lógicas e demandas da sociedade em midiatização.

IHU On-Line – A mídia tradicional influencia, de alguma forma, na construção do processo comunicacional do MST e dos veículos de comunicação que o representam?

Joel Guindani – Claro que sim. Da mesma forma, a mídia tradicional também é afetada pelo MST.  Neste caso, há graus de afetação que variam de acordo com o veículo ou situação de comunicação. Por exemplo, muitos veículos do MST, especificamente os de massa, como o site e, cada vez mais, os vídeos produzidos para o youtube, foram criados ou ativados a partir da necessidade de dar respostas aos ataques da grande mídia. Ou como enfatiza um dos documentos que analisei: “Na forma de comunicação com a base e com a sociedade, desmistificar a visão de que o MST é violento”.

Por outro lado, a afetação da mídia é relativa, especialmente quando tratamos de veículos desenvolvidos para ações mais pontuais. Como diz um dos fundadores da Terra Livre FM: “depois que conseguimos a terra, a gente não estava muito aí com o que a mídia falava de nós. Esta rádio nasceu para entreter o povo e também para ajudar a nossa cooperativa aqui nos assentamentos”, relata. Há poucos dias, revisei um dos jornais do MST que irá circular pelo estado de Santa Catarina. De todo o conteúdo, apenas algumas linhas fazem crítica ao Big Brother Brasil. As demais matérias objetivam a publicização das conquistas do MST no estado, como também dicas sobre culinária e beleza.

IHU On-Line – Qual o papel da Rádio Terra Livre FM enquanto uma rádio comunitária, em sua opinião?

Joel Guindani – Sempre observei a Rádio Terra Livre FM não apenas como um instrumento tecnológico, mas como um espaço de comunicação que disponibiliza aos sujeitos novas possibilidades sociais. Ou melhor, este veículo de comunicação remete a novos modos de percepção, conhecimento sobre a realidade e a novas sensibilidades criativas, até então desconhecidas ou pouco reconhecidas pelo grupo de comunicadores como também pelos seus próprios ouvintes. A presença da Rádio Terra Livre FM possibilita aos seus ouvintes e comunicadores novas formas de interação e de conhecimento sobre a realidade local e sua relação com o mundo.

Em alguns depoimentos, percebi que esta tecnologia de comunicação permite o reencantamento das oportunidades profissionais, como também subjetivas e lúdicas dos assentados. Para mim, é emblemático o depoimento de um jovem comunicador. Ele relata o período em que a Rádio Terra Livre fechou suas portas por falta de recursos financeiros: “quando essa rádio abrir de novo, nós não vamos mais deixar ela fechar. Se for preciso, a gente continua comendo arroz e feijão puro todos os dias como muitos de nós vêm fazendo para aguentar aqui. Essa rádio é uma casa para nós”, enfatiza.

Enfim, a Rádio Terra Livre não cumpre um único papel, mas vários. E eles são tecidos a partir dos usos que os sujeitos fazem desta emissora como também pelas próprias lógicas que o seu funcionamento impõe a esses sujeitos. Nesta relação, rádio e sujeitos se complementam e, juntos, dinamizam novas esperanças e práticas de comunicação libertadora.

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